Releituras atuais de contos de fadas clássicos

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Quando lemos um livro, conhecemos uma história, é natural o desejo de que a adaptação seja o mais fiel possível. Quem nunca ficou desapontado ao ver aquela cena, justo aquela cena, ficar fora do filme? Com o tempo, concluí que o melhor a fazer com adaptações é aproveitá-las sem se preocupar muito com a obra original. Isso me levou a apreciar releituras com outra perspectiva: a de que um enredo pode ser explorado de diversas maneiras, às vezes até mais ricas que a obra original.

Várias histórias vencem o teste de tempo, deixando claro que dificilmente serão esquecidas, pois continuam sendo utilizadas. Seja com novas capas e edições de livros, adaptações cinematográficas, remakes dessas adaptações ou releituras que fogem do original. As opções são inúmeras. Vejam Carrie – A Estranha, de Stephen King, por exemplo. Temos o livro, originalmente lançado em 1974, com várias edições ao redor do mundo; adaptações cinematográficas nos anos de 1976, 2002 e 2013 (sendo que a de 1976 ainda possui uma sequência), musical da Broadway, e algo mais que provavelmente esqueci ou desconheço. Sem falar nas inúmeras referências ao banho de sangue de Carrie que existem por aí (novela global “Chocolate com Pimenta”, por exemplo, com Mariana Ximenes sendo a Carrie ensanguentada da vez). E não, as referências e adaptações não acabarão tão cedo.

Scarlet Johanson representando Cinderela na sessão de fotografias sobre contos de fadas da fotógrafa Annie Leibovitz

É isso que acontece também com os contos de fadas, que de uns tempos para cá retornaram ao mercado com adaptações audiovisuais. Sendo assim, exponho aqui um conjunto de releituras recentes que buscam fugir da proposta original e/ou dar uma nova roupagem aos já conhecidos contos. Só serão citados trabalhos realizados em live-action, animações foram omitidas propositalmente.

Vale ressaltar antecipadamente que as versões popularizadas pela Disney, meigas e repletas de finais felizes, também diferem de alguns contos originais, sombrios e até cruéis. Na versão de Charles Perrault de Chapeuzinho Vermelho não temos um desfecho feliz, a garotinha é simplesmente devorada pelo lobo. O mesmo acontece na versão de Branca de Neve dos irmãos Grimm. No fim, a Rainha Má é obrigada a dançar com sapatos de ferro aquecidos em brasa até cair morta. É recorrente também nesses contos um descaso sentimental para com pessoas próximas, familiares principalmente.

the-brothers-grimm-posterJacob e Wilhelm Grimm dedicaram-se – dentre estudos linguísticos, filologia alemã e outras coisas – a registrar contos populares de regiões alemãs. Na obra dos dois estão presentes alguns dos contos de fadas mais populares, como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, A Bela Adormecida e Rapunzel. Em 2005, foi lançado o filme Os Irmãos Grimm, uma adaptação livre da história dos dois. Com um orçamento de 88 milhões de dólares e faturamento de 105 milhões ao redor do mundo, o filme conta com a participação de Matt Damon e Heath Ledger nos papéis principais. O filme mostra os irmãos percorrendo a Europa para enfrentar demônios e monstros falsos. Aproveitando das crenças dos camponeses, eles encenavam exorcismos e exigiam dinheiro pela resolução dos problemas. Eventualmente são descobertos como farsantes e obrigados a desvendar o mistério de uma floresta amaldiçoada, onde donzelas estão desaparecendo. Mas desta vez os irmãos Grimm enfrentarão um bruxa com poderes reais, poderes que servirão de inspiração para os contos que os imortalizaram. Considero o filme o início discreto de uma série de releituras do mesmo gênero que estavam por vir, pois mesmo que não seja baseado em um conto de fadas propriamente dito, possui inúmeras referências a esses contos.

Red-Riding-HoodAvançando alguns anos, mas precisamente para 2011, tivemos o lançamento de A Garota da Capa Vermelha. Valerie (Amanda Seyfried) mora em um vilarejo aterrorizado por um lobo. Sua família quer que ela se case com Henry (Max Irons), por ele ter uma ótima condição financeira, mas ela é apaixonada por Peter (Shiloh Fernandes), lenhador com quem convive desde criança. Quando a irmã de Valerie é morta pelo lobo, o Padre Solomon (Gary Oldman) chega com seus soldados até o vilarejo, pretendendo acabar definitivamente com a ameaça. O mistério sobre quem é o lobisomem perdura durante quase todo o filme. É uma releitura sombria de um conto que possui duas versões mais famosas. Uma com final feliz dos irmãos Grimm, a clássica onde o lenhador chega para salvar o dia. E outra de Charles Perrault, na qual, como mencionei anteriormente, as coisas terminam bem para o lobo. O filme, como a maioria das releituras citadas aqui, não se prende no enredo no conto original, mas mantém sua essência. Objetos e elementos estão ali, mas como plano de fundo de um enredo que segue outros caminhos. A Garota da Capa Vermelha possui também uma breve alusão ao conto Os Três Porquinhos.

beastly-laying-514426567Também em 2011 foi lançada uma releitura de A Bela e a Fera. Beastly, com Vanessa Hudgens e Alex Pettyfer no elenco, é um filme baseado no livro homônimo de Alex Flinn. Mostra Kyle Kingson, um jovem rico, bonito, narcisista, insensível e que preza, antes de tudo, a aparência. Após humilhar uma colega, é amaldiçoado, adquirindo uma aparência considerada feia pelos padrões impostos pela sociedade e pelo próprio Kyle. O único jeito de livrar-se da maldição é encontrar alguém, num período de um ano, que o ame verdadeiramente pelo o que ele é, e não por sua aparência. Se não conseguir, a consequência será ficar com aquela forma, repleta de tatuagens e cicatrizes, para sempre. Existem poucas relações com o conto original, mas é o seu conceito principal que constrói o filme: amor incondicional além das aparências. Carregando a mesma mensagem de que devemos amar sem nos preocuparmos com o exterior dos outros. O interior, do que somos feitos e do que gostamos, é o que importa. Esse é um tema recorrente, que também foi utilizado, de uma forma bastante sensível e tocante, pela banda Kodaline no clipe All I Want. (Tente não chorar com o clipe.)

Em 2012, tivemos duas adaptações cinematográficas de Branca de Neve, com alguns meses entre o lançamento das duas. Espelho, Espelho Meu inicia-se com a Rainha Má (Julia Roberts) narrando desde o nascimento de Branca de Neve (Lily Collins) até o momento em que o Rei (Sean Bean) precisa sair para enfrentar um mal terrível e nunca mais retorna. Com a ausência do Rei, a Rainha Má criou Branca de Neve presa em um quarto e passou a cobrar cada vez mais impostos do povo para satisfazer seus luxos e vontades.

Mirror-Mirror

Quando completa 18 anos, Branca de Neve resolve sair do castelo e conhece a situação pobre e precária do reino, nesse meio tempo conhece o príncipe Andrew Alcott (Armie Hammer). Após ser levada para a floresta e poupada da morte, Branca de Neve encontra os Sete Anões, que, nessa releitura, são ladrões, e decide recuperar o reino. O foco narrativo se equilibra entre a Rainha Má e Branca de Neve. O filme mantém muita coisa do conto original, mas ao mesmo tempo retira e altera acontecimentos importantes, e modifica detalhes como os nomes dos anões. Mas como a versão original, também termina em dança, mesmo que coletiva e feliz.

snow-white-&-the-Huntsman-movie-picture-4Em Branca de Neve e o Caçador, Kristen Stewart foi eleita para interpretar Branca de Neve. O filme foi um sucesso de bilheteria e recebeu duas indicações ao Oscar, de Melhores Efeitos Visuais e Melhor Figurino. O enredo segue, basicamente, os princípios do conto original. A Rainha Má (Charlize Theron) descobre que sua enteada pode superá-la não só na beleza, mas também ser a próxima governante do reino. Seu espelho mágico, então, conta que a única solução para a Rainha é comer o coração de Branca de Neve, para assim desfrutar da imortalidade e evitar outros problemas. A Rainha Má faz como toda Rainha Má deve fazer, e envia O Caçador (Chris Hemsworth) para matar Branca de Neve. Mas, como todo bom Caçador, ele acaba se apiedando e poupando a vida de Branca de neve. Mas nessa releitura o Caçador começa a treinar com Branca e juntos lideram uma rebelião contra a Rainha Má.

Quando fui assistir a Jack: O Caçador de Gigantes, de 2013, confesso que estava sem muitas expectativas, quase certo de que não gostaria do filme. Eu não podia estar mais enganado. O filme se inicia mostrando que algo terrível aconteceu há muito tempo naquele reino. jack-the-giant-slayer-2013 Os feijões mágicos já haviam sido utilizados, e gigantes estiveram entre os humanos, causando destruição e guerra. É uma espécie de prólogo, mostrando problemas passados e resolvidos, com gigantes que atualmente são considerados lenda. A lenda, porém, se mostra verdadeira quando Jack (Nicholas Hoult) acaba trocando o cavalo de seu tio por feijões mágicos, com a segurança de que receberia dinheiro por eles se os levasse até uma abadia. Enquanto está na cidade, Jack conhece a princesa Isabelle (Eleanor Tomlinson), que sonha em viver uma aventura. O que acontece em Jack: O Caçador de Gigantes é uma ampliação dos elementos de João e o Pé de Feijão. O conto é a história de um homem só. João, após trocar a vaca Mimosa Leitosa pelos feijões mágicos, sobe sozinho pelo pé de feijão, mais de uma vez, para roubar coisas valiosas. Na última vez, João é descoberto e o gigante tenta persegui-lo, João, porém, desce mais rápido pelo pé de feijão, tendo ainda tempo para cortá-lo com um machado. O pé de feijão se parte, o gigante cai e quebra a cabeça (são essas as palavras usadas). Interpreto isso como um caso sério de latrocínio, roubo seguido de morte. Precisamos lembrar que o gigante é a vítima, ele vivia tranquilamente com sua mulher antes de João aparecer e destruir sua vida. Jack, do filme, não é um ladrão. Enfrenta problemas maiores lá em cima, começando pela quantidade absurda de gigantes; gigantes que não tardam a descer para Terra e causam uma nova guerra. Por isso no filme tudo é ampliado, da quantidade de pessoa que sobem pelo pé de feijão até as consequências de utilizar os feijões mágicos.

hansel-and-gretelDois mil e treze também deixou espaço para João e Maria se tornarem caçadores nas telonas. O conto original é bem triste quando você se põe no lugar dos irmãos. Temos de concordar que não deve ser nada legal ser abandonado duas vezes pelos seus pais, no meio de uma floresta escura. E se isso não bastasse, ainda encontrar uma cabana (maravilhosa por fora, já que é toda feita de doces) onde mora uma bruxa horrível e assustadora que decide te empanturrar com comida até que você esteja cheiinho o bastante para ser devorado. É, a vida não é fácil. Mas João e Maria do filme João e Maria: Caçadores de Bruxas não se deixaram abalar pelo trauma de infância. Após derrotarem a bruxa da casa de doces, decidiram transformar o trauma em força para caçar outras bruxas. As únicas semelhanças então entre o conto original e o filme é o marco inicial floresta/cabana/bruxa. No conto, João e Maria voltam para casa; no filme, os irmãos crescem caçando bruxas ao redor do mundo. O filme já tem sequência confirmada, mas sem data de lançamento prevista.

A mais recente releitura foi Malévola (2014) dos estmaleficentúdios Walt Disney. O filme recria os acontecimentos do conto A Bela Adormecida, pensado a partir da clássica animação de 1959 da própria Disney. A grande novidade, além dos novos elementos utilizados no roteiro, está no foco narrativo si, que se reverte e mostra o ponto de vista da antagonista da trama. O enredo se inicia com Malévola ainda jovem, uma poderosa fada que vive em um reino longe dos seres humanos. Apaixona-se por um camponês chamado Stefan, com o qual desenvolve uma relação ao decorrer dos anos. Eventualmente eles se separam e ao se encontrarem de novo, Stefan deixa claro com suas ações que seu interesse de se tornar rei é mais forte que os sentimentos por Malévola. Após os acontecimentos do retorno e da traição de Stefan, Malévola constrói um reino de escuridão, enchendo-se de ódio e se isolando dos seres humanos. Anos depois, Malévola é informada que o Rei Stefan dará uma festa de batizado para Aurora, sua filha recém-nascida. Ainda cheia de ressentimento, Malévola vai até a festa sem ser convidada e amaldiçoa a criança, que ao completar dezesseis anos picará o dedo em uma agulha de tear e cairá em sono profundo. Mesmo odiando Aurora inicialmente, Malévola começa a desenvolver sentimentos afetivos pela garota conforme acompanha seu crescimento. O filme apresenta algumas conexões com a animação clássica e ao mesmo tempo consegue quebrar conceitos cristalizados nesse tipo de narrativas. Angelina Jolie não decepcionou com sua atuação. Em uma das cenas mais forte e significativa, consegue transmitir a dor que a personagem está sentindo de tal forma que é fácil se sentir incomodado com a situação. Com cenas iguais a essa, e a própria estrutura e proposta do filme, o público logo fica do lado de Malévola e torce por ela. A personagem que durante décadas foi uma vilã geralmente odiada, passa a ser compreendida e amada.

Aqui, para que sirva de referência, cito Alice no País das Maravilhas (2010) e Oz: Mágico e Poderoso (2013). Ressalto que ambas as histórias originais não são contos surgidos da tradição oral, e sim romances escritos respectivamente por Lewis Carroll e L. Frank Baum. Mas se aproximam muito dos contos de fadas, sobretudo pela magia, o encantamento e a importância que essas obras possuem. E essas adaptações em particular são ótimas produções que merecem ser lembradas.

Once-Upon-a-Time-Season-2-Official-Poster-EmmaOs contos de fadas também conquistaram as telinhas. Em 2011, Once Upon a Time, série do canal ABC, chegou com uma história que utiliza diversos de contos, e não somente um. A primeira temporada começa com a Rainha Má (Lana Parrilla) interrompendo o casamento de Branca de Neve (Ginnifer Goodwin) e anunciando que lançará uma maldição sobre o reino, para que assim seja a única a obter um final feliz. Dito e feito, a maioria dos personagens são transportados para a cidade fictícia de Storybrooke, onde as personagens perderam suas memórias e, incapazes de lembrar quem são na realidade, vivem como pessoas comuns. Emma Swan (Jennifer Morrison), filha da Branca de Neve com o Príncipe Encantado (Josh Dallas), escapou da maldição ainda recém-nascida, e ao completar 28 anos, retorna para Storybrooke. Ela é a única esperança para que a maldição seja quebrada. A série utiliza um enredo no qual as personagens de vários contos estão conectados e interagindo. Momentos clássicos dos contos permanecem, mas é possível ver inúmeras inovações próprias da série. Amizades entre personagens de contos distintos, alguns mocinhos tradicionais transformados em vilões e alguns vilões transformados em mocinhos. Com essa possibilidade e liberdade de se inspirar em qualquer conto, a série tem um enredo complexo e bem trabalhado, com muita história para contar; tanta história que algumas questões permanecem sem respostas. A forma da narrativa, que utiliza flashbacks constantes e intercalados com a história atual, permite que o telespectador conheça o presente e o passado das personagens simultaneamente. A série segue com ótima audiência e ganhou em 2013 um spin-off intitulado Once Upon a Time in Wonderland, que, como o próprio nome sugere, usa como plano de fundo Alice no País das Maravilhas.

Grimm - Season 2No mesmo mês de estreia de Once Upon a Time, Grimm chegou ao canal NBC, conquistando uma audiência menor do que sua concorrente direta. Grimm segue o gênero suspense policial. Nick Burkhardt (David Giuntoli) é um detetive de homicídios que tem sua vida transformada ao descobrir que é descendente de um clã de caçadores, conhecidos como os “Grimms”, da mesma família dos famosos escritores. São encarregados de manter o equilíbrio entre a humanidade e criaturas mitológicas, chamadas Wesen. A maioria dos episódios tem como inspiração contos de fadas clássicos. O episódio piloto, por exemplo, é sobre um lobisomem que caça mulheres que usam vermelho. Mas a série não se limita a esses contos e também explora outras lendas e fábulas, não escritas necessariamente pelos irmãos Grimm.

O canal CW aproveitou-se dos contos de fadas em 2012. Beauty & the Beast, diferencia-se dos dois exemplos anteriores por não ter vários contos como princípio. É levemente baseada em outra série de mesmo título do canal CBS, exibida originalmente entre 1987 e 1990. beauty-and-the-beast Ambas são inspiradas em A Bela e a Fera. Na releitura mais atual, tudo começa na noite em que a mãe de Catherine Chandler (Kristin Kreuk) é morta por dois homens armados. Catherine só não teve o mesmo destino, pois foi salva por uma fera misteriosa. Nove anos depois, descobre através de um caso, que Vicent Keller (Jay Ryan), dado como morto durante o serviço militar, está na verdade vivo. Ela descobre que foi Vincet quem a salvou no passado. Ele vive isolado do restante da sociedade, pois quando fica com raiva é incapaz de controlar suas emoções e se torna uma fera assustadora.

Para o futuro já temos algumas releituras confirmadas. Uma releitura de Cinderela também está prevista para estrear nos Estados Unidos em março de 2015, estrelando Lily James, como Cinderela, além de Cate Blanchett e Helena Bonham Carter, e dirigido por Kenneth Branagh. Nesse mesmo ano, Emma Watson estará em Beast, adaptação de A Bela e a Fera. E provavelmente não acabará por aí: ainda existem muitos contos de fadas que precisam ser recontados.

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