Referências que você pode ter perdido em Desventuras em Série, da Netflix

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Na semana passada, escrevi um post sobre Como Desventuras em Série moldou e continuar a moldar minha personalidade. Nele, expliquei que a série possui algumas referências à literatura de língua inglesa e à própria série, além de incontáveis trocadilhos e jogos de palavras que acabam se perdendo com a tradução, ou caso o público não preste um pouquinho mais de atenção ao texto. Tentei reunir aqui, nesta série de posts, algumas dessas referências para quem ficou curioso!

 

Mau Começo – Parte Um

 

Referências culturais

  • Aos 5:10, Klaus lê uma passagem de O Tempo Redescoberto, sétimo volume da obra prima do autor francês Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: “Le bonheur est salutaire pour le corps, mais c’est le chagrin qui développe les forces de l’esprit”, ou “A felicidade é benéfica para o corpo, mas é a tristeza que desenvolve os poderes da mente”. Ele diz não ter entendido a passagem e questiona se não ela seria mais fácil de se entender no idioma original.
  • Aos 6:35, Violet pede que Klaus cite Einstein, e ele diz: “The most beautiful thing we can experience is the mysterious. It is the source of all true art and science”, ou “A coisa mais bela que podemos experienciar é o misterioso. É a fonte de toda verdadeira arte e ciência.” Logo em seguida, aos 6:43, eles citam a música “Superbad”, de James Brown: “I got somethin’ that makes me wanna shout, I got somethin’ that tells me what it’s all about. I’m superbad.”

  • Assim como os Baudelaire foram batizados dessa forma pelo autor dos livros, Daniel Handler, por causa do escritor Charles Baudelaire, os nomes do Sr. Poe e de seus filhos, Edgar e Albert, prestam homenagem aos escritores Edgar Allan Poe e Edgar Albert Guest. Quando os irmãos aparecem pela primeira vez na série, aos 12:24, eles têm um diálogo que envolve “raven” e “crow”, duas palavras inglesas para corvo que, nada por acaso, é o nome de uma das obras mais conhecidas de Poe, O Corvo. Na cena onde vemos o Sr. e a Sra. Poe dando boa noite aos filhos, aos 13:40, os meninos são mostrados em suas camas, que contrastam bastante. Albert tem uma cama comum, com uma luminária ligada, pôsteres de esportes e dorme abraçado a uma bola de futebol americano. Edgar, por sua vez, tem um véu sombrio em volta de sua cama, quadros com temática de corvo e até mesmo um corvo empalhado ou de brinquedo na estante.

  • Antes de iniciar seu número musical, Conde Olaf cita, novamente, James Brown, mais especificamente a música “I Feel Good”, aos 35:19.

  • Aos 38:31, Lemony Snicket cita Jean Anthelme Brillat-Savarin, um dos mais famosos gastrônomos franceses, com a frase: “To invite people to dine with us is to make ourselves responsible for their well-being for as long as they are under our roof”, ou “Convidar pessoas para jantar conosco nos torna responsáveis por seu bem-estar enquanto elas estiverem sob nosso teto.”

Referências à própria série

  • Quando a juíza Strauss guia os Baudelaire até sua biblioteca, aos 32:10, ela explica que lá eles podem encontrar livros sobre todos os temas, inclusive sobre “o fungo mais perigoso do mundo”. Quem já leu os livros capta rapidamente a referência, mas quem não leu… não daremos spoilers!
  • Aos 46:25 acontece um dos momentos mais legais para quem já conhece os livros: no túnel subterrâneo por onde caminha Lemony Snicket, temos diversas placas com os nomes de personagens e lugares que só aparecerão nas próximas temporadas, como Spats, Hal, Quagmire, 667, Remora entre tantos outros.

Ironias e trocadilhos

  • Aos 9:55, Lemony Snicket diz “Se você já perdeu alguém muito importante para você, já sabe como é. Se não perdeu, não tem como sequer imaginar.” Na cena imediatamente após esta, o Sr. Poe diz “Nunca passei por nada disso, mas posso imaginar bem como se sentem,” evidenciando a falta de empatia dele para com o luto das crianças.
  • Um dos capangas mais engraçados da trupe teatral vilanesca é o andrógino, porque a expressão facial dele é praticamente nula, mas ele é sem dúvida o adulto da série que faz as afirmações mais inteligentes ou, simplesmente, de bom senso, como aos 38:10, quando ele diz “Poderíamos esperar pacientemente” e aos 42:39, quando diz “O dinheiro realmente corrompe”.

  • Um momento bem metalinguístico é aos 41:14, quando Olaf está fazendo um solilóquio, ou seja, um tipo de monólogo, só que com pensamentos ordenados e coerentes, quando justamente na hora que ele vai nomear este tipo de texto, seu capanga careca o interrompe, desfazendo o solilóquio e irritando o Conde.

 

Mau Começo – Parte Dois

 

Referências culturais

  • Aos 30:56, quando o capanga andrógino diz “Acho que isso prova que ler realmente é fundamental”, é uma referência a uma frase dita no reality show RuPaul Drag’s Race, quando as drag queens precisam “ler” umas as outras para conhecer as concorrentes e poder derrotá-las*.
  • Em 45:20, Olaf e seu capanga vem andando por um corredor nos bastidores do teatro onde apresentarão O Casamento Maravilhoso. Em uma das paredes, há uma folha com os dizeres “The Pretentious Young Ladies by Molière”. Essa, de fato, é uma peça escrita por Molière (Les Précieuses ridicules no original, As Preciosas ridículas, em português), que faz uma sátira do chamado preciosismo, “estilo literário que surgiu das vívidas conversações e dos alegres jogos de palavras das ‘les précieuses’, espirituosas e bem-educadas damas que freqüentavam os salons da Marquesa de Rambouillet. (…) Uma das figuras centrais do salon, Madeleine de Scudéry, escreveu romances volumosos insuflados de elegância feminina, requintados escrúpulos de comportamento e amor platônico, que eram extremamente populares junto a uma grande audiência feminina, mas sofriam o desprezo da maioria dos homens,” o que lembra muito o texto proclamado pelas capangas de cara pálida de Olaf durante O Casamento Maravilhoso (“Oh, ele é tão lindo! Meu coração se partirá se eu não o tiver!”).

  • Aos 55:34, Lemony narra que “O argumento de Klaus tinha uma visão apócrifa de Thurgood Marshall e serenidade moral de Ida B. Wells,” se referindo ao associado de justiça da Suprema Corte e à jornalista e socióloga americanos. Klaus também cita, aos 55:47, Martin Luther King: “Morality cannot be legislated, but behavior can be regulated. Judicial decrees may not change the heart, but they can restrain the heartless”, ou “A moralidade não pode ser legislada, mas o comportamento pode ser regulado. Decretos judiciais podem não mudar o coração, mas podem restringir aqueles que não o possuem.”

  • O showrunner da série Barry Sonnenfeld deu uma entrevista ao Adoro Cinema dizendo que “Tentei fazer com que um quadro meu aparecesse em todos os episódios. Então, em todos os episódios, o objetivo é achar o meu retrato. Alguns estão bem na cara, outros não”. Aos 1h28s, o retrato dele aparece ao fundo da biblioteca da juíza Strauss. O retrato também estava lá no primeiro episódio, quando as crianças vão à biblioteca da vizinha pela primeira vez, mas aparece muito rapidamente e não dá para perceber tanto.

Referências à própria série

  • Os símbolos de olhos ou a sigla VFD (ou CSC, na tradução dos livros para o português) são muito importante para a saga. Ela aparece na série tanto em momentos mais explícitos quanto em alguns mais difíceis de perceber. Ao 9:09, o mapa que o Conde abre tem formato de olho, assim como as lasquinhas de madeira que aparecem na tora quando Violet desce o machado aos 10:29.

  • O roteirista da peça citado por Conde Olaf aos 16:37 não é ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Conde: Al Funcoot é um anagrama para Count Olaf, versão em inglês do nome do vilão, assim como Lucafont, o nome da “enfermeira” do quarto episódio, entre outros que ainda aparecerão na série.
  • Ao rimar “Olaf” com “arroz pilaf”, aos 21:29, o Conde já adianta uma rima que será citada por outro personagem futuramente, se a série escolher incluir este trecho dos livros.
  • Um dos maiores mistérios dos livros é um açucareiro e todos os segredos que o cercam. O Conde faz uma alusão rápida e aparentemente fora de contexto a ele aos 27:24, levando os fãs que já leram os livros à loucura. Coisa parecida acontece aos 31:33, quando, ao encontrar os Baudelaires mais velhos procurando por Sunny, ele diz “When did you see her last?”, ou “Quando você a viu pela última vez?”, que é o nome do segundo volume da outra saga literária de Lemony Snicket, Só Perguntas Erradas, também relacionada ao universo de Desventuras.
  • Aos 58:04, Jacquelyn diz que os pais dos Baudelaire estabeleceram um lugar específico para que eles vivessem, mas as palavras usadas por ela são “vigorously fixed destination”, ou seja, um “lugar de destino vigorosamente fixado”. A graça, aqui, são as iniciais da expressão, VFD, que fazem parte do maior mistério da série.
  • Ao morrer, Gustav diz “The world is quiet here”, ou “O mundo aqui é sereno”/”O mundo aqui silencia”, frase que aparecerá novamente no futuro*.

Ironias e trocadilhos

  • Não é exatamente uma ironia, mas algo que fica perdido na tradução: aos 5:45, Conde Olaf precisa inventar um nome fictício para se apresentar à secretária do Sr. Poe e se inspira na anotação “haircut” na agenda em cima da mesa, dizendo que seu nome é Haircut (que significa “corte de cabelo”). Quando ela pergunta, desconfiada, “Haircut?” ele responde “sim” que, em inglês, é “yes”. A partir deste “yes”, ele puxa o nome Yessica, o que ficou perdido na dublagem, por exemplo.

  • Aos 6:25, há mais uma vez um texto metalinguístico, onde Lemony Snicket diz que alguns executivos de televisão se perguntaram como as crianças foram parar nas mãos do Conde Olaf, algo que não fica exatamente explicitado no livro. Esse questionamento pode ter acontecido de verdade enquanto os roteiristas preparavam a série, então uma explicação foi criada especialmente para ela, como vemos no desenrolar desta cena, que não está nos livros.
  • Um momento bem engraçado acontece quando, aos 19:55, a juíza Strauss revela que tinha o sonho de trabalhar como atriz e diz que “trocaria todas as suas perucas por poder usar um figurino”, sem reparar que sua peruca de juíza não deixa de ser um figurino. A mesma coisa acontece no episódio oito, quando o Sr. Poe, que está sempre de terno por ser um bancário, diz que trocaria todos os seus ternos por poder usar um uniforme.
  • O capanga andrógino do Conde Olaf ataca novamente com sua intelectualidade única entre os adultos da série ao falar ao Conde (em vão, porque este não escutou nenhuma palavra), aos 21:38, que “Acho que o casamento, mesmo em um contexto de mudanças, é uma construção inerentemente patriarcal que provavelmente perpetua a instituição hegemônica que problematiza…”, não tendo a chance de terminar sua reflexão. Além disso, em 30:56, ele solta mais um de seus comentários sensatos: “Acho que isso prova que ler realmente é fundamental”.
  • Aos 25:09, o capanga de mão de gancho oferece amostras de bolo para o conde e diz que um dos bolos é meio “lemony”, ou seja, “com gosto de limão”, e a palavra também é o nome do narrador, Lemony. Olaf então responde “falei para nunca mais dizer esta palavra” e, na tradução, isso perde o sentido.

  • Aos 26:45, o roteiro conseguiu replicar uma passagem bem legal do livro, que é quando Klaus está lendo um livro entendiante e acaba se vendo, como fazemos quando estamos desconcentrados, lendo a mesma frase de novo e de novo. No livro, esta narração de Lemony Snicket aparece duplicada, e nós acabamos, de fato, lendo a frase de novo. Na série, Lemony proclama a frase duas vezes seguidas.

Clique aqui para ver as referências dos episódios 3 e 4, A Sala dos Répteis

    • Agradecimentos ao Andy Roosevelt, a Valesca Giuriati e ao Allan Felipe pelas observações!
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