15 anos após Halle Berry fazer história no Oscar, atrizes negras continuam sendo injustiçadas

Halle Berry
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A publicação abaixo foi traduzida e adaptada da matéria ’15 Years After Halle Berry’s Historic Oscar Win, Black Actresses Remain Afterthoughts’ da Complex. Leia o texto original em inglês.

No romance de estreia de Ralph Ellison lançado em 1952, Homem Invisível, a cor da pele muitas vezes dava invisibilidade ao protagonista negro. Mais de 60 anos após o lançamento deste clássico, a mesma negligência rotineira estende-se a diversas áreas da sociedade – especialmente de Hollywood. E quando se trata das mais altas honrarias, a história tornou as mulheres negras virtualmente invisíveis. Assim como citamos em alguns de nossos artigos anteriores a situação atual racista no GRAMMYs.

Em uma noite de março em 2002, uma chama de esperança e mudança começou a aflorar…

Halle Berry fez história no 74º The Academy Awards Oscar. A atriz tornou-se a primeira mulher negra a ganhar o Oscar de ‘Melhor Atriz’ por interpretar uma mãe solteira, Leticia Musgrove, em A Última Ceia de Marc Forster. Na mesma noite, Denzel Washington ganhou o prêmio de ‘Melhor Ator’ por seu trabalho em Dia de Treinamento, marcando a primeira vez em que dois artistas negros se classificaram como os melhores prêmios de atuação. Ampliando ainda mais a magnitude da noite, Sidney Poitier, o primeiro negro a ganhar um Oscar, recebeu um prêmio honorário que comemorou sua carreira.

Após esses episódios, outros homens negros levaram para casa o prêmio de ‘Melhor Ator’ (Jamie Foxx, em 2005 e Forest Whitaker, em 2007). Halle Berry se destaca como a única mulher negra que ganhou o prêmio de ‘Melhor Atriz’, há 15 anos. Isto evidencia a invisibilidade histórica das mulheres negras em Hollywood: mesmo sendo o centro das atenções e subindo no palco, elas permanecem como sombras do primeiro lugar.

“Este momento é muito maior do que eu”, disse Berry se debulhando em lágrimas de alegria naquela noite no Teatro Kodak, em Los Angeles. Este momento é para Dorothy Dandridge, Lena Horne, Diahann Carroll. É para as mulheres que estão ao meu lado: Jada Pinkett, Angela Bassett, Vivica Fox. E é para cada mulher de cor sem nome, sem rosto, que agora tem uma chance porque a porta esta noite foi aberta. – disse Halle Berry em seu discurso emocionante.

O dilúvio de emoção de Berry veio do trauma emocional contundente de correr para aquela porta fechada ao longo de sua carreira. Ela vinha se igualando a tradição “Hattie McDaniel”, que iniciou em 1939, quando ela se tornou a primeira artista negra nomeada e a ganhar um Oscar. A tradição “Hattie McDaniel”, de Halle, começou com a nomeação dela na mesma categoria de Dorothy Dandridge (que Halle atuou em 1999 no O Brilho de Uma Estrela e ganhou um Emmy e um Globo de Ouro), Carroll, Bassett, Diana Ross, Cicely Tyson e Whoopi Goldberg. Essas que chegaram tão longe e tiveram que acreditar que a segunda colocação era o máximo que uma atriz negra poderia alcançar. Entretanto, veio da esperança de que seu avanço seria o catalisador para a mudança. Mas, infelizmente, um momento de poucos minutos não é o suficiente para reverter um legado de racismo e machismo. De acordo com Bassett, esse foi um dos motivos pelos quais ela negou o papel oferecido posteriormente para Halle Berry.

“Eu não ia ser uma prostituta no filme”, ​​disse ela ao Entertainment Weekly, em 2002, referindo-se à infame cena interracial. Eu não poderia fazer isso porque é o estereótipo de mulheres negras e sua sexualidade. Filmes são para sempre. Trata-se de colocar algo lá fora, você pode se orgulhar de 10 anos depois. Quer dizer, Meryl Streep ganhou Oscars sem tudo isso. – ela completou.

Embora Bassett tivesse afirmado que estava orgulhosa de Berry, seus problemas com A Última Ceia ecoou pontos duros sobre o filme e o desempenho de Halle Berry. É a idéia de que as mulheres negras têm de diminuir-se jogando o jogo de homens brancos para ganhar reconhecimento em uma indústria supervisionada por eles. Na mesma entrevista, Bassett revelou que ela não trabalhou por um ano e meio depois de sua homenagem no Oscar, de 1994, por interpretar Tina Turner em What’s Love Got to Do with It. Ela chamou isso de lembrança de que “para alguém que se parece com ela”, o talento não é o único fator que influencia sua carreira. Bassett também lembrou de ter saído no meio de uma reunião sobre o filme Armadilha, de 1999. Segundo ela, Sean Connery disse adorava “quão lindas [suas] peles ficariam próxima uma da outra”, pensando que ela faria o papel que Catherine Zeta-Jones representou.

Durante uma entrevista de 2015 com o jornal The Guardian, Halle Berry foi questionada sobre a dificuldade que as mulheres com mais de 40 anos enfrentam para encontrar papéis. Ela revelou uma verdade que provavelmente se aplica à maioria das mulheres negras em Hollywood: nunca foi fácil encontrar papéis. “Eu sempre tive dificuldade em conseguir papéis, sendo de cor, então tenho tantos papéis disponíveis como sempre tive – não há diferença para mim”, disse Berry. “Quando eu tinha 21 anos, era tão difícil quanto agora, quando tenho 48 anos.” Ou seja, sua vitória no Oscar não abriu a porta da oportunidade para ninguém, nem ela.

No ano passado, em meio ao segundo consecutivo em que todos os candidatos nas categorias de atuação eram brancos e a #OscarsSoWhite ficou tão famosa, Berry finalmente abriu sobre a “poeira escondida embaixo do tapete”: o seu momento na história não influenciou em nada a premiação. Um amanhã melhor para mulheres negras em Hollywood era uma fantasia. “Eu acreditava com todas as forças que isso iria incitar a mudança porque essa barreira havia sido quebrada”, disse ela ao Entertainment Tonight. “E sentar-se aqui quase 15 anos mais tarde sabendo que uma outra mulher de cor não atravessou essa porta é de quebrar o coração. É doloroso, porque eu pensei que aquele momento era maior do que eu.”

A queixa de Halle Berry quanto à Hollywood é semelhante a muitas outras. É isso que acontece na nossa sociedade diariamente. “Como cineastas e atores, temos a responsabilidade de dizer a verdade, e os filmes que estão saindo de Hollywood não são verdadeiros”, acrescentou. “E a razão pela qual eles não são verdadeiros nos dias de hoje é porque eles não estão realmente retratando a importância, envolvimento e participação das pessoas de cor em nossa cultura americana”. Mas quando a ordem picante de Hollywood, desde os estúdios até as agências de talento e mídia são esmagadoramente brancos, isso vem como pequena surpresa. Tudo é visto através de uma lente quase exclusivamente branca, como os vazamentos de e-mail da Sony revelaram, leva ao racismo preventivo que mais marginaliza os já marginalizados. No entanto, a resposta aos nomeados ao Oscar do ano passado forçou o assunto a entrar em pauta.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas reconheceu o problema antes do 88º Oscar e jurou corrigi-lo. A lista de nomeados deste ano para o Oscar apresenta artistas negros em cada categoria de atuação, e três dos nomeados a ‘Melhor Imagem’ oferecem olhares variados para a experiência negra. Um deles, Estrelas Além do Tempo, que é baseado na história verdadeira de três mulheres negras cujo trabalho como matemáticas da NASA na década de 1960 foi fundamental (para o Projeto Mercúrio) mas tiveram a existência ignorada e contribuições para a história enterrados por serem mulheres negras.

Estrelas Além do Tempo foi um grande sucesso de bilheteria e refutou qualquer alegação persistente de que apenas certos filmes sobre negros são rentáveis. Mesmo com esse destaque, Jenna Bush Hager e Michael Keaton acidentalmente se referiram ao filme como Hidden Fences (Cercas Ocultas), ao invés de Hidden Figures (Figuras Ocultas, nome de Estrelas Além do Tempo traduzido do inglês) durante o Globo de Ouro. Eles confundiram o título com o da adaptação de August Wilson de Denzel Washington, o filme Fences. Estamos torcendo para que os dois filmes aclamados pela crítica sobre pessoas negras sejam citados durante o Oscars desse ano. Estrelas Além do Tempo destaca a batalha árdua que as mulheres negras têm enfrentado em todas as profissões; Cercas Ocultas são situações como essas, muitas vezes invisíveis, que impedem o seu progresso. Essas situações, não importa o quão proposital, reforça o que era verdade no filme e continua a ser verdade em Hollywood: as mulheres negras não são prioridades, não importa o que elas façam.

Quinze anos depois do auge da carreira de Halle Berry, o 89º Oscar apresenta um cenário semelhante. Denzel Washington é mais uma vez nomeado para ‘Melhor Ator’ e Ruth Negga, uma mulher etíope e irlandesa, é nomeada para ‘Melhor Atriz’ por sua atuação em Loving – um filme sobre um relacionamento interracial. A história se repetirá? A esperança é a última que morre…

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