Beyoncé, o sexo e a Deusa

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Uma das coisas que mais me chocou (de maneira positiva) durante minha adolescência, foi quando, ao ler o livro e assistir ao filme O Código da Vinci, tomei conhecimento de uma antiga tradição religiosa pré-Cristã na qual membros de cultos pagãos se uniam sexualmente como forma de atingir e se comunicar com Deus. Como não fui criada dentro de nenhuma crença específica, muito menos alguma que recrimine o prazer sexual, nunca o vi como pecado ou como algo sujo, mas sim como algo natural e belo, a expressão máxima do amor, seja ele romântico ou carnal, e a origem de toda vida humana (veja bem, nada conta quem vê dessa forma, essa é apenas a minha própria visão de mundo e respeito totalmente a sua caso seja diferente). Por nunca, digo nunca mesmo, desde o momento em que descobri que os bebês não vinham de cegonhas (na verdade, nem sei se algum dia me deram essa explicação. Acredito que assim que eu tive dúvidas quanto essa questão, meus familiares já me explicaram a realidade das coisas.).

Esses grupos pagãos veneravam o que eles chamavam de o Sagrado Feminino, quase como se acreditassem em uma Deusa, e não em um Deus, o que era comum na Europa entre os povos celtas, antes que o Cristianismo se espalhasse pelo continente. Com o tempo, acabei lendo também a série de livros As Brumas de Avalon, que conta a história mítica do Rei Arthur através do ponto de vista das mulheres da lenda, principalmente as sacerdotisas de Avalon, que seguiam a tal Deusa.

Eu não sabia, mas todas essas referências culturais que fui absorvendo durante a adolescência formaram a base que eu precisava para chegar à vida adulta me auto-proclamando feminista com orgulho.

Outro pilar do meu feminismo adolescente foi minha admiração por Beyoncé. No início, nem eu nem ela dominávamos o assunto completamente, porque minha versão mais jovem tinha a mania de chamar de “puta” qualquer menina que usasse uma saia mais curta, e ela também, como fica claro na música e no vídeo de Nasty Girl (acima), das Destiny’s Child, grupo musical do qual ela participava. Graças à Deusa, o tempo passou, ambas amadurecemos e hoje em dia fico orgulhosa de ver o quanto ela (e feliz de ver o quanto eu) soube aplicar o conceito de liberdade sexual da mulher em sua arte e vida.

“Por ser mulher, é esperado que eu queira casar. Espera-se que eu tome as decisões da minha vida tendo em mente que o casamento é a mais importante. Mas por que ensinamos isso às meninas e não aos meninos? Ensinamos às meninas que elas não podem ser seres sexuais da mesma forma que os meninos são.” – Trecho da fala da escritora Chimamanda Ngozi Adichie usado na música Flawless

Em seu novo álbum, Lemonade, Beyoncé vai além de simplesmente pregar a liberdade sexual feminina; ela retoma os conceitos do Sagrado Feminino e da adoração a uma entidade divina através do ato mais natural de todos, o sexual.

Na música “Don’t Hurt Yourself”, Beyoncé canta para seu parceiro que a traiu: “Quando você me machuca, você machuca a si mesmo. Quando mente para mim, apenas mente para si mesmo. Quando me ama, ama você mesmo. Ama a própria Deusa”.

Sabemos que ela se refere a uma Deusa, no feminino, porque na letra original em inglês, “love God herself”, ela usa a palavra “herself”, um pronome que, em português, traduz-se como “a ela mesma”. Beyoncé estaria, então, admitindo a possibilidade de Deus ser do gênero feminino.

O mais interessante de tudo é que, durante o vídeo desta música no especial Lemonade, justamente quando esse trecho é cantado, uma mensagem aparece na tela por um momento:

GOD IS GOD AND I AM NOT

DEUS(A) É DEUS(A) E EU NÃO

Qual o objetivo da inclusão dessa mensagem? No meu ponto de vista, a intenção foi remover a ambiguidade do trecho “Quando você me ama, ama você mesmo, ama a própria Deusa”, que alguns poderiam interpretar como Beyoncé se proclamando Deusa. Não, não é isso. Ela fez questão de dizer que a Deusa não seria ela mesma, mas uma Deusa superior, onisciente, onipotente, onipresente.

Além disso, no interlude entre Don’t Hurt Yourself e Sorry, Beyoncé fala sobre o sexo como forma de adoração:

That, too, is a form of worship.

“Deus também estava no quarto quando o homem disse à mulher ‘Te amo demais. Me abrace com as pernas, deixe-me entrar, deixe-me entrar, deixe-me entrar.’ Às vezes, quando ele colocava o mamilo dela na boca, ela sussurrava ‘Ah, meu Deus.’ Essa também é uma forma de adoração.” – Trecho de um dos interludes de Lemonade

Isso tudo me emocionou muito, porque essa sempre foi minha crença, e ver minha artista favorita desde sempre falando abertamente sobre isso e reconhecendo a beleza, a poesia da relação entre sexo e divino foi muito tocante. Novamente, se esta não é sua crença, respeito seu ponto de vista mas, ao meu ver, essa relação é uma das coisas mais belas da humanidade.

Infelizmente, algumas pessoas interpretam essa visão como algo demoníaco, ou inventam de relacionar isso com aquela questão dos Iluminatti, mas, sério, só posso lamentar. E Beyoncé também tem algo a dizer quanto a isso, não é mesmo?

Vocês, críticos que me odeiam, são muito bregas com essa história de Iluminatti – Trecho de Formation

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