"Chained to the Rhythm" é uma das críticas sociais menos hipócritas do mundo pop

wokka
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Uma das ideias de senso comum mais enraizadas na mente das pessoas é o conceito de que, para criticar algo ou alguém sobre determinado aspecto, você deve ter “moral” para isso, ou seja, você não pode apontar um determinado erro/defeito sendo que você mesmo também o possui, o pratica ou o apresenta. Geralmente, quem faz isso leva o rótulo de “hipócrita”, já que não teria essa “moral” para fazer tal crítica.

No entanto, isso se torna problemático quando se trata especificamente de críticas sociais porque, quando se fala em problemas de estrutura social, é bem difícil que alguém não os apresente, mesmo que em pequenas proporções, porque eles são sistemáticos e exercem uma força de coerção enorme. Dessa forma, a pessoa ideal para fazer tal crítica não existiria de acordo com o senso comum, porque, já que estamos todos “contaminados”, ninguém seria habilitado a fazê-la.

Só que isso gera dois problemas: em primeiro lugar, pessoas que não se consideram aptas a criticar determinados problemas e acabam permanecendo quietas, o que gera um silêncio total e leva à alienação. Em segundo, pessoas que se consideram “críticos ideais”, supostamente livres desses erros, se vendo como os únicos com o direito de apontá-los.

Trazendo o assunto finalmente à cultura pop, uma coisa que ficou na minha cabeça desde o lançamento de “Chained to the Rhythm”, novo single de Katy Perry, foi que a todo momento a californiana (que canta, nessa faixa, sobre a alienação do povo americano frente a alguns problemas de estrutura social do país) se inclui na letra, dizendo coisas como “nós vivemos em uma bolha”, “nós não vemos o problema”, “será que somos loucos?”, “será que somos surdos?”.

Agora, com o lançamento do vídeo, essa auto-inclusão fica ainda mais evidente: no clipe, Katy é uma alienada, como todos os outros e, bem aos poucos, vai acordando quanto à sua realidade. No entanto, apesar de acordada, ela não tem sucesso em alertar aqueles que a cercam sobre quão problemática é a situação de todos eles e, sozinha, não consegue causar nenhum tipo de mudança naquele cenário social. No final, vemos Katy ainda presa ao sistema e descontente com isso.

Essa auto-inclusão é, na verdade, o contrário de hipócrita: Katy critica um mundo colorido e doce justamente como são a maioria de seus vídeos. Katy critica as redes sociais que ela própria tanto usa. Katy critica a cultura dos likes e do excesso de emojis sendo que, em sua última turnê, ela mesma tinha versões reais e gigantes das carinhas da internet em cima do seu palco. Katy critica músicas (e cinema, e toda a cultura pop, em geral) que alienam, sendo que ela própria já fez (e ainda faz) parte desse processo.

Não quero demonizar a cultura pop, porque a amo com todas as forças e acredito que ela possa servir como escapismo sim, e não há nada de errado com isso. O erro acontece quando ela passa a servir apenas para isso. Nos últimos anos, com artistas pop como Rihanna, Beyoncé e Lady Gaga, que passaram a usar sua arte de maneira brilhante para tratar abertamente sobre temas sociais como aceitação de LGBTs, racismo e a questão dos imigrantes nos Estados Unidos, o “pop com propósito”, como Katy chamou sua nova fase, começou a ganhar cada vez mais espaço no cenário cultural.

É interessante que ela tenha se incluído na crítica, porque isso mostra que ela entende que hipócrita não é aquele que apresenta o defeito que até ele mesmo apresenta, mas aquele que se acha acima de críticas, ou até mesmo aquele que acredita que determinado problema não existe, sendo que está bem debaixo do nariz dele.

Muitos vão acusar Katy de “militar por modismo”, sendo que incluir críticas sociais tais como as que ela incluiu em produtos pop não é nada longe de arriscado em um país que, da fato, elegeu o presidente que elegeu. “Militar porque é cool” é uma ideia errônea, que só existe dentro da bolha de alguns fãs do pop.

Reconhecer que nós somos parte dos problemas, sejam eles racismo, machismo, homofobia ou qualquer outra mazela social, é o começo da caminhada para lutarmos contra eles. Ao não se mostrar acima das críticas, expondo que o mundo alienado é um que ela própria ajudou e ajuda a construir, mas tendo ciência e vontade de mudar isso, Katy não soa pretensiosa, não merecendo a reação que anda recebendo na internet com deboches como “#militei”, ou “Militou!” em comentários sobre os seus lançamentos mais recentes. Mas esse tipo de deboche também é parte do processo de alienação e, quem sabe, um dia, Katy consiga ajudar a acordar de vez essas pessoas também.

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Comments

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  • Vitor

    Excelente texto, fatos muito bem reparados. Procurava sites assim, que não somente jogam clipes aos leitores, mas que se aprofundam as interpretações.

  • Pingback: Katy Perry fica entre a cruz e a espada em 'Witness' | Café Radioativo()

  • Leonardo Rodrigues

    Ótimo texto, li muitos artigos/resenhas sobre a musica e o seu contexto, no entanto você trouxe um angulo diferente o que somou muito pra mim. Muito bom.

    (Prova q gostei foi pq tive q logar pra comentar o q quase nunk faço kkkkk)