Por que criticar a habilidade compositora de Beyoncé é ridículo?

Beyonce-AnneFrank
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O fato mostra uma falta de conhecimento de arte e da indústria do entretenimento. E também pode ser racista.. A matéria é em inglês e foi publicada em abril, época de lançamento do Lemonade, de Beyoncé, no site da revista Vanity Fair.

Por James S. Murphy / Tradução adaptada por Jhonatan Zati

Nesse fim de semana, a trilha sonora da Internet variou entre Prince e Beyoncé. E enquanto a recepção inicial de Lemonade parece ter sido a melhor possível, não demorou para que voltassem as mesmas críticas de sempre.

Gosto da Beyoncé, mas não entendo como podem chamá-la de “ótima”. Tem 60 compositores e 15 produtores no disco.

– haha deixa eu ver as pessoas criticando a Beyoncé por fazer aquilo que elogiam no Bowie
– O que você quis dizer com isso? Bowie nunca chegou nem perto de usar tantos produtores ou compositores em nenhum dos seus discos, como a Beyoncé.

“Beyonce é poeta. Um gênio sem igual”.
Esse disco tem mais escritos que uma bula de remédio.

Esses comentários foram respostas à posição de Kanye West, que viralizou ao dizer que Beck devia dar seu Grammy a Beyoncé pelo seu disco.

– Então o Beck admira o Kanye West. MDS.
– “Beck deveria respeitar a arte de Beyonce”. Cala a boca, Kanye West
.

Criticar a Beyoncé por contar com colaborações na produção da sua arte é ridículo.

Provavelmente racista, também, mas vou deixar os haters colocarem a mão na consciência e pensarem nisso. Vamos ser claros, você não precisa gostar do som da Beyoncé, mas se você a critica por trabalhar com outros artistas, releia as frases acima. Quem critica Beyoncé, Kanye West e outros artistas (na sua maioria negros) por trabalharem com outros artistas e produtores entenderam duas coisas errado: não entenderam a história e a natureza da arte e não entenderam como funciona a indústria do entretenimento.

Em primeiro lugar: a arte. A arte raramente foi (se é que foi um dia) resultado do trabalho de um único gênio. Essa ideia foi encorajada pelos poetas e pintores do período Romântico, que embarcavam numa viagem solitária em busca da Verdade e da Beleza (não importa se a mãe de Thoreau lavava sua roupa toda semana). Na verdade, muitos dos grandes pintores eram donos de estúdios, dos quais, assistentes completavam grande parte das obras, antes que eles as finalizassem. Shakespeare não inventou todas as cenas de suas peças, ele “pegou emprestado” enredos (usou samples?) de outros autores e deu a eles marcas de autoria. A arte e a literatura modernistas surgiram de uma gama de autores que trabalharam próximos, num espírito de cooperação, muitas vezes opinando, criticando o trabalho um do outro. No início de seu A Terra Desolada, T. S. Eliot agradeceu a Ezra Pound, o “mais fino artesão”, pela extensa revisão feita no seu poema, que incluiu corte e reescrita de alguns dos versos.

8 músicas de sucesso com samples na composição

Todas as formas de arte dependem do suporte ao qual são inerentes. Estúdios de cinema e de gravação precisam de profissionais para o trabalho com os equipamentos, então, as pessoas podem ficar à vontade para exercitar seu talento. Bom… pelo menos é o que dizem. Na atualidade, com o desenvolvimento da tecnologia, técnicos se tornaram os artistas que podem se expressar por meio da genialidade, por exemplo, do filme Gravidade, em 3D, ou o auto-tune de 808s & Heartbreak. Ninguém diminui diretores que não escrevem seus filmes ou atores por não escreverem suas falas. Tudo está nas “letrinhas pequenas”, como em Lemonade.

Meryl Streep não é conhecida por escrever belíssimos diálogos, mas por dar vida às palavras que lhe são dadas. Por muito tempo, aconteceu o mesmo com músicos na história da música moderna. Nem Frank Sinatra nem Billie Holiday compuseram suas músicas; mas as interpretaram e, dentro do cabível, fizeram delas únicas. A música popular norte-americana surgiu na Tin Pan Alley e brilhou nas grandes Brill Building e Motown, nas quais equipes de músicos e compositores escreveram canções para intérpretes.

Nos anos 1960, cantores como Bob Dylan seguiram a onda dos Românticos, partindo rumo à viagem isolada cujo objetivo era o contato com a arte, mas no country, no RnB, na música disco e mais tarde no rap, o molde da Tin Pan Alley continuou a ser seguido. Na década passada, produtores como Timbaland, Max Martin e Diplo se tornaram grandes astros. A forma “individual” parece comum para os críticos de Beyoncé, mas Bruce Springsteen, Prince e Beck são, na verdade, raridades.

Os críticos podem argumentar que isso faz deles superiores a ela, mas a qualidade da música nunca esteve necessariamente atrelada ao fato de seu intérprete tê-la escrito. Richard Max escreveu todos os seus maiores sucessos. O maior sucesso que Aretha Franklin escreveu e gravou foi Who’s Zoomin’ Who.

Da mesma forma, é justo questionar o porquê de tantas pessoas aparecerem como compositoras no último disco de Beyoncé. Observá-las é interessante. Tomemos como exemplo a música Don’t Hurt Yourself.

Na lista, estão Jack White dos White Stripes, o compositor Wynter Gordon, Beyoncé e um quarteto improvável de parceiros, que inclui John Bonham, que faleceu em 1980. Obviamente, o Led Zeppelin não se juntou a Beyoncé para escrever uma música em 2016, eles gravaram When the Levee Breaks em 1971 e Beyoncé reutilizou alguns segundos em Don’t Hurt Yourself. Por sua vez, o Led Zeppelin também não compôs a canção. Kansas Joe McCoy e sua esposa Memphis Minnie o fizeram em 1929.

A razão pela qual os membros do Led Zeppelin – dos Yeah Yeah Yeahs, do Animal Collective e outras bandas – levam créditos no novo álbum de Beyoncé não tem nada a ver com a questão da arte, mas sim com a questão dos direitos autorais, mesmo que por “créditos” você entenda imitar a sonoridade de um acorde que seja. Em 1991, dois processos judiciais modificaram o curso do hip-hop e deram uma nova definição à “composição”, porque um dos compositores do Animal Collective usou inconscientemente um único verso de uma música, o modificando. Com a música desse incidente, a banda acabou ganhando créditos em Lemonade.

Também naquele ano, os Turtles, uma dupla dark e psicodélica dos anos 1960, moveram uma ação contra um dos maiores grupos de hip-hop de todos os tempos, os De La Soul, por terem usado trecho da esquecida You Showed Me, na Transmitting Live From Mars. No fim, os Turtles receberam U$1,7 milhão em um acordo judicial. Biz Markie foi levado aos tribunais no fim daquele ano por citar o hit de Gilbert O’ Sullivan, Alone Again, de 1972. Ele perdeu, foi condenado a pagar U$250 mil por danos morais e muito pior: sua gravadora foi forçada a tirar o disco de circulação. O juiz do caso inclusive sentenciou que o caso prosseguisse, mas isso não aconteceu.

As decisões judiciais de Biz Markie e dos De La Soul marcaram um novo rumo para o rap, fazendo com que os artistas pensassem mais sobre o próprio trabalho. Os tribunais assim agiram não só para que as citações fossem corretamente atribuídas, o que já era de bom tamanho, mas também para que não passassem despercebidas. Toda a burocracia e leis severas de direitos autorais é que estão por trás da ideia de a música parecer mais trabalho de uma equipe do que de um artista.

Os que tanto criticam Beyoncé falham em não enxergar todo esse histórico quanto à expressão artística, quando o assunto é trabalhar com outros artistas. Mesmo que eu estiver errado, estou ansioso para ler os tuítes criticando o Rembrandt e o Shakespeare.

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