O culto feminino de Zolita, novo nome do pop alternativo

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“Estou apaixonada pela minha melhor amiga / Somos irmãs ou amantes? / Se as pessoas soubessem que sou o rei e você, minha rainha…”. Estes são alguns dos versos de “Explosion”, uma das faixas que compõem o EP Immaculate Conception, lançado em maio do ano passado pela dona do novo nome do pop alternativo, a americana Zolita.

De ascendência dinamarquesa e alemã, a cantora de 21 anos, nascida Zoë Hoetzel, vem chamando atenção da internet nos últimos meses com suas faixas R&B de temática lésbica e voltada à união entre mulheres. Para seu primeiro EP, a moça, que também estuda cinema na Universidade de Nova York, trabalhou com o produtor ganhador do Grammy Ømen, além de ter dirigido ela mesma o vídeo de seu primeiro single, a já citada “Explosion”, que ela diz ter composto baseada em sua experiência de ter se apaixonado por sua melhor amiga, que não correspondia o sentimento.

O feminismo e a luta contra o patriarcado, por sua vez, são explorados no vídeo de “Holy”, outra faixa do EP, que mostra um tipo de instituição acadêmica onde jovens mulheres aprendem a serem “belas, recatadas e do lar”, até que Zolita incita a rebeldia entre as estudantes e cria um culto feminino para lutar contra o sistema.

“O vídeo é sobre uma garota em uma escola distópica e patriarcal, que acaba liderando uma rebelião ao lado da menina que ela ama,” ela conta sobre o vídeo de “Holy”. “Com o clima político recente, me sinto muito sortuda por ter feito um vídeo que se baseia na ideia de fugir da opressão.”

Criticada quanto ao final do vídeo, onde [ALERTA DE SPOILER!] as amantes protagonistas são punidas sendo enforcadas, Zolita explicou, através de comentários no próprio YouTube, que não é bem assim porque o vídeo ainda ganhará uma continuação. “A cena final do vídeo foi a mais desafiadora de se filmar, para todos os envolvidos. Mas eu sabia que ela era tematicamente crucial porque essa é a história de uma garota que sacrifica tudo que tem pelo que ela acredita. No final, não somente ela está imortalizada, mas também suas ideais. Ela ensina a outras garotas algo que sobrevive a ela, e planta a semente que, no futuro, pode derrubar um sistema injusto.”[FIM DO SPOILER]

A temática queer e o ativismo não ficam só na letra das canções: em seu canal no YouTube e na sua página no Facebook, Zolita se posiciona politicamente frequentemente, tendo criado um vídeo especialmente para seu canal com depoimentos de fãs listando uma série de motivos pelos quais não aceitam Donald Trump como seu presidente.

A americana também não decepciona ao vivo, onde entrega uma performance vocal praticamente idêntica à mostrada em estúdio.

E, claro, como não podia deixar de ser, os fãs brasileiros já conseguiram se fazer notar pela cantora, a ponto de ela, que ainda está no inicinho da carreira, já ter incluído o Brasil em um vídeo de perguntas e respostas, dizendo que adoraria visitar o país (a partir de 1:56).

Zolita deu entrevistas aos sites AfterEllen e PopDust falando sobre seu estilo musical, sexualidade e sobre a representatividade LGBT, em geral:

Como você se define como artista?
Minha arte é como um pacote. Cresci tocando guitarra estilo bluegrass. Depois estudei fotografia no Ensino Médio. Agora eu curso cinema na New York University, então também me interessei muito por isso. Depois, acabei me interessando por música de novo. Então acabo combinando todos esses elementos para criar esse pacote.

Como você equilibra estudo e música?
Isso se tornou um pouco difícil. Eu não durmo muito, na verdade. É difícil. Esse semestre especialmente porque estou cursando aulas de educação genéricas ao invés de aulas de cinema, e elas geralmente exigem bem mais leitura e trabalho. Mas eu não desistiria nunca, eu realmente gosto da universidade.

De onde vem essa sua raiz no bluegrass?
Quando eu tinha cerca de seis ou sete anos, meu pai começou a me ensinar violão e eu comecei a participar de competições, existem até alguns vídeos virais de eu tocando mais nova no YouTube, mas quando fiz 13 anos e virei adolescente, tudo que eu queria era fazer música pop. Bluegrass não era cool naquela época. Me apaixonei novamente por ele recentemente.

Quando você começou a se interessar por produções inspiradas no R&B?
Meu gosto musical varia demais, mas sempre amei R&B. O produtor com o qual estou trabalhando me viu em uma apresentação na festa da semana de moda da Galore Magazine no outono passado e me deu o cartão dele, e foi assim que tudo começou. É bem legal trabalhar com ele, porque escrevo minhas músicas com o violão, e o estilo delas é meio folk, básico, e então ele insere um clima mais R&B nelas. Eu não consigo definir esse gênero que criamos juntos. Mas soa bem legal.

Como foi a experiência de trabalhar com Ømen?
Tem sido super incrível. Ele faz tantas coisas. Ele é meu mentor. Ele tem sido bastante meu mentor. Especialmente com o lançamento do EP, ele sabia exatamente o que dizer. Ele tem muita experiência, o que foi muito útil. No estúdio também, ele contribuía com ad-libs e pequenas coisas que não eram parte das músicas originalmente, coisas que eu nem pensaria. É bem incrível.

Seu primeiro EP, Immaculate Conception, será lançado em breve, você pode nos contar um pouco sobre como ele foi criado?
Antes das músicas desse EP eu realmente só escrevia música pop. É mais fácil escrever músicas de uma perspectiva mais observadora do que músicas pessoais, e eu não sentia ter autoridade para escrever sobre amor enquanto ele não acontecesse para mim. Então “Explosion” foi o começo de todas as músicas que estão relacionadas entre si no EP. E, bem, eu me apaixonei pela minha melhor amiga, que não correspondeu o sentimento, e foi assim que aconteceu. Escrever essas músicas foi uma forma extremamente catártica de lidar com isso. Amor não-correspondido é uma experiência universal, com a qual muitas pessoas podem se identificar através da música, eu acredito.

Por que é importante para você se identificar como uma artista queer? Como a visibilidade de artistas já conhecidos da comunidade influenciaram você a se assumir?
Eu nunca senti exatamente a necessidade de me rotular, porque as qualidades que me atraem em uma pessoa são a energia, a paixão e o talento dela, não tem nada a ver com o gênero dela. Mas acho que é ótimo estar vivendo nessa época de agora, em Nova York, onde isso meio que se tornou o normal. E eu acho que mais importante do que a visibilidade de artistas queer é a visibilidade da arte com temática queer, em geral. A cultura pop precisa de representações mais honestas das pessoas LGBT e suas experiências – não o esteriótipo que é apresentado constantemente.

Alguma parte disso é uma estratégia de marketing? Não que tenha se tornado “moda” ser gay ou lésbica, mas essa ideia “livre de gênero”, “sou queer e faço música queer”; quanto disso é algo que você realmente incorpora e acha incrível e libertador de expressar e quanto disso é só “ah, é isso que funciona hoje em dia”?
Se tem uma coisa que eu não quero, é que minha música seja definida por isso. O que eu de fato pensei alguns anos atrás quando comecei a fazer isso… eu pensava dessa forma, e pensei “ah, é meio que da moda agora, e eu posso fazer marketing com isso”, mas sinto que agora, com o vídeo também, não são somente as pessoas queer que podem se identificar, é apenas uma experiência honesta. Eu não quero que as pessoas assistam ao vídeo e vejam “arte queer” só porque ele envolve uma situação de “garota com garota”. As pessoas não olham situações heterossexuais e rotulam de “arte hétero”, entende? Quero que as pessoas assistam ao meu vídeo e vejam uma experiência honesta e humana. E, até agora, pelas reações que observei, acho que ele está sendo visto dessa forma, porque é vulnerável e baseado em uma experiência real da minha vida. Não é espetacularizado ou encenado.

O que vem em seguida?
Abrir shows e definitivamente fazer mais ao vivo. Descobrir como minhas apresentações serão, porque a música é meio soft, diferente da música pop, onde há mais movimentação. Acho que o estilo das performances ao vivo será algo meio ritualístico. E definitivamente mais clipes.


Vou lançar um feitiço em quem votou no Trump

Como você descreveria o tipo de música que você cria, no que se refere a influências e sonoridade?
Eu cresci tocando bluegrass, o que teve uma enorme influência no aspecto de composição das minhas músicas. No momento, escuto muito R&B, e é daí que o aspecto mais sombrio das músicas vem. Meu produtor, Ømen, que trabalhou com pessoas como Beyoncé e Drake, faz trabalhos de hip-hop, em sua maioria, então esse é o tipo de gêneros cruzados que nós fazemos juntos. Gosto de dizer que minha sonoridade é algo como um The Wekeend feminino. É isso que eu tento fazer – sombrio, gótico e sexy.

Sua sexualidade é um grande tema em seu trabalho; de que maneira você deixa isso influenciar sua arte?
Meu objetivo como artista é contar histórias que signifiquem algo para pessoas que se sentem não-representadas. Eu quero fazer músicas para pessoas que não tem algo onde possam se ver, quero que elas sejam capaz de procurar minhas músicas e se encontrarem. Sabe, amor é sempre uma influência enorme para qualquer artista. Acontece que eu me apaixono por mulheres, e faço músicas sobre isso!

Você é influenciada por outros artistas que se identificam como queer e, se sim, quem?
Os artistas que mais me influenciam são geralmente os ambíguos. Eu entendo que as pessoas públicas tem o dever de se rotular, mas também entendo o argumento que eles não precisam fazer isso. Homofobia ainda é obviamente muito real e quando artistas se assumem, dão representatividade à comunidade LGBT. Mas rótulos também podem ser sufocantes. É muito complexo! Seres humanos são complexos e eu realmente espero que um dia cheguemos a um ponto onde rótulos não sejam mais necessários.

Então você não quer se limitar a rótulos queer e coisas do tipo. Como você lida com eles, então?
Eu não quero ser conhecida como “a artista lésbica”. Eu sou uma artista que por acaso faz trabalhos que mostram amor lésbico, que por acaso gosta de mulheres.

A mídia foi acusada de “tornar hétero” o tiroteio de Orlando, deixando de fora a comunidade LGBT. Seus vídeos destacam bastante o amor não-hétero. O quão importante é, para você, falar sobre isso?
Acho que, no momento, o conceito de orgulho é mais importante do que nunca. Sou muito orgulhosa de fazer arte que lide com esse tema. Quando eventos trágicos como o de Orlando acontecem, o pior que podemos fazer é nos silenciar, porque dessa forma deixamos o ódio vencer. As pessoas que perderam suas vidas estavam vivendo com orgulho, elas aceitaram cada parte de si mesmas, e não morreram em vão. Sinto que agora, mais do que nunca, a comunidade LGBT tem o dever de viver ainda mais orgulhosa e de amar com ainda mais intensidade.

Você acha que é um problema que não somente a mídia, mas a cultura pop, em geral, tenha falta de representatividade LGBT? Como podemos mudar a cultura pop para que ela não seja tão hétero?
Definitivamente precisamos de mais representatividade. Esta questão melhorou bastante na cultura indie da qual faço parte, nas na mídia mainstream, ainda não somos bem representados.

Qual foi sua inspiração para o vídeo de “Holy”? Meio que me lembra “As Bruxas de Salém”.
Essa foi, de fato, uma enorme inspiração! Duas das minhas maiores influências temáticas foram As Bruxas de Salém e O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Sempre amei o quão poderoso e feminista é o arquétipo da bruxa. O conceito de uma academia de verdade foi altamente influenciado pelo mundo de O Conto da Aia. A ideia é que as mulheres são enviadas a academias aos 13 anos para serem treinadas e se tornarem mulheres perfeitas. Eu não sei se deu para entender, mas, no vídeo, sou filha dos donos da escola, o que faz o final ainda mais chocante. Tenho páginas e páginas de história… gostaria de transformar Holy em um romance juvenil.

Como foi o processo de filmar o vídeo?
Foi uma experiência incrível. Todas as garotas no vídeo são amigas próximas, e a maioria das jovens que trabalharam comigo também estavam no meu vídeo anterior. Passamos o final de semana juntas em uma escola, dois dias de filmagens, de quatro da manhã até meia noite! Fui muito sortuda de estar cercada por amigas tão talentosas e que acreditam no meu trabalho.

Como outros pessoas reagiram ao vídeo antes que você o revelasse ao público?
Houve um empresário para o qual eu mostrei o vídeo, e ele me disse que era muito estridente, e que as pessoas não gostariam de assistir vídeos artístico-políticos. Na verdade, eu nem sabia o que “estridente” queria dizer, então eu procurei rapidamente por baixo da mesa e li “aquilo que apresenta um ponto de vista controverso de maneira desagradável” e fiquei tipo, “sim, estridente é exatamente o que eu quero!”.

Você admira alguém da comunidade LGBTQA+?
Admiro muito Lady Gaga. Principalmente pelo que ela fez pelos jovens e pela comunidade LGBT. Born This Way mudou muitas vidas! Ela é uma artista incrível e teve um impacto muito positivo na cultura mainstream.

Com informações e entrevista dos sites Pop Dust, Galore Magazine e After Ellen.

Você pode ouvir o EP Immaculate Conception completo pelo Spotify!

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