Com que roupa eu vou para o Consulado que você me convidou?

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Hoje acordei as nove da manhã. Tomei meu banho, lavei meu cabelo. Estava entrando no clima para uma entrevista no consulado americano. Logo, muitos pensamentos cercaram minha cabeça. Devo raspar o cabelo e aparar a barba? Devo aparar o corte do cabelo e tirar a barba toda? Não tinha me decidido ainda sobre o que fazer. Vesti minha roupa e fui em direção ao barbeiro. Lá, na fila de espera, encarando o espelho, optei por apenas aparar o meu cabelo e não raspar a cabeça, como de costume. Pensamentos sobre minha origem pipocavam em minha mente, como um alerta, a toda hora me lembrando quem sou eu, de onde venho, e o porque um simples corte de cabelo, naquele contexto, teria uma importância significativa para mim.

Sou jovem, homem, negro, de 22 anos. Não tenho como provar minha renda porque não tenho um emprego – além do meu estágio – e não poderia, nunca, arcar com uma viagem para os Estados Unidos da América, sozinho. Mas, ainda assim, eu tinha uma entrevista marcada no Consulado Americano às 14:30 e tinha que fazer alguma coisa sobre o meu visual. Em hipótese alguma eu poderia aparecer lá com o cabelo raspado e com a barba por fazer, com cara de pobre – o que sou e não tenho vergonha de assumir – e desleixado. De certa forma, não poderia me vestir do que gosto de vestir: do garoto negro que sempre fui e que nunca tive vergonha de esconder que fosse, também. Mas por alguns instantes de pensamento tive que guardar toda minha identidade racial dentro de um potinho interno e vestir um personagem: o garoto de classe média, visualmente aceitável, para entrar em um país branco, de primeiro mundo e ainda muito racista e conservador. Pedi, então, ao barbeiro para ajustar o corte do meu cabelo e não raspar com a máquina um, como sempre faço. Ele, um homem branco de meia idade, inicialmente estranhou a mudança brusca na rotina, mas aceitou e assim o fez. O cabelo não parecia crespo, nem muito menos desleixado, agora.

Voltando para casa, a ficha de que eu precisava me encaixar dentro de um padrão de vestimenta aceitável para conseguir a minha viagem para a Califórnia começava a cair. E se eu não conseguisse provar que sou um “deles” financeiramente, pelo menos visualmente, eu conseguiria chegar lá e provar para o oficial consular que eu estava me esforçando para entrar dentro dos padrões e conseguir um “sim” para o meu visto.

Chegando em casa, logo fui para o banho novamente. Tirei a barba e o excesso de cabelo. Saí do banho e logo recebi um elogio de minha mãe. “Você fica muito mais bonito assim”. Ela, uma senhora branca de 74 anos e, porque não, com ideias de etnia marcadas por sua época, sem querer soltou um elogio disfarçado em micro preconceito velado. É minha mãe e tenho que entender sua idade, suas oportunidades de ensino (só cursou até a quarta-série do ensino fundamental e se alfabetizou tardiamente por um programa do Estado). Entendi, nela, os poréns dentro dos poréns e agradeci o comentário. Arrumei-me para tal entrevista. Coloquei a camisa “mais branca” que eu tinha no armário e, já embrulhado por um traje aceitável socialmente, fui para o metrô.

Decidi passar no trabalho primeiro para deixar minha mochila antes de ir ao Consulado. Meu chefe, ao notar a mudança no meu visual – sem barba e com o cabelo engomado, um pouco maior do que o de costume – disparou um “Tá todo arrumado assim porque vai no Consulado? Deu para perceber porque está tão bem apresentável”. Sorri de lado e um pouco sem graça. Ele não é a minha mãe e entende bem os poréns dentro dos poréns. De qualquer forma, parti para a tal entrevista. Lá, encontrei minha prima. Branca, loira de olhos azuis e tão bem arrumada quanto eu. Lá, éramos parentes e entraríamos juntos. Família Guimarães dos Santos, brancos por natureza e com muito dinheiro para dar ao Tio Sam. Não precisamos provar muita coisa – porque o visual já confirmava nosso discurso. Jovens, sem comprovação de renda, mas com um provedor da viagem. Ela, mora na Barra da Tijuca e eu estudo na renomada PUC-Rio.
Não generalizo os brancos como pessoas conservadoras e racistas. Longe de mim pensar de tal forma monocromática. O fato é que a maioria dos americanos é desta etnia e que suas ideias são sim ainda muito conservadoras e fechadas. A imagem de consulado americano ainda é a imagem do branco de classe media que pode custear uma viagem para Orlando ou para fazer compras em Miami. Se minha imagem fosse contrária ao discurso, talvez tivesse sido um não. Talvez este viesse através das exigências de documentos – que não foram exigidos – ou até mesmo de uma desconfiança primária.

A liberdade de ser negro – e expressar minha identidade da forma que bem entendo – esbarra na ideia de liberdade do outro? Até onde ser uma pessoa culturalmente plena é realmente ser livre? Até onde a minha barba por fazer e o meu cabelo raspado realmente dizem alguma coisa sobre mim?

“Os vistos foram concedidos. Tchau Tchau”, disse o Oficial Consular. Eu, na volta, beijei meus tios, que estavam ansiosos pelo resultado. Apreensivo, voltei para o meu trabalho pensando se a pessoa aceita para atravessar a América tinha sido eu, o rapaz negro de cabelo raspado e barba por fazer, ou algum outro personagem que minha cabeça inventou para se encaixar dentro do quadrado chamado de Sonho Americano. De qualquer forma, me vesti de branco, consegui o visto e viajo em julho.

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