Por que Jurassic Park é 100 vezes mais feminista do que Jurassic World

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* Texto por Molly Fitzpatrick, publicado no site Fusion.net. Para ler o original em inglês, clique aqui.

Há um curto e ótimo filme sobre dinossauros dentro de Jurassic World, um longo e medíocre filme sobre humanos. Esse blockbuster quebrador de recordes de bilheteria talvez seja o quarto episódio da franquia Jurassic Park, mas sua política de gêneros é muito aquém à do original de 1993.

A protagonista feminina deste filme é Claire (Bryce Dallas Howard), uma executiva poderosa que trabalha no enorme parque temático Jurassic World. Ela é uma mulher fria, que só pensa na carreira, e que deve aprender (ou mais precisamente, ser ensinada) a importância da maternidade.

Essa personagem é tão inovadora quanto parece, provavelmente até menos.

Claire (Bryce Dallas Howard) e Owen (Chris Pratt)

No telefone com sua irmã, Claire diz “se eu tiver filhos”, fazendo com que Karen (Judy Greer) a desaprove e a corrija para “quando”, antes de explicar, em lágrimas, a importância dos valores familiares. Enquanto isso, o iminente divórcio de Karen é tratado como um melodrama que parece pertencer a um filme pré Kramer vs. Kramer.

Quando o Indominus rex, o destruidor dinossauro híbrido geneticamente modificado de Jurassic World, escapa de sua jaula, Claire se junta ao bonitão e machão treinador de Velociraptors Owen (Chris Pratt) para resgatar sobrinhos dela que visitavam o parque. Enquanto ela corre pela selva da Costa Rica em um par de saltos altos, assistimos ao cabelo de Claire ir de liso lambido a crespo enquanto o personagem de Pratt – que, por sua vez, não mostra nenhum tipo de crescimento – a afrouxa literal e figurativamente.

Não é apenas Jurassic World que não deixa Claire mostrar a que veio: ela também não consegue fazê-lo. Apesar do sucesso profissional ostensivo de Claire, o filme a mostra sendo comandada por homens e mais homens e mais homens, de Owen ao dono do parque (Iffan Khan) e ao chefe de segurança do parque (Vincent D’Onofrio). Ironicamente, quando ela finalmente tem a chance de dizer a alguém o que fazer (Lowery, o nerd da sala de controle interpretado por Jake Johnson), ela o faz em termos sexistas: “Seja homem pelo menos uma vez na vida,” ela o repreende.

Nos raros momentos nos quais o roteiro realmente permite que Claire faça algo empoderador, ele rapidamente rebaixa o triunfo dela. Logo depois que Claire e Owen se reúnem com os sobrinhos dela, ela salva a vida de Grady atirando em um Pteranodon que o atacava. Ainda assim, minutos depois, as crianças anunciam “Queremos ficar com ele” (querendo dizer Owen, que eles haviam acabado de conhecer) no que aparentemente deveria ser uma fala hilária.

Nick Robinson e Ty Simpkins, sobrinhos de Claire, Zach e Gray

“Seu namorado é foda,” um dos garotos diz a ela. Ela cora como uma garotinha ao ouvir isso, como se mal pudesse esperar para escrever aquilo em seu diário.

Para derrotar o Indominus rex, Claire espertamente liberta o T. rex de sua jaula com um sinalizador, uma referência a Jurassic Park. É um momento heroico genuíno, rapidamente rebaixado pelo fato de que ela foge do animal ainda em seus saltos altos.

Quando a batalha dinossauro x dinossauro se desenrola, nossa heroína acaba prostrada no chão, bem próxima à luta, por nenhum motivo aparente. Ela é reduzida a uma donzela em perigo indefesa, arfando, parecendo um pouco com Fay Wray em King Kong.

Em cima: Bryce Dallas Howard, 2015. Embaixo: Fay Wray, 1933.

Claire não é a única personagem feminina falha em Jurassic World. Sua assistente, Zara (Kati McGrath), é, notavelmente, a primeira mulher a ser morta em cena na história da franquia, o que, a menos na teoria, poderia ser considerado como um progresso rumo à igualdade. Mas sua morte arrastada nas mãos (modo de dizer) de vários dinossauros é memorável, surrealmente brutal. Não é o tipo de fatalidade aleatória que normalmente acontece nesse tipo de filme. A morte de Zara é feita para se saborear, como uma retribuição merecida.

Naquele dia, Claire havia incumbido Zara de tomar conta de seus sobrinhos, que acabaram fugindo da supervisão da babysitter. Quando ela morre, tudo que sabemos sobre Zara é que a) ela não é boa com crianças – apesar de estar longe de ser o advogado de Jurassic Park, que encontra sua morte nas garras do T. rex depois de abandonar duas crianças intencionalmente para a morte – e, pelo que ouvimos de uma conversa de telefone dela, que b) ela não gosta da ideia de que seu noivo dê uma festa de despedida de solteiro.

Pelo que, exatamente, Jurassic World está a punindo?

Howard, a Claire de ‘Jurassic World’ e Laura Dern, a Dr. Ellie Sattler, de ‘Jurassic Park’

O jeito como Claire amarra as pontas de sua blusa e o top roxo que veste por baixo dela provavelmente tentam evocar a Dr. Ellie Sattler (Laura Dern) de Jurassic Park. Infelizmente, apesar das escolhas de guarda-roupas, essas duas mulheres têm pouco em comum.

Diferentemente de Claire, Sattler é uma personagem fantástica. Ela é corajosa, ativa e brilhante, tão capaz intelectual e fisicamente quanto qualquer outro no filme (talvez até mais do que as outras pessoas do filme). Sattler, uma paleobotânica, está em um relacionamento romântico discreto com seu colega Alan Grant (Sam Neill), com quem ela compartilha um laço construído por respeito mútuo. Em Ilha Nublar, ela nem considera os flertes pesados de Ian Malcolm (Jeff Goldblum). E certamente vale a pena notar que, em contraste com os saltos e a saia-lápis de Claire – que, em algum momento que eu perdi, arranja um rasgo inexplicável, revelando sua coxa – Sattler se veste de forma prática para fugir de raptors, com botas de caminhada e shorts cáqui. O estilo confortável de 1993 certamente supera as rígidas restrições de 2015.

Sattler também é uma feminista com orgulho. Quando seu Jeep está estacionado do lado de fora do local de exibição do T. rex, Malcolm faz comentários poéticos sobre a natureza de seu experimento: “Deus cria dinossauros. Deus destrói os dinossauros. Deus cria o homem. O homem destrói Deus. O homem cria dinossauros.”

Sattler nem hesita. “Os dinossauros comem os homens,” ela continua. “As mulheres herdam a Terra”.

Sattler, Ian Malcolm (Jeff Goldblum), e Alan Grant (Sam Neill) do lado de fora da jaula do T. rex

Quando Ellie embarca sozinha em uma missão perigosa para religar a energia elétrica do parque, o dono do Jurassic Park, John Hammond (Richard Attenborough), hesita. “Deveria ser eu, na verdade, a ir,” ele diz, porque esse é um trabalho para um homem. Isso faz com que Sattler revire os olhos.

“Nós podemos discutir sexismo em situações de sobrevivência quando eu voltar,” ela dispara.

Apesar do ceticismo de seu parceiro quanto a crianças, Sattler expressa abertamente seu interesse em ter filhos. Diferentemente de Jurassic World, Jurassic Park sabe perfeitamente que existem mulheres que tanto tem ambição quanto são maternais.

Grant cuida de Lex (Ariana Richards) e Tim (Joseph Mazzello)

Família também é um elemento central aqui, mas a responsabilidade de cuidar das crianças acaba sendo masculina. Preso no parque com os netos de Hammond, Grant se torna seu pai substituto. Ele os leva até à segurança do centro de visitantes e desenvolve afeição real por eles durante esse processo. A descoberta de Grant quanto a gostar de crianças é alegre, mas em Jurassic World, Claire é coberta de vergonha e ansiedade.

Vi Jurassic Park pela primeira vez quando era criança e – espero não estar sozinha nessa – imediatamente me apaixonei pela pré-adolescente Lex (Ariana Richards), uma hacker habilidosa e vegetariana. É a neta de Hammond que reinicia sozinha o sistema de segurança do parque, um feito que espanta todos os adultos do filme, e acaba salvando o dia.

Lex hackeia o sistema de segurança do parque

Em Jurassic World, as únicas moças jovens a aparecer são bonitinhas sem nome que servem apenas como paquera de Zach (Nick Robinson), o sobrinho esquisito de Claire.

Se eu tivesse uma filha, eu saberia muito bem qual desses dois filmes eu mostraria a ela. Além dos óbvios progressos nos efeitos especiais, é realmente difícil de acreditar que Jurassic World saiu 22 anos depois de Jurassic Park.

Você pode fazer um bom filme – um filme muito bom, até! – que una uma mulher certinha e um cara machão. Dois romances bem sucedidos nesse molde são “Tudo por uma esmeralda” (1984), no qual Michael Douglas prepara os sapatos de Kathleen Turner para o ambiente selvagem ao arrancar seus saltos com um facão, ou A Rainha Africana (1951), no qual a missionária Katharine Hepburn joga todo o gim do capitão Humphrey Bogart no Rio Ulanga.

Mas para que essa fórmula funcione, são necessários personagens tri-dimensionais, bem desenvolvidos, que aprendam mutuamente um do outro – e que não se sintam envergonhados por falhar em aderir aos papeis de gênero tradicionais.

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