Ame a própria Deusa: Beyoncé, maternidade negra e afirmação

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Texto escrito pela autora Ynanna Djehuty para o These Waters Run Deep, traduzido e adaptado pelo Café Radioativo. Leia também o original em inglês.

Passei a maior parte do meu final de semana enterrada até o pescoço em pesquisas enquanto lia relatos sobre grávidas nos Estados Unidos e internacionalmente. É bem deprimente ler histórias terríveis de abuso obstetrício e negligência em meio a um sistema de saúde racista, sexista, capitalista e capacitista. Eu leio para me manter informada e também para continuar a me armar com fatos e informações, com o objetivo de encontrar melhores maneiras de chamar atenção à crise que mulheres não-brancas experienciam.

Assisti a performance [de Beyoncé] nessa manhã depois de perceber que ela havia dominado o palco do Grammy na noite de domingo. Imediatamente, lágrimas rolaram e eu chorei por boa parte da apresentação. A graça, a beleza e o poder irradiavam dela de uma maneira tão profunda que foi difícil, inicialmente, expressar com palavras tudo o que de fato me tocou. Os trabalhos que Beyoncé executou depois do seu primeiro parto, como eu comecei a explicar no ano passado, me afetaram de várias formas. Suas imagens e palavras provocantes acionam emoções específicas à experiência da mulher negra. É evidente, para mim, que a jornada de parto dela fez ela se tornar uma mãe poderosa, acordando sua deusa interior e também ativando sua consciência de justiça social.

Houve muitas críticas sobre suas apresentações e vídeos politizados, descritas por alguns como ideias e figuras revolucionárias cômodas demais. No entanto, o trabalho de Beyoncé como mulher negra é importante para mim. Prefiro focar mais nas emoções e mensagens de suas músicas e arte visual do que em criticá-la. Não quer dizer que eu não tenha críticas, mas a internet e a sociedade geralmente não são nada gentis com ela e com muitos outros artistas; eu prefiro oferecer uma abordagem “sim, e além disso…”, especialmente a partir do momento que há tantas imagens, simbolismos e narrativas ricas vindas da arte dela. Um trabalho revolucionário não é feito de apenas um acontecimento ou performance; no entanto, faz parte da revolução ter artistas usando suas plataformas para fazer as pessoas se sentirem desconfortáveis com as doenças sociais para as quais eles chamam atenção. Além disso, penso nos jovens que são expostos a esses artistas, que podem se tornar a porta de entrada deles para trabalhos de justiça social. Seria prejudicial ao meu comprometimento ao processo de respeitar indivíduos não integrar essa expressão de consciência à luta pela libertação de todas as pessoas.

A primeira coisa que eu gostaria de abordar é uma sobre a qual falei muito brevemente quando avaliei o Lemonade e os elementos espirituais com os quais eu imediatamente me relacionei. Não afirmo conhecer todas as camadas de símbolos e iconografia religiosa que foram incorporados ao álbum visual, mas ainda assim a presença do divino feminino foi sentida. Muitos, incluindo eu mesma, identificam Oxum em Lemonade e na performance dela no Grammy. O negócio é que sentir energia de uma performance não significa que estou confundindo simbolismo com a própria jornada espiritual de Beyoncé; na verdade, os arquétipos entrelaçados ao trabalho dela na noite do Grammy, seja Oxum, a Virgem Maria, Afrodite, Vênus, Inanna ou qualquer outra entidade divina que Beyoncé tenha evocado ao seu público, são múltiplas dimensões da experiência da feminilidade. Ninguém precisa ter se iniciado em nenhuma dessas religiões para entender o que esses arquétipos divinos femininos representam – amor, fertilidade, sensualidade e erotismo.

Arquétipos são temas – ideias inconscientemente e coletivamente geradas, padrões de pensamentos, imagens, etc., que estão universalmente presentes nas mentes dos indivíduos. Para mulheres, temos a donzela, a mãe e a senhora; elas podem ser conceitualizadas como a Rainha, a Mãe, a Sábia e a Amante. É através destes arquétipos que nós nos manifestamos como seres poderosos, criadores e espirituais e humanos eróticos de formas diferentes, como indivíduos. O trabalho de Beyoncé em sua performance e em seus dois últimos álbuns exploram esses temas de feminilidade, convidando os seus espectadores a trilhar essa jornada com ela.

Ela não exemplifica a vida de todas as mulheres, estou bem ciente da falta de representação de diversos tamanhos de corpos e da totalidade da feminilidade e maternidade da mulher negra. Beyoncé, na verdade, fala sobre sua própria vida, com temas comuns e afirmações necessárias à luta por proteger, honrar e respeitar a negritude. Essa representação é importante, particularmente a elevação da mulher negra como deusa, porque geralmente somos retratadas como qualquer coisa, menos poderosas e divinas. Além disso, Beyoncé escolheu incorporar sua sexualidade à apresentação, o que também é importante. Mulheres grávidas às vezes são criticadas por serem mães e ao mesmo tempo ousarem ser sexuais. Ela conseguiu ser poderosa com sua sensualidade, nos mostrando que gravidez e sexualidade não são mutuamente exclusivas; na verdade, é completamente o oposto – sexo e a sexualidade permeiam nossos seres desde o momento da concepção. Nós geralmente esquecemos que nascemos e viemos de algo que é demonizado e tratado como tabu, de forma que não se dê para conversar sobre de uma maneira compreensível.

Na época do meu parto e da minha jornada como mulher, assim como nos meus estudos em produções de rádio e TV na faculdade, fiquei sensível a como a mídia influencia nossas percepções sobre nós mesmas e sobre os estágios de nossas vidas. Gravidez e partos são retratados de maneiras muito dramáticas e imprecisas, demonstrando trabalhos de parto com erros médicos, mulheres parindo fora de controle e submissão completa ao parto medicalizado. Além disso, pessoas não-brancas não tem espaço na mídia e na consciência coletiva, não sendo representadas como famílias saudáveis, gravidezes lindas e ótimos partos. Essa é a imagem que Beyoncé, Tina Knowles e Blue Ivy me passam. É raro ver retratos de diversas gerações de famílias negras, e isso fala muito sobre a força das matriarcas que são tão queridas em nossas famílias, como nossas mães e avós. Enquanto que os problemas sociais que afetam as pessoas não-brancas em todos os aspectos de suas vidas são perigosos, especialmente se tratando de saúde em geral e saúde da mãe e do bebê, lutamos para vermos nossas vidas sendo celebradas. ´

Não há celebração suficiente da maternidade negra; ao invés disso, somos lembradas de que nossas taxas de mortalidade infantil e maternal são terríveis, que nossas famílias são destruídas pela criminalização de pessoas não-brancas, e que podemos apenas nos ver como “Rainhas do Bolsa Família”. A performance inspiradora de Beyoncé, assim como seu ensaio fotográfico de grávida, é importante para mim. Não estou dizendo que a forma como nossas famílias existem é vergonhosa, mas estou dizendo que temos o direito de existir através de uma variedade de realidades, tanto na tela, quando na vida real. Continuo atenta ao fato de que há muito trabalho a ser feito em nossas comunidades, mas fico tocada de ver uma mulher negra grávida celebrar e compartilhar a capacidade dela de carregar e sustentar vidas. Beyoncé também me lembra que riqueza para pessoas não-brancas não significa nada quando se trata desses resultados do curso da vida – mulheres ricas não-brancas sofrem dos mesmos resultados em seus partos, independentemente de suas finanças e várias opções de cuidados maternos, devido ao estresse do racismo.

Percebo que é revolucionário para pessoas não-brancas dar à luz em um mundo que está tentando ativamente executar um genocídio de nosso povo. Precisamos de imagens como a de Beyoncé para ajudar na narrativa que estamos criando para nosso presente e futuro – um que consiga alcançar e proteger nossa felicidade, ousando sonhar com libertação e ver nós mesmos na mídia que consumimos como seres inteiramente multidimensionais. Outro motivo pelo qual o álbum Lemonade e a performance da noite do Grammy são tão profundos é a incomparável poesia de Warsan Shire costurada às imagens e às letras das músicas. O livro Teaching My Mother How to Give Birth e o texto “for women who are difficult to love”, de autoria dela, contém partes das palavras que Beyoncé recita, que passam uma mensagem de força, decepções, obstinação, feminilidade e poder. “Você se lembra de quando nasceu? Você é grato pelos quadris que se alargaram, o veludo profundo da sua mãe e da mãe dela e da mãe dela?,” ela perguntou. É significativo que Warsan Shire seja uma poeta e escritora somali nascida no Quênia, que usa seu trabalho para documentar narrativas de jornadas e trauma. As palavras permitem que Beyoncé compartilhe sua própria dor do aborto, chegada à maturidade, desilusões e ser ela mesma de uma maneira verdadeira, ao mesmo tempo vaga e específica. A poesia é uma forma de tocar as profundezas do nosso subconsciente e evocar sentimentos através de palavras. O visual e a poesia foram o que me fez chorar.

Raramente, em nossa sociedade, vemos o nascimento de uma criança e o poder de uma mulher grávida celebrados. A violência experienciada por pessoas que dão à luz em suas jornadas de parto são horríveis, assim como o fato de que mulheres grávidas são mais vulneráveis à violência justamente durante sua gestação. Beyoncé chama atenção para a necessidade que temos de ver as mulheres, particularmente as negras, de maneira digna e reverencial. Precisamos de mais retratos de famílias negras e de que parir pessoas negras são se trata só de desespero, mas também de glória; espero que outras pessoas tragam essas imagens e não condenem Beyoncé por não ser capaz de capturar toda experiência que não foi representada. Ainda há muito trabalho a ser feito. Uma performance não vai resolver tudo, mas me recuso a não reconhecer o aspecto positivo disso. Acredito que corpos que dão à luz são o mais perto de Deus que podemos chegar. O trabalho dela nos pede gentil e firmemente que amemos à própria Deusa e, especificamente, mulheres negras, em todas as suas dimensões.

Agradecimentos à Ynanna pela permissão da tradução e publicação. Conheça o blog dela, que é “uma jornada multimídia sobre as vidas e lutas das mulheres afro-descendentes” clicando aqui.

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  • Pingback: Ame a própria Deusa: Beyoncé, maternidade negra e afirmação – Viraw()

  • Monique de Araújo

    Olá. As deusas e os arquétipos que você citou são mitos masculinos, que colocam a mulher na posição de Outro inessencial. Entretanto, penso que Beyoncé recriou a simbologia desses mitos ao performar com mulheres ajoelhas perante ela, ao invés de homens, e assim conseguiu se transcender através da personagem.