Tudo o que aconteceu na 86ª edição do Oscar

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Há algumas horas teve fim a 86ª edição de uma das maiores premiações do cinema do mundo, o Oscar, que ocorreu no Dolby Theatre na cidade de Los Angeles. A edição deste ano confirmou favoritos, agradou em grande parte dos vencedores, apresentou categorias concorridíssimas e trouxe um espetáculo a mais: a apresentação de Ellen DeGeneres.

Quem me conhece sabe que sou um tanto quanto suspeita para falar da apresentadora. Telespectadora assídua do The Ellen DeGeneres Show e grande fã desde sempre, eu poderia me tornar um tanto quanto imparcial, porém acredito que a grande maioria dos que assistiram à premiação concordaria comigo se eu dissesse que Ellen se superou e se tornou uma das melhores apresentadoras do Oscar até então. A apresentadora conseguiu manter boa parte do ritmo da apresentação, garantir boas risadas, tornar a cerimônia um pouco menos cansativa e figurar momentos indiscutivelmente memoráveis.

Pontuarei agora alguns dos momentos memoráveis da apresentação de Ellen DeGeneres. Em seu discurso de abertura, ela nos arrancou boas risadas em diversos pontos. Quando comentou do tombo de Jennifer Lawrence no Oscar do ano passado ao subir ao palco para receber o prêmio de Melhor Atriz e de um incidente parecido este envolvendo a atriz pouco mais cedo no tapete vermelho, ela disse “Jennifer, não vou ficar lembrando o que aconteceu no ano passado. As pessoas ficam sem graça, mas acontece. Para quem não sabe do que estou falando, é de quando ela caiu subindo as escadas. Vamos mostrar o clipe! Brincadeira, brincadeira”, disse. “Ah, e sabem o que aconteceu quando ela saiu do carro hoje também? Ela caiu! Tropeçou em um daqueles cones. Se você ganhar hoje, Jennifer, levamos o prêmio a você, combinado? Aí não precisa vir até aqui”, continuou. Na companhia mais que perfeita de Bradley Cooper do seu lado direito, e seu namorado o também ator Nicholas Hoult, Jennifer não conseguiu se conter e caiu na risada.

Ellen fez piada até mesmo ao aludir a sua sexualidade – algo que sei ser bem característico do The Ellen DeGeneres Show – comentando que Jonah Hill havia mostrado algo em O Lobo do Wall Street que há muito tempo não via, se referindo ao pênis do ator. Fez menção ainda ao pouco estudo dos indicados, dizendo que “entre todos os candidatos, acumulam-se 1.400 filmes e 6 anos de universidade, no total” e confirmando o que disse perguntando a Amy Adams se ela havia ido à Universidade que, com um gesto, respondeu que não. Por fim, Ellen ainda deu uma “dica” do futuro ganhador da categoria de Melhor Filme, brincando: “Hipótese número um: 12 Anos de Escravidão ganha o Oscar de melhor filme esta noite. Hipótese número dois: vocês são todos racistas.”

Porém as risadas não pararam por aí; Ellen ainda aprontou muito durante a premiação: pediu pizza e distribui-a para a platéia, pegou emprestado o chapéu de Pharrell Williams para pedir dinheiro à platéia para uma vaquinha para pagar a pizza, assustou Sandra Bullock e Leonardo DiCaprio aparecendo de surpresa atrás deles, se vestiu de Glinda para homenagear O Mágico de Oz e, além de tudo isso, fez história conseguindo o tweet mais retweetado de todos os tempos no twitter, com uma selfie tirada ao vivo com a participação de Jared Leto, Jennifer Lawrence, Julia Roberts, Meryl Streep, Kevin Spacey Brad Pitt, Angelina Jolie, Lupita Nyong’o e Bradley Cooper. A mensagem foi retweetada mais de 1,2 milhão de vezes em menos de uma hora, e só não foi mais pois o Twitter deixou de funcionar em tal página por alguns instantes. Nesse momento, o tweet tem 2 milhões e meio de repostagens.

Apesar não manter o ritmo até o final, Ellen DeGeneres ainda assim conseguiu se sagrar como uma das melhores apresentações do Oscar dos últimos tempo.

Quanto à premiação em si, neste ano muitos favoritos foram confirmados e a premiação de uma forma geral agradou o público e a crítica.

A primeira categoria da noite foi a de Melhor Ator Coadjuvante e o favoritismo de Jared Leto foi confirmado. Apesar de Leto ter sido o ator que mais se destacou da lista de indicados, todos os outros figuraram na lista merecidamente; Barkhad Abdi se tornou o responsável por uma das frases que ficará guardada na memória – “I’m the captain now!” -, Bradley Cooper totalmente irreconhecível e nada atraente em Trapaça também fez um ótimo trabalho, Michael Fassbender também foi bastante exigido pelo conteúdo emocional e complexidade de seu personagem em 12 Anos de Escravidão, Johan Hill estava bem à vontade – com exceção da dentadura – em um gênero que conhece bem e fez uma ótima atuação. Porém, Jared Leto como Rayon, foi o mais requisitado e, por isso, foi o favorito e grande vencedor, merecendo também um Oscar pelo melhor discurso da noite. O ator dedicou o prêmio aos “36 milhões de pessoas lá fora que perderam a batalha para a Aids”, “para aqueles que sentiram injustiça por causa de quem vocês amam e quem vocês são” e completou dizendo “eu estou aqui para vocês”. Ele ainda prestou uma bela homenagem a mãe e dedicou  “o prêmio a todos os sonhadores do mundo que nos observam, em locais como Ucrânia e Venezuela”, completou dizendo “Estamos aqui observando suas lutas. Estamos pensando em vocês nesta noite”.

Após entregue o prêmio à Leto, Pharrell Williams subiu ao palco para contar Happy, o tema de Meu Malvado Favorito 2 e colocou Lupita Nyong’o, Amy Adams e até mesmo Meryl Streep para dançar.

Na categoria de Melhor Animação, Frozen – Uma Aventura Congelante foi o vencedor, batendo Os Croods, Meu Malvado Favorito 2, Ernest et Celestine e Vidas ao Vento.

Gravidade bateu O Hobbit: A Desolação de Smaug, Homem de Ferro 3, O Cavaleiro Solitário e Star Trek: Além da Escuridão e faturou o prêmio na categoria de Melhor Efeitos Visuais, não que tenha sido uma surpresa. De todos os indicados, Gravidade era sem dúvida alguma o mais forte pois foi o que trouxe maiores inovações quando o assunto é Efeitos Visuais. Sem tais efeitos, seria impossível de o filme existir e, se mal feitos, não teria tido metade do sucesso que teve e poderia até mesmo faturar alguns Framboesas de Ouro. Os Efeitos Visuais do longa trouxeram outra dimensão para a categoria nos filmes que tratam sobre aventuras espaciais, e por isso, foi merecidamente reconhecido e aplaudido.

Mudando um pouco de país, o prêmio Melhor Filme Estrangeiro foi para a Itália com A Grande Beleza, e tal categoria foi uma das mais discutidas da noite. Alabama Monroe e A Caça figuravam como possíveis, ainda que distantes, ganhadores, e, em minha opinião pessoal, teriam sido escolhas melhores. A Grande Beleza é um filme, visualmente falando, maravilhoso. Além disso é bastante reflexivo, nos traz reflexões bastante interessantes, porém Alabama Monroe e A Caça são um belo conjunto de obra. Alabama Monroe, filme da Bélgica, é uma belíssima reflexão de amor – e por favor, não leia história de amor. O filme mostra Elise e Didier, ela, uma tatuadora, e ele, um caubói, duas pessoas completamente distintas – não somente em seus estilos de vidas mas também em suas crenças – que se apaixonam à primeira vista. O casal tem uma filha, Maybelle, que adoece gravemente vítima de câncer e coloca à prova o amor de seus pais. O longa traz uma discussão sobre a fé e o ateísmo e sobre a ciência e a religião, além de como situações como a morte, que deveria unir as pessoas, podem separá-las. O filme é daqueles que faz o coração bater mais forte a cada cena, a direção é simplesmente excepcional e a montagem bastante ousada, uma vez que a forma que o filme é contado poderia se tornar uma grande bagunça se não perfeitamente pensado e encaixado. Além disso, a trilha sonora baseada em música country completa o filme, que possui cenas memoráveis.

A Caça, da Dinamarca, conta com a presença do rosto já famoso de Mads Mikkelsen, e conta a história de Lucas, que trabalha em uma creche local e tem um ótimo relacionamento com todos na comunidade. Porém, toda sua estrutura é abalada quando Klara, uma das alunas da creche e filha de seu melhor amigo, faz uma falsa acusação de agressão sexual contra Lucas, o que desencadeia o ódio de toda a comunidade em que ele vive. O filme é uma ótima reflexão de um assunto que, infelizmente, faz parte de nossa sociedade, o abuso sexual contra crianças, porém, é uma discussão ao contrário. O longa critica a visão da sociedade de presunção de verdade toda vez que uma criança traz a tona um assunto como esse. O filme é bastante interessante ainda mais se comparado com a realidade. Conversando com uma psicóloga que trabalha auxiliando a justiça em casos de abuso sexual contra menores, ela comentou que, comprovadamente, em 70% dos casos envolvendo tal crime, o acusado é condenado e mandado para a cadeia mesmo sendo inocente, pois olhamos sempre para as crianças como detentoras de uma verdade inquestionável. Assim sendo, acredito que Alabama Monroe e A Caça seriam filmes com conteúdo mais sólido para vencer a categoria, pois trazem discussões sociais mais interessantes.

Como Melhor Atriz Coadjuvante, Lupita Nyong’o foi a campeã. Em seu primeiro trabalho em um longa metragem, a atriz provou grande talento e faturou uma das categorias mais cobiçadas de um dos prêmios mais cobiçados e subiu ao palco muito emocionada para agradecer. Nesta categoria, muitos estavam divididos entre Jennifer Lawrence por sua atuação em Trapaça e Lupita Nyong’o; achei merecido o prêmio para Lupita, que foi muito mais exigida, apesar de Jennifer Lawrence ter novamente se destacado e mostrado ser uma grande atriz e não somente “uma criação da mídia americana” como alguns dizem por aí.

Em homenagem ao O Mágico de Oz, P!nk entrou no palco vestida em um belíssimo vestido vermelho, inspirado nos sapatinhos de rubi de Dorothy, e cantou, com sua voz incomparável, “Somewhere Over The Rainbow”, sendo aplaudida de pé.

Outro momento emocionante da premiação foi a homenagem ao documentarista brasileiro Eduardo Coutinho. O nome do cineasta apareceu na homenagem da Academia a pessoas importantes do cinema que morreram no último ano juntamente com nomes como o de James Gandolfini, Paul WalkerPhilip Seymour Hoffman e Harold Ramis.

Em Melhor Roteiro Adaptado, o vencedor era claro e confirmou-se: 12 Anos de Escravidão. John Ridley subiu ao palco para receber a recompensa por um trabalho muito significativo e importante, tanto para a história do cinema quanto para a própria comunidade americana.

Em Melhor Roteiro Original,> a disputa era entre Eric Warren Singer e David O. Russell por Trapaça e Spike Jonze por Ela, e Jonze levou o “menininho de ouro” para casa. Ela é realmente um dos roteiros mais originais dos últimos tempos, um dos mais interessantes e, por que não, importantes da disputa. Ao abordar a relação de um homem com um sistema operacional, o longa levanta questionamentos sobre até que momento comandamos a tecnologia e até que momento somos comandados. Além disso, levanta o claro distanciamento entre os seres humanos, distanciamento este a ponto de Theodore (Joaquin Phoenix) ganhar a vida escrevendo cartas pessoais e tocantes para outras pessoas, ou seja, as pessoas não conseguem mais falar sobre os seus próprios sentimentos, e a ponto de os homens afastarem-se e viverem um relacionamento com uma máquina. Tudo isso é tratado de forma subliminar, escondido em um filme genial e de uma sensibilidade tremenda.

Na categoria de Melhor Diretor, Alfonso Cuarón era o favoritíssimo, porém ainda havia uma possibilidade, ainda que muito pequena, de David O. Russell vencer. Apesar da possibilidade, Cuarón se tornou o primeiro diretor latino americano a levar o prêmio de Melhor Diretor no Oscar. Eu poderia parar este parágrafo na última frase, porém continuarei para ressaltar a importância da vitória de Cuarón em tal categoria. É sempre interessante assistirmos a “primeira vez” no Oscar, pois isto sempre traz consequências interessantíssimas consigo, algumas mais objetivas e outras mais subjetivas. Por exemplo, quando Kathryn Bigelow levou para casa o Oscar de Melhor Diretor em 2010, acendeu-se um debate – pequeno porém importantíssimo – para a questão da existência de um certo machismo em Hollywood, já que só em 2010 uma mulher havia conquistado tal feito. Além disso, apesar de muito criticada, sua vitória deu um fôlego, um ânimo e uma inspiração tanto para as mulheres que encontram-se no mercado quanto para as que aspiravam a uma posição de destaque em Hollywood para continuarem seus trabalhos e lutarem cada vez mais por um lugar em um trabalho ainda dominado pelos homens. A vitória de Cuarón deve levantar alguns debates e também iniciativas, como, por exemplo, a questão da falta de incentivos e oportunidades no cinema latino-americano e, claro, poderá servir de inspiração para muitos que estavam desistindo no meio do caminho e que podem, futuramente, serem novos e importantes nomes no mercado. A vitória de Cuarón não foi uma vitória só dele, mas uma vitória para toda a América Latina.

Seguindo em frente, chegamos uma categoria que dividiu meu coração em três partes, a categoria de Melhor Atriz. Judi Dench e Amy Adams foram merecidamente reconhecidas por seus maravilhosos trabalhos e indicadas em tal categoria. No entanto, as responsáveis pela divisão do meu coração foram Cate Blanchett, Sandra Bullock e Meryl Streep. Cate Blanchett era a favoritíssima e não havia dúvidas quanto a sua vitória, e com razão, a atriz, sob a direção de Woody Allen em Blue Jasmine, fez uma atuação excepcional e mexeu com minhas emoções de todas as formas possíveis, contribuindo assim para o sucesso – talvez não de público mas de crítica – do filme e para dar um fôlego a Allen, que vinha caindo nas garras da crítica com seus últimos filmes.

No entanto, Sandra Bullock e Meryl Streep tiverem efeito parecido e de mesma intensidade. Assisti Gravidade antes mesmo de Álbum de Família ou Blue Jasmine, e não foi somente uma vez, foram 7, e em todas as vezes eu saia do cinema dizendo “Sandy vai rapar tudo esse ano” – sim, com esse linguajar bem típico meu -, algo que soava um pouco suspeito para quem ouvia já que sou fã da Sandra desde o momento da minha concepção. Porém, algum tempo depois, assisti Álbum de Família, criei expectativas acima do normal por se tratar de um drama – gênero que mi piace – e por ter duas das minhas outras atrizes favoritas Meryl Streep e Julia Roberts juntas. Eu não estava errada: na primeira aparição como Violet Weston, Meryl já provou que novamente faria uma atuação de tirar o fôlego, o que seria comprovado no decorrer do filme principalmente nas cenas em que contracena com Julia Roberts, ambas em seus “momentos de loucura”. Melhor Atriz foi uma das categorias deste ano que não me agradou por não ter tido um empate triplo, mas ainda assim, bati palmas para Cate Blanchett e seu discurso como sempre engraçadíssimo e engajado para defendendo o poder das mulheres.

Partiremos agora para a categoria que gerou a disputa que colocou de um lado o público e do outro a crítica em geral, a categoria de Melhor Ator. Grandes performances figuravam em tal categoria, porém, duas se destacaram: de um lado, Leonardo DiCaprio, como Jordan Belfort, em O Lobo do Wall Street e com o apoio do público para “dat ao cara um Oscar” e do outro Matthew McConaughey, como Ron Woodroof, em Clube de Compras Dallas com o apoio da crítica. Nessa disputa, como já era o esperado, Matthew se sagrou campeão e levou para casa a estatueta de Melhor Ator, deixando DiCaprio “no vácuo” novamente.

Por último e não menos importante, Melhor Filme, faturado por 12 Anos de Escravidão. Nesta categoria, a disputa era acirrada, e a Academia, que nos últimos anos vinha indicado alguns filmes que pareciam estar ali simplesmente para preencher espaço, este ano acertou e tornou tal categoria uma das mais indefinidas dos últimos tempos – isso, claro, se não houvessem as premiações “pré-Oscar” para nos auxiliar. Não havia um só filme que não merecesse estar na disputa e todos mereciam levar a estatueta para a casa, porém, a real disputa se fez entre o poderoso Gravidade e o inigualável 12 Anos de Escravidão. Com a estatueta em mãos, 12 Anos de Escravidão entrou para a história ao, pela primeira vez, dar o prêmio de Melhor Filme a um filme dirigido por um negro, no caso, Steve McQueen. Um filme histórico fazendo história – desculpem pelo trocadilho.

No final, a premiação foi marcada pelo bom humor, a falta de polêmicas – algo que preocupava os organizadores este ano – e a boa distribuição de prêmios. Confira abaixo a lista completa dos campeões da noite:

Gravidade – 7 prêmios
Efeitos Visuais
Edição de Som
Mixagem de Som
Fotografia
Montagem
Trilha Sonora
Diretor: Alfonso Cuarón

Clube de Compras Dallas – 3 prêmios
Ator: Matthew McConaughey
Ator Coadjuvante: Jared Leto
Maquiagem e Cabelo

12 Anos de Escravidão – 3 prêmios
Atriz Coadjuvante: Lupita Nyong’o
Melhor Filme
Roteiro Adaptado

Frozen – 2 prêmios
Animação
Canção Original: “Let It Go”

O Grande Gastsby – 2 prêmios
Figurino
Direção de Arte

Blue Jasmine – 1 prêmio
Melhor Atriz: Cate Blanchett

Ela – 1 prêmio
Roteiro Original

A Grande Beleza – 1 prêmio
Filme Estrangeiro

Mr. Hublot – 1 prêmio
Animação em Curta-Metragem

Helium – 1 prêmio
Curta-Metragem

The Lady in Number 6: Music Saved My Life – 1 prêmio
Documentário em Curta-Metragem

A um Passo do Estrelato – 1 prêmio
Documentário em Longa-Metragem

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