Apropriação cultural na música pop

igigi
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Iggy Azalea, Lana Del Rey, No Doubt e Avril Lavigne. Quatro artistas de destaque no cenário da música pop contemporânea que têm algo em comum além de inúmeros sucessos: a rapper, as duas cantoras e a banda foram recentemente rotuladas como racistas por causa de elementos usados nos seus vídeos de “Bounce“, “Ride“, “Looking Hot” e “Hello Kitty“, respectivamente.

Antes de darmos continuidade ao post, peço a todos que assistam aos vídeos, para poderem começar a pensar sobre o assunto:

Apropriação cultural

Inicialmente, devemos entender que o que os críticos desses vídeos chamam de “racista”, nesse contexto, vai além do que entendemos como “preconceito entre etnias”. “Racista”, nesses casos, tem a ver com apropriação cultural (clique aqui para ler mais sobre).

George Lipsitz, teórico cultural, deu forma a esse conceito, dizendo que quando uma cultura da maioria tenta tirar a essência de uma cultura minoritária de forma estratégica, deve-se tomar cuidado para reconhecer a importância dessas formas culturais específicas, para que essa apropriação não perpetue relações desiguais de poder.

Mas será que isso pode ser realmente feito através de videoclipes?

Bounce, Iggy Azalea
O vídeo de “Bounce” foi filmado em abril do ano passado, em Mumbai, e estreou em maio passado. “Filmar na Índia foi surreal”, Iggy disse, “foi doideira sonhar com algo tão grande e depois ver, de fato, acontecer. Pegamos um elefante e fomos com ele pela rua, foi insano.”

“Estou cansada de artistas se apropriando de outras culturas como se elas fossem só mais uma modinha. Nada legal” afirmou a crítica Julie Gerstein (clique aqui para ler mais).

Esses críticos argumentam, baseados no conceito de apropriação cultural, que Iggy estaria se aproveitando de elementos culturais de outro povo, nação ou etnia como forma de vender a arte dela, sem se importar com os significados que cada um desses elementos representa na cultura desses povos.

Mais alguns questionamentos de Rohin Guha sobre o assunto: “Devemos aceitar o fato de que a cultura pop ocidental transformou a cultura dos indianos – uma soma que chega a 1/5 da população mundial – em uma comodidade de vestimenta, digna de imitação apenas quando a moda diz que sim e, fora isso, dispensável? Mais importante, o que significa quando pessoas brancas se utilizam da cultura indiana e são louvadas como modernas por isso enquanto que pessoas do sul da Ásia – nascidas nessa cultura – continuam sendo discriminadas?” (clique aqui para ler mais).

As questões levantadas pelos críticos parecem indicar que quem está apresentando algum tipo de preconceito e rotulação em relação a outros indivíduos são esses próprios críticos, já que tentam passar adiante a ideia de que seu próprio posicionamento sobre essas questões seria o dos “culturalmente explorados” que, convenhamos, não teriam participado das filmagens dos vídeos se concordassem com essa visão.

Nesse caso, também, não acredito que a responsável pela discriminação de quem realmente veste o sari como parte de sua cultura seja a utilização dele pela rapper; acho que afirmar isso é tentar tirar a culpa de quem realmente a possui, ou seja, aquele que discrimina qualquer tipo de cultura diferente da sua e a vê como inferior.

Ride, Lana Del Rey
Lana Del Rey trouxe uma discussão antiga em terras americanas de volta à tona: a utilização de cocares de tribos indígenas nativas da América do Norte por qualquer um que não faça parte dessa cultura.

O acessório específico usado por Lana no vídeo só pode ser vestido, na cultura da tribo a qual pertence, quando o indivíduo chega a uma determinada posição social/religiosa dentro de sua comunidade, tornando, na visão dos críticos, a atitude de Lana ofensiva, já que a mesma veste o cocar sem nenhum tipo de significado, apenas como um item de figurino.

Talvez eu não consiga realmente enxergar o problema disso tudo por ter nascido no Brasil, país de tanta miscigenação (e apropriação!), em níveis tão altos, que há muito esse tipo de conflito não é de fato caracterizado como conflito, vide qualquer pessoa que já se fantasiou de indígena para desfilar pela Marquês de Sapucaí desde que foram instituídos os desfiles das escolas de samba (ou em qualquer bloco de rua mesmo).

No Brasil, desde que entramos para o jardinzinho de infância, vestir e se utilizar dos elementos de outras culturas é visto como aprendizado, homenagem, e não falta de respeito ou apropriação. O que esses críticos dos videoclipes achariam disso? É claro, não é só porque uma prática não é criticada no Brasil que ela necessariamente não está errada, mas nos faz pensar…

Looking Hot, No Doubt
Seguindo a mesma linha de “Ride”, “Looking Hot” também explora a cultura nativa americana, e de forma estereotipada, segundo os críticos, o que acabou levando a banda a remover o vídeo de sua conta no YouTube.

O Centro Americano de Estudos Indígenas da Universidade da Califórnia enviou uma carta aberta à banda, dizendo que o vídeo apresentava “a percepção de que os indígenas americanos são meras relíquias históricas, congeladas no tempo como estereotipicamente selvagens, primitivos, de espírito único e – no caso das mulheres nativas – objetos super-sexualizados a serem domados, sendo o vídeo repleto de imagens altamente ofensivas e destrutivas em relação às mulheres nativas através de cenas de violências sexual”.

Ao remover o vídeo da internet, a banda comentou: “Como uma banda multirracial, nossa fundação é construída com base na diversidade e consideração por outras culturas. Nossa intenção com nosso novo vídeo nunca foi ofender, magoar ou banalizar o povo nativo americano, sua cultura e sua história. Apesar de termos nos consultado com amigos e especialistas no estudo dos nativos americanos na Universidade de Califórnia, percebemos agora que ofendemos as pessoas. Essa é uma grande preocupação para nós, e removeremos o vídeo imediatamente. A música que nos inspirou quando começamos a banda e a comunidade de amigos, família e fãs que nos cercam foi construída numa base de respeito, união e inclusão. Nos desculpamos sinceramente à comunidade e a quem mais tiver sido ofendido por esse vídeo. Magoar alguém não nos representa.”

Além das questões já citadas em “Ride”, também vieram à discussão assuntos como a objetificação e a super-sexualização da mulher nativa americana, o que pode até fazer certo sentido. No entanto, culpar vídeos como esse pelos índices de estupro de mulheres indígenas nos Estados Unidos, como foi feito pela web, é, novamente, desculpar o verdadeiro criminoso. É quase como dizer que uma mulher ocidental que tenha sido estuprada deveria estar vestida de forma mais recatada, para não levar o estuprado a tal ação. Entendem a analogia? São dois pesos e duas medidas?

Hello Kitty, Avril Lavigne
O exemplo mais recente da lista, o vídeo de “Hello Kitty”, da cantora canadense Avril Lavigne, foi taxado de racista logo nas primeiras horas depois sua divulgação, nesta semana.

Os artigos que rotulam o vídeo dessa forma, no entanto, se limitam, em geral, a afirmações como: “Ainda podemos debater sobre qual é o momento mais racista de todo o vídeo, se quando ela grita ‘mina saiko arigato’, quando ela faz suas dançarinas (nada sorridentes) posarem para uma foto e depois sorriem pela primeira e única vez quando a vêem, ou quando ela bate palmas toda sorridente enquanto pede sushi para um chef japonês de aparência severa. A coisa toda parece sugerir que todas as mulheres japonesas são infantis como Lavigne, de 29 anos”.

Avril se defendeu das críticas: “RACISTA? RISOS RISOS RISOS! Eu amo a cultura japonesa e passo metade do meu tempo no Japão. Voei para Tóquio para filmar esse vídeo especificamente para meus fãs japoneses, COM a minha gravadora japonesa, coreógrafos japoneses E um diretor japonês NO Japão”.

Conclusão (?)

Não estudei o assunto a fundo, então peço perdão caso tenha cometido algum erro conceitual ou de julgamento. Escrevi sobre o tema porque vejo necessidade de trazê-lo para debate. Mais do que passar conhecimento, a minha intenção, com esse texto, é compartilhar o que consegui entender do assunto e, principalmente, aprender de quem por acaso vier a ler e tiver mais algo a acrescentar, porque acredito que o conhecimento é produzido assim, de forma coletiva, quando mais de uma cabeça pensam juntas. Se você tem algo a acrescentar à discussão, peço para que por favor o faça através da nossa caixa de comentários!

No entanto, tudo isso me parece, de certa forma, ocidentais tentando ver como racistas atitudes que nem os próprios integrantes dessas chamadas “culturais minoritárias” vêem como tal. Será?

ATUALIZADO EM 1º DE JULHO DE 2015

Mais de um ano depois da publicação original deste post, depois de ter lido mais sobre o assunto, sob diferentes pontos de vista, gostaria de adicionar ao meu texto a tradução de um artigo escrito por Grace Medford para o One of Those Faces e publicados no site Noisey (clique aqui para ler o original em inglês.

Por Grace Medford

Eu sei que você acha que apropriação cultural é algo novo, mas assim como as selfies, ela sempre esteve por aí, mas não havia um termo específico para defini-la. E eu sei que você acha que não importa, e realmente não importa, mas não pelas razões que você pensa.

Você acha que não importa por que como alguém ousa a te dizer que você não pode fazer isso ou aquilo ou aquilo outro só por causa da sua raça? Ah, me Deus, você não percebe a ironia desta declaração? É sobrepoderosa! Reclamar que você não pode fazer o twerk por ser branco enquanto há pessoas negras literalmente sendo mortas por atravessar a rua (sendo negras), por ouvir música (sendo negras) e por baterem em portas (sendo negras) entre outras transgressões que se encaixam em “existir (sendo negras)”, a pura audácia de sua indignação é digna de aplausos nervosamente confusos.

O debate sobre apropriação cultural dessa semana é centrado em Taylor Swift (a mais branca de todas as pessoas brancas – que se vestiu de garota do bairro e sacudiu inutilmente a parte de seu corpo onde deveria haver uma bunda em frente a um grupo de dançarinas negras e brancas com um pouco mais de traseiro. A presença de dançarinas brancas foi importante porque permite que pessoas que não se incomodam com o racismo mas se incomodam com serem chamadas de racistas usem isso como argumento: “não é racista porque também há dançarinas brancas!”.

Hm… mas é disso que se trata a apropriação cultural, ora bolas. Pessoas brancas ocupando espaços tradicionalmente negros (ou de outra raça/cultura), mas sem permitir com que pessoas negras (ou pessoas de outra raça/cultura) ocupem o lugar deles em troca (pelo menos não sem a existência de certas condições). E se você não acredita em mim, pergunte-se se há bailarinas negras na cena do ballet (do clipe de Shake it Off). Oh, é claro, não há. Provavelmente porque as melhores bailarinas que fizeram testes eram coincidentemente todas brancas – não é assim que funciona?

Em uma sociedade crescentemente diversa e multi-cultural, os limites ficam cada vez mais borrados. Mas o problema atual, nesse presente momento, é o contento socioeconômico e político no qual vivemos, no qual pessoas brancas são responsáveis por oprimir a “negritude” e depois acabam usando-na para seus próprios propósitos. E é por isso que toda vez que Taylor Swift banca “a do gueto” e toda vez que Lana Del Rey usa um cocar indígena americano, elas são chamadas à atenção.

Apesar de não ser nem de perto a maior criminosa, Katy Perry é a mais notória apropriadora cultural, e seus comentários recentes sobre “ficar com os hotdogs e o baseball” revelam muito sobre o assunto, principalmente por destacaram o quão entendiante os identificadores brancos são e vão ao cerne do que eu acredito que seja o problema em si – a branquitude é enfadonha, e as únicas pessoas que podem ser culpadas por isso são as brancas.

Veja bem, quando você diz a pessoas de raças ou culturas diferentes que eles devem andar, falar e agir como você para ter os mesmos empregos que você e fazer compras nas mesmas lojas e usar os mesmos banheiros, quando você faz com que “branco” e “identificadores brancos” sejam o padrão, você normaliza a identidade branca ao ponto de que você não consegue mais se inovador, criativo ou interessante sem roubar ou pegar emprestado das mesas raças e culturas que você oprimiu.

O que as pessoas falham em se lembrar quando há um clamor sobre pessoas que apenas gostam de cocares (e por falhar em se lembrar eu quero dizer seletivamente se esquecem) é que as pessoas que originaram essas tradições não foram permitidas a se expressar livremente da mesma forma que as pessoas brancas foram. Os americanos nativos foram chacinados aos milhares, tiveram os direitos às suas próprias terras negados, tiveram o direito de praticar sua própria religião negado e seus filhos tiveram que estudar em internatos para aprender entre os “civilizados”. Você acha que os americanos nativos tinham o direito de passear pelas ruas da nova América em seus mocassins e penas? Não, eles foram forçados a usarem ternos e serem legais com as pessoas brancas e aparecerem nas igrejas aos domingos. Então você deve entender o quanto deve ser irritante ver os filhos de seus opressores dançando por aí semi-nus em festivais usando os exatos mesmos itens que eles foram proibidos de usar.

E que tal Taylor, em sua vestimenta do gueto, parecendo ter saído diretamente do Harlem. #ESeAtirassemNela que imagem vocês acham que usariam de Taylor? De fato, se ela saísse vestida daquela forma para viver sua vida cotidiana, você acha que iriam atirar nela, não importa qual crime ela cometeu? É um insulto dizer que é “apenas por diversão” quando não é divertido para pessoas que não conseguem progredir, não importa o quão “branco” eles tentem parecer para se encaixar. Leia os comentários de Ronan Farrow sobre “maternidade negra” para entender como o que, para estrelas da música brancas, é “diversão e apreciação”, pode ser, para pessoas negras, a diferença entre ser morto por existir ou viver mais um dia.

Olha, eu sei que você não gosta disso. Eu sei que você acha que é injusto. Por que os americanos nativos devem ter o monopólio de cocares de penas? Por que eu não posso fazer o twerk, ou usar um quimono, ou me chamar de sassy ou qualquer outra merda que eu queira? Nós todos somos iguais e eu não vejo cor e racismo não existe mais e blá blá blá. E, de certa forma, eu concordo. Acho que é uma droga ter que defender valores e crenças (religiosas, espirituais ou qualquer outra) que não sejam as minhas. Eu acho tedioso que nossas vidas sejam afetadas a esse ponto por causa dos erros de nossos pais e avós. Eu odeio o fato de que nós não podemos todos cozinhar um bolo de arco-íris e sorrisos e comê-lo e ser feliz. Mas, por mais que eu goste de ocupar um espaço ideológico que não leva em conta o peso histórico e estrutural por trás da questão, o mundo não funciona dessa forma. Há muita dor e raiva de um lado e muita ignorância do outro para deixarmos esse tipo de coisa para lá. Até que haja igualdade, não haverá igualdade, percebem?

Então, na verdade, a resposta para a pergunta é não. Taylor Swift, Katy Perry, Lily, Lana e até Miley e Justin que estão “vivendo como negros” agora, eles não são o problema, eles são um sintoma dele. E nesse contexto, apropriação cultural na música pop não importa, porque com ou sem ela, merdas ainda existiriam. MAS, e essa é a grande questão que você precisa sentar e perguntar a si mesmo, quando você for defender seu artista favorito: como eles tem tanto no prato deles e mais um buffet inteiro de privilégios a sua disposição, por que exatamente é tão importante para eles comer do prato de outra pessoa?

Comments

comments