Curta evidencia sexismo ao inverter papeis entre gêneros

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Um curta de 2010 da francesa Eléonore Pourriat, chamado “Maioria Oprimida”, ganhou destaque esse mês da web depois de um artigo publicado no jornal britânico The Independent pela jornalista Ellie Rose.

O curta, de dez minutos, mostra uma inversão de gêneros em uma situação de assédio sexual na França que, no filme, é dominada por mulheres sexistas.

É engraçado perceber que nossa mente digere o vídeo como contendo situações absurdas mas, se os papéis estivessem trocados, estaríamos, se não mais confortáveis, mais acostumados com as mesmas (mesmo que não devêssemos).

Assita ao curta de Pourriat e leia a tradução do artigo de Rose abaixo:

“Maioria Oprimida”, de Eléonore Pourriat: por quê precisamos de mais filmes feministas como esse

Há muito mais em ser mulher do que mostramos – Por Ellie Rose

Como muitas mulheres, já fui assediada sexualmente mais de uma vez. Um homem apertou minha bunda em um elevador numa estação de metrô; um bêbado agarrou meus cabelos e tentou me forçar a beijá-lo do lado de fora de uma boate; e meu professor de direção “acidentalmente” tocou meu joelho e seio em algumas ocasiões (eu tinha 17 anos na época).

Esses foram incidentes nos quais homems que eu conhecia tentaram me coagir a fazer sexo com eles usando o que eu considero ser uma persuasão persistente e agressiva, além dos toques não-consensuais.

Houve uma época quando eu era uma jovem adolescente quando eu ouvi, através da parede que separava o quarto do meu irmão do meu, uma amiga dele descrevendo como um conhecido dos dois havia estuprado ela. Ela disse que ela não levaria o assunto à Justiça porque ela não queria ter o histórico sexual dela investigado. Eu não era a vítima, mas isso quebrou meu coração como se fosse.

Então, naturalmente, me senti tocada pelo curta de 2010 de Eléoner Pourriat, “Maioria Oprimida”, que atraiu interesse da imprensa nacional depois de se tornar um viral nessa semana. O filme nos apresenta a Pierre, um homem vulnerável em um mundo de mulheres. Ele é objetificado pelas mulheres lascivas, que comentam sobre a bunda dele e mijam sem vergonha na rua. Ele mostra sua preocupação a um amigo cuja esposa pediu que usasse um gorro balaclava, porque Deus quer que ele seja modesto.

Inicialmente humorístico devido à inovação da inversão de papeis, o filme entra em território muito mais sério quando Pierre é preso e tem uma faca apontada para seu rosto e é estuprado por uma gangue de mulheres, com uma delas ameaçando tirar seu pênis fora om os dentes. Pierre é confrontado por uma policial mulher, que trata sua queixa com ceticismo, antes de ser alertado pela esposa, que o acuso de se vestir de modo muito provocativo. “Eu me visto do jeito que quero!”, protesta o pobre Pierre.

Minha reação imediata foi que algumas partes do filme são brilhantemente verdadeiras – o desgosto invocado pelas mulheres urinando na viela (por quê permitiríamos que qualquer pessoa fizesse isso?), o estranho elemento exposto pela corredora mulher sem roupa (na vida real, homens podem exibir seus mamilos sem nenhuma razão específica, mas as mulheres são hostilizadas caso amamentem em público). Mas também senti que algumas partes se perderam em improbabilidades e desrepresentatividade.

Na realidade, a maioria dos estupros femininos são cometidos não por estranhos, mas por homens que conhecem a vítima (esse fato é importante, porque a ideia de que somente um estupro violento feito por um estranho é para valer acaba fazendo com que algumas vítimas se culpem). E talvez não seja verdade que a maioria das mulheres sejam diariamente submetidas a um tipo tão intenso de comentários sexuais quanto Pierre atrai no filme. Não estou dizendo que não acontece, apenas que não é minhas experiência ou algo que tenha acontecido a amigas [NOTA DA TRADUÇÃO: A jornalista claramente não vive no Brasil]. Encontro muitos homens diariamente que não me objetificam ou diminuem.

Pourriat explicou em uma entrevista que ela não pretende que o filme seja completamente realista; mas eu ainda não tinha certeza sobre como me sentia sobre o que tinha reparado como exagero. A verdade para mim é que o sexismo contra as mulheres se tornou algo normal, impregnado, insidioso; e, crucialmente, nem sempre é executado em voz alta nas ruas sob a luz do dia. Pelo menos temos leis e lugares para tentar coibir esses incidentes ou assédios físicos e verbais, apesar de elas não serem suficientes às vezes.

O que me preocupa tanto quanto é a forma silenciosa, aceita, sutil e totalmente legalizada como mulheres são retratadas todos os dias em todas as partes da Europa. A mídia é um culpado em particular, e um muito difícil de enquadrar. De acordo com estudos, nós vemos pelo menos 247 imagens de marketing todos os dias – significando que as mulheres são constantemente e silenciosamente contactadas por anúncios que as retratam como seres sensuais, compradoras ávidas de roupas, e consumidoras vorazes de chocolate – aquelas que precisam de novos pós de limpeza e compras semanais na Islândia para se sentirem completas.Estou falando sobre a objetificação casual das modelos da página 3. As correções não pensadas dos corpos de mulheres em capas de revistas. A barra lateral da vergonha do Daily Mail.

É difícil falar sobre isso encarando um anúncio condescendente ou um artigo que compara o senso de moda das esposas de líderes de partidos. É difícil explicar o que acho do que muitas qualidades supostamente “femininas” e interesses que são aprendidos da sociedade, e não herdados. E que as habilidades “femininas” (cuidados e comunicação, por exemplo) são consistentemente e silenciosamente desvalorizados e mal pagos. Isso é o que eu acho tão aflitivo quanto as coisas óbvias e escancaradas mostradas no curta (coisas pelas quais eu já passei, também), porque elas parecem ser dois lados das mesma moeda feia – um é um sintoma, o outro um ambiente que permite que os sintomas se manifestem.

Mas não há muitos filmes feministas bem sucedidos e muito assistidos que conseguem ser tão certos no conceito e tão ambiciosos em sua totalidade quanto o de Pourriat. Não acho que seja uma peça perfeita, mas ainda é boa e é uma contribuição que provoca reflexão. Fiquei perplexa quanto a o quanto eu investi em seu novo filme – como eu esperava depois de um curto período de tempo depois de assisti-lo que ele seria capaz de relatar tudo. “E a diferença de pagamentos entre os sexos? E as sacanagens do Twitter e misoginia online? E os batedores de esposas? Anorexia e problemas com o peso? Acesso ao aborto?”

Foi então que eu percebi que esse clipe de nove minutos – esse respiro de ar fresco – não poderia fazer tanto por mim. O fato de querer que ele fizesse isso só mostra que não há filmes suficientes como esse se tornando populares publicamente. Eu gostaria de ver mais.

Original em http://www.independent.co.uk/voices/comment/elonore-pourriats-oppressed-majority-why-we-need-more-feminist-films-like-this-9126501.html

Para quem acha que é apenas ficção

Segue o relato de uma jovem brasileira publicado ontem, em sua página no Facebook, sobre uma situação muito parecida a do filme:

Acabei de chegar em casa depois de uma das situações mais frustrantes e absurdas da minha vida.

Depois de uma noite super bacana e produtiva, eu e um grupo de amigos (quatro mulheres e um homem) nos dirigimos pra Lapa para tomar uma cerveja.

Chegando lá, por volta das 4 da manhã, ficamos em um bar logo em frente ao Bar da Cachaça. Pedimos uma cerveja, tudo ok.

Eis que um homem de camisa rosa (vou postar fotos logo mais), fica rondando nosso grupo, jogando olhares e gestos desagradáveis e obscenos. Sendo ignorado, ele decide então passar a mão em uma das meninas, puxa-la bruscamente pelo braço e dizer algo como “você é linda, vem aqui”.

A questão é que eu não aceito mais assédio. NUNCA MAIS na minha vida eu vou me calar vendo uma mulher ser assediada.

Corri até uma viatura da “Lapa Presente” que estava próxima e, ingenuamente, pedi socorro enquanto o homem segurava a menina no meio do bar, com o aval e as risadas de todos os homens ao redor.
O policial correu até o bar. Porém, chegando lá, ele mudou de postura. Agiu com indiferença, enquanto o homem me ameaçava dizendo coisas como “você se meteu com a pessoa errada, sua puta, eu sou da região, nunca mais você pisa aqui”.

Mesmo ouvindo isso, os policiais (sim, eles foram surgindo) ignoraram e não faziam a menor questão de afastar o assediador. Enquanto isso, os amigos do homem berravam ofensas extremamente discriminatórias que não acho válido reproduzir.

A situação chegou no nível máximo no momento em que uma outra amiga sacou o celular para filmar o homem, que ficava tentando encostar na gente dizendo “tá vendo??? Te assediei???” (sob os olhos dos policiais). O homem ficou totalmente transtornado e deferiu socos e empurrões em minha amiga, que teve o celular totalmente destruído.
Eu, tentando cumprir o meu papel cívico, dei voz de prisão ao homem por agressão em flagrante e pedi que os policiais o encaminhassem para a DP mais próxima (no caso a 5a DP na Lapa).

Os policiais deixaram o homem ir embora. Os policiais recolheram nossas identidades, os policiais quase nos atropelaram com o furgão do “Lapa Presente”. Um major tentou dar voz de prisão em uma das meninas que bradava por ajuda, mas desistiu da ideia quando lembrei que ele podia tomar voz de prisão por abuso de autoridade. Os policiais foram embora. Fomos deixados no meio da Lapa, sob xingamentos do bar.

Decidimos ir até a Delegacia da Mulher mais próxima com duas pessoas que assistiram tudo e se indignaram com a situação. Para variar, nosso caso foi visto com apatia pelos inspetores da delegacia, que demoraram quase duas horas para concluir Boletins de Ocorrência cheios de erros de português e nomes errados. Aliás, enquanto minha amiga que foi agredida narrava o ocorrido, um dos inspetores falou “você tá agressiva demais pro meu gosto, abaixa teu tom de voz”.

Cheguei em casa agora com uma cópia do BO na bolsa, sabendo que provavelmente o original foi jogado no lixo quando fomos embora. Cheguei em casa sabendo que eu não tenho voz nenhuma dentro dessa sociedade machista onde até a Delegacia da Mulher é monopolizada por homens.

Mas cheguei em casa tendo a certeza que eu não me calo mais.
Eu e meus amigos somos provas vivas da FALÁCIA que é o tal LAPA PRESENTE, de como essa operação da polícia militar é um TEATRO, de como todas as agressões sofridas foram e serão devidamente IGNORADAS pelos “homens da lei”. LAPA PRESENTE é só mais um coadjuvante nesse filme da opressão policial.

Eu fui ameaçada. Eu ouvi policial falando pro meu amigo “deixa só eu tirar minha farda pra você ver”. Se acontecer qualquer coisa comigo ou com qualquer amigo meu envolvido, esse post tá aqui pra elucidar. E pra alertar.

Machismo mata. Machismo oprime. Machismo silencia, agride, viola e impede o progresso. Nós estamos fadados ao fracasso com esse modelo doente de Estado.

Encontrado em: http://www.facebook.com/bubna.mariaclara/posts/215199282002653

Agradecimentos à Rafaela Miotto e ao Rian Guimarães pelas contribuições.

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