O Panic! at the Disco de hoje ainda pode ser considerado uma banda?

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O Panic! at the Disco inicia seu segundo álbum, Pretty. Odd., com a faixa We’re So Starving, que carrega uma série de justificativas, comentando a demora da banda para lançar material novo, desculpando-se por terem sumido por esse período de tempo e usando como álibi o fato de estarem ocupados escrevendo músicas para seu público. Nessa mesma faixa há a frase “You don’t have to worry ‘cause we’re still the same band” (em tradução livre: “você não precisa se preocupar porque nós ainda somos a mesma banda”). Logo em seguida repetem “you don’t have to worry” algumas vezes, talvez querendo realmente evitar uma preocupação geral. Uma faixa introdutória que nos leva a pensar: nos dias de hoje, o Panic! at the Disco continua a mesma banda ou já podemos nos preocupar? É possível ser a mesma banda depois de tantas mudanças na formação e do destaque perceptível que o vocalista Brendon Urie ganhou recentemente?

Para obter tais respostas precisamos analisar a trajetória da banda, antes mesmo do Pretty. Odd. e a justificativa de We’re So Starving. Precisamos voltar para o primeiro álbum, lembrar/conhecer como o Panic! era para compreender o que mudou.

A+Fever+You+Cant+Sweat+Out++HQComo em várias outras bandas, os integrantes do Panic! se conheceram ainda na infância/adolescência. Tudo começou com Ryan Ross e Spencer Smith, ainda muito jovens, compartilhando interesses mútuos e fazendo covers de bandas que admiravam na época. Algum tempo depois, com a entrada de Brent Wilson e posteriormente de Brendon Urie na banda, estava definida a primeira formação do Panic! at the Disco. Inicialmente, Ryan era o vocalista; Brendon tocou guitarra até descobrirem seu potencial para o canto.

O ano é 2005 quando o álbum de estreia da banda, A Fever You Can’t Sweat Out, chega ao mercado, dividido em duas partes: da primeira até a sétima faixa, um som mais eletrônico, com batidas computadorizadas e sintetizadores; a partir da oitava faixa, instrumentos mais tradicionais, como piano e violoncelo. Divisão mais explicitada ainda na versão vinil do disco, que possui lado A contendo a primeira parte, e lado B contendo a segunda. Com letras provocantes, a banda aborda temas como adultério, prostituição e alcoolismo. Está presente no álbum I Write Sins Not Tragedies, o maior hit da banda até hoje, que promoveu reconhecimento e exposição mundial. O clipe simboliza exatamente o Panic! que tínhamos naquele época, uma banda com o estilo emo e que utilizava elementos teatrais e circenses.

Em meados de 2006, o baixista Brent Wilson deixou a banda. Posteriormente, os outros integrantes justificaram o ocorrido dizendo que Brent não era dedicado o suficiente e sequer havia participado da gravação do álbum como os outros. Jon Walker preencheu a vaga de baixista e completou a nova formação, que tampouco estaria livre de problemas.

Pretty+Odd+CoverApós um tempo de preparação e criação de músicas, foi lançado em 2008 o Pretty. Odd.. A diferença de estilo do novo álbum é evidente e vistosa. Um som mais puro e orgânico, sem sintetizadores e outros elementos utilizados no disco anterior, algo voltado para o folk, assemelhando-se sem intenção ao som de bandas como The Beatles. As letras polêmicas também foram abandonadas; as músicas falam sobre coisas mais brandas e felizes, pautadas em reflexões sentimentais e relacionamentos, fazendo de Pretty. Odd. um álbum mais natural e maduro. A banda evoluíra, e evoluída permitiu-se mudar não apenas sonoramente, mas estruturalmente. O ponto de exclamação foi retirado do nome da banda, mesmo com o desagrado de alguns fãs, alterando-o para Panic at the Disco. Ryan passou a ter participação mais ativa nos vocais, fazendo o solo de alguns versos e desenvolvendo melodias bem harmoniosas. O estilo circense dos shows anteriores foi deixado de lado e a turnê que promoveu o Pretty. Odd. possuía um ambiente simplista, floreado, com bolhas de sabão, onde o mais importante era entrar em contato com o público.

Em julho de 2009, Ryan Ross e Jon Walker anunciaram o desligamento da banda, alegando divergências criativas com os outros membros. Os dois formaram a The Young Veins e lançaram o álbum Take a Vacation! em junho 2010. A história da banda foi curta: em dezembro desse mesmo ano, Jon Walker anunciou no Twitter que eles entrariam em hiato e permaneceriam assim por enquanto. Clique aqui para assistir ao vídeo deles de Change.

Brendon e Spencer continuaram com o Panic!, resgatando o ponto de exclamação do nome original. Semanas após a saída de Ryan e Jon, lançaram New Perspective, que faz parte da trilha sonora do filme Garota Infernal. O videoclipe marca o momento em que o Panic! at the Disco se tornou uma dupla.

Vices++VirtuesVices & Virtues, lançado em 2011, foi o projeto de uma dupla, gravado por Brendon e Spencer. Começando pela capa do álbum, podemos notar coisas interessantes. No fundo, atrás dos dois integrantes, há uma coroa de flores com a palavra “Panic”, sem o ponto de exclamação. Uma alfinetada aos membros que deixaram a banda e levaram consigo a falta da exclamação(!)? Ou algo desprovido de ressentimento simbolizando a morte daquele Panic anterior? Talvez não queira dizer “o Panic sem exclamação morreu, superem”, mas uma forma de prestar uma homenagem respeitosa à banda morta. Ao fundo, há também um personagem em pé, mascarado e em segundo plano, que pode ter o propósito de equilibrar a falta de membros da banda. Podemos fazer várias leituras dessa capa.

O álbum apresenta uma nova sonoridade, mas mantendo elementos dos trabalhos anteriores. O vídeo do primeiro single, The Ballad of Mona Lisa, possui similaridades com o de I Write Sins Not Tragedies. Inicia-se, por exemplo, com uma visitação ao velho cenário, com uma cartola e um bastão abandonados num dos bancos da igreja outrora invadida pelo circo, tudo coberto de teias de aranha.

Não houve uma preocupação em substituir os membros que faltavam, não para a gravação do álbum e videoclipes pelo menos. Ian Crawford entrou como guitarrista e Dallon Weekes como baixista para os shows que realizaram na época, mas Dallon Weekes foi o único que permaneceu oficialmente na banda.

Too+Weird+to+Live+Too+Rare+to+Die+Panic+At+The+Disco++Too+WeirdEm julho do ano passado, quando assisti ao vídeo de Miss Jackson, canção com participação da cantora Lolo, reparei imediatamente em duas coisas: na mudança de estilo e na bem discreta aparição de Spencer e Dallon. Pensei “ok, vamos esperar, talvez no próximo vídeo os outros integrantes recebam mais atenção”. Lembro que assisti a This is Gospel atento, sempre aguardando que na próxima cena pelo menos Spencer fosse surgir, mas antes mesmo do vídeo acabar já estava claro que somente Brendon apareceria (talvez Spencer e Dallon estejam entre os médicos com máscaras, quem sabe). E Girls/Girls/Boys trouxe Brendon de uma forma mais individual do que nunca; um vídeo de tomada única onde o cantor aparece nu em um cenário onde não há nada além do fundo escuro.

Too Weird to Live, Too Rare to Die! trouxe um estilo diferente de qualquer coisa que o Panic! fizera. O álbum é eletrônico, pop, alternativo e sem regras. Gerou controvérsia com os fãs conservadores e que ainda comentam a falta que sentem de Ryan e Jon, dizendo que eles deveriam voltar. As diferenças não apareceram apenas na sonoridade e mais uma vez mexeram com o visual da banda. Desta vez, com o foco em Brendon nas fotos promocionais e nos vídeos, tornando a banda praticamente um projeto solo.

Essa mudança, somada ao destaque de Brendon, é algo ruim? Não necessariamente. Não deveria ser, não para quem acompanhou a banda desde o início circense.

O Panic! at the Disco não é uma banda que mudou, é uma banda que muda, constantemente. Mudaram o estilo, mudaram um detalhe no nome, mudaram os integrantes. É quase como ter bandas diferentes a cada álbum, mas que carregam a essência do mesmo Panic! refletidas de várias formas. Ano que vem faz uma década desde o lançamento do primeiro álbum. É um período muito longo para não haver mudanças.

Tenho um álbum preferido deles, e é o Pretty. Odd.. No entanto, além do gosto pessoal, prefiro escutar uma banda que evolui e muda a uma que permanece a mesma. Afinal, podemos aproveitar todos os “Panics!” enquanto eles permanecerem a banda de We’re So Starving, que se ocupa escrevendo músicas para o nosso entretenimento.

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