A Warner e o fraquíssimo sucesso do universo DC nos cinemas

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O universo cinematográfico que envolve as histórias em quadrinhos da editora DC Comics tem sofrido, durante os últimos anos, das mais diversas disfunções. Sendo a mais recente dessas, o ator Ben Affleck abandonando o posto de diretor no filme The Batman, primeiro filme do homem-morcego no universo estendido da editora planejado para o cinema, além dos rumores de que o ator também se encontra a ponto de abandonar por completo o projeto.

Os rumores, aliás, são, atualmente, o que mais preocupa os fãs dos quadrinhos e dos filmes quanto ao futuro de seus super-heróis preferidos nas telonas. Há dias em que informações são dadas como confirmadas, e outros em que são completamente desmentidas; ou alguém envolvido na produção dos filmes dá um depoimento que vai contra tudo aquilo que o público sabe; entre outros variados segmentos de informação conflitantes que têm vindo à tona.

Todavia, o objetivo desse texto é explicar o conturbado passado do estúdio Warner Bros. em relação a adaptar heróis da editora de quadrinhos para o cinema, e como isso nos traz a esse presente inconstante.

A Warner e o fraquíssimo sucesso do universo DC nos cinemas

Tudo começou em 1978, com a primeira adaptação de um herói vindo diretamente das histórias em quadrinhos para o cinema, estamos falando sobre Superman: O Filme. Sob a direção de Richard Donner (Os Goonies, Máquina Mortífera e Os Fantasmas Contra Atacam) e com um elenco estelar que incluía Christopher Reeve, Marlon Brando e Gene Hackman, o filme foi um sucesso absoluto, tanto comercial quanto de crítica. Garantindo as três sequências que ainda estavam por vir.

Logo após as aventuras extremamente bem-sucedidas de Richard Donner, a Warner decidiu apostar mais uma vez no universo DC, dando a Tim Burton o cargo de diretor no filme Batman, primeiro longa-metragem sobre o super-herói, de 1989. Novamente, o filme foi um sucesso tanto nas vendas de ingressos quanto entre os críticos de cinema, tendo ganhado, inclusive, um Oscar na categoria “Melhor Direção de Arte”. O que fomentou a produção de mais três filmes sobre justiceiro de Gotham City, Batman: O Retorno, Batman: Eternamente e Batman e Robin; sendo o último um fracasso nas bilheterias.

Dessa forma, tendo em vista o fato de que a série de filmes inspirada no homem-morcego começou a render uma pequena margem de lucro, a Warner Bros. optou por dar um fim a produção de filmes de super-heróis. Porém, não sem antes tentar algo diferente, mas nos mesmos padrões.

Em 1996, iniciou-se a produção de um novo filme do Super-Homem. Comandando a nova empreitada estava, mais uma vez, Tim Burton (como diretor do filme), auxiliado pelo produtor John Peters e pelo roteirista Kevin Smith. O roteiro de Kevin Smith era inspirado na HQ Morte e Retorno do Super-Homem, no entanto, Burton e o produtor odiaram a fidelidade do roteiro para com os quadrinhos e o reescreveram do zero, afastando Kevin Smith do projeto. No novo roteiro, o herói mais famoso de todos os tempos não voava, tinha poderes elétricos e usava um uniforme na cor preta. O ator escolhido para interpretar o papel principal era Nicolas Cage, que contaria com a atriz Sandra Bullock como Louis Lane e com o cantor Bob Dylan no papel de Jor-El (pai de Kal-El, o Superman). O projeto foi cancelado em 1998, quando a Warner o tirou das mãos de Tim Burton.

Até que, em 2003, Christopher Nolan (A Origem, Interestelar e Memento), é contratado para dirigir um novo filme sobre o Batman. Com ajuda de David Goyer, este escreve o roteiro de Batman Begins. Inspirado pelas histórias Batman: Ano Um e Batman: O Longo Dia Das Bruxas, o diretor prometia um alter ego de Bruce Wayne com tons mais sombrios e realistas. Fã dos filmes sobre o Superman feitos por Richard Donner, Nolan também via como necessidade um elenco de peso para o seu filme, por isso, temos as presenças de Morgan Freeman, Gary Oldman, Liam Neeson etc. Batman Begins conquistou os corações do público e da crítica, tornando-se um dos filmes mais bem-sucedidos sobre o homem-morcego e abrindo um precedente para uma nova trilogia.

Durante o intervalo de tempo entre a produção e o lançamento de Batman Begins, a ideia de mais um filme sobre o Superman ganhou força. Em 2004, é anunciada a contratação de Bryan Singer (X-men 1 e 2) como diretor do novo filme sobre o homem de aço. Ao invés de dar prosseguimento aos devaneios de Tim Burton, Singer decidiu criar um roteiro próprio para o seu filme. Superman: O Retorno é uma sequência aos antigos filmes sobre o herói, em especial Superman IV: Em Busca da Paz, de 1987, e trata sobre um período de cinco anos em que Kal-El viaja ao seu planeta natal para tratar sobre questões pessoais e sobre a sua ausência na Terra. O filme foi extremamente bem recebido pela crítica, contudo, falhou em alcançar as expectativas comerciais do estúdio, devido aos gastos exagerados envolvidos na produção.

Mais adiante, em 2008, é lançado o segundo filme da chamada “trilogia Nolan”, Batman: O Cavaleiro das Trevas. Tendo sido marcado pela atuação espetacular de Heath Ledger como o vilão Coringa, e pela morte inesperada do mesmo, o filme foi o maior sucesso – até então – do estúdio, tratando-se do universo DC, superando US$ 1 bilhão em lucros no mundo inteiro. Além do sucesso comercial, O Cavaleiro das Trevas também possui uma aprovação de 91% pelos críticos no site Rotten Tomatoes, além de um cálculo de aprovação 82/100 segundo o site Metacritic.

O último filme da tão aclamada trilogia, por sua vez, estreou em 2012. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge conclui a história iniciada por Christopher Nolan e David Goyer, mesmo este não sendo mais roteirista do filme. Agora, Anne Hathaway, Tom Hardy e Marion Cotillard unem-se ao elenco para contar a história de “morte” e superação do herói mais querido do cinema. O Cavaleiro das Trevas Ressurge conseguiu superar seu antecessor em bilheterias, arrecadando US$ 1,08 bilhão, sendo reconhecido como a décima quarta maior bilheteria da história. O que o último filme da franquia não conseguiu, por outro lado, foi o clamor tanto do público como da crítica, tal qual O Cavaleiro das Trevas havia feito.

Antes que a produção efetiva de O Cavaleiro das Trevas Ressurge começasse, David Goyer contou para Christopher Nolan algumas ideais suas quanto a um reinício da franquia Superman. Nolan gostou tanto das ideias do colega que as levou até os altos executivos da Warner Bros., resultando na contratação de David Goyer como roteirista de O Homem de Aço, mais uma tentativa de emplacar o alienígena invencível no cinema. Robert Zemeckis, Guillermo Del Toro e Ben Affleck foram considerados, mas, em agosto de 2010, Zack Snyder foi contratado como diretor do filme. Em O Homem de Aço, a pegada realista e sombria dos filmes anteriores do Batman continuaria – Christopher Nolan se tornou produtor do filme – , contudo, passou a existir a ideia de um universo estendido da DC Comics nas grandes telas. Caso o filme gerasse um bom retorno, já estavam inclusos nele easter-eggs (segredos) sobre o futuro da Detective Comics nos cinemas, como os nomes das indústrias Wayne e de Lex Luthor. Lançado em 2013, o filme foi um sucesso de bilheteria, arrecadando R$ 668 milhões no mundo todo, ainda que sob críticas polarizadas.

Após a estreia do filme, foi anunciado que Zack Snyder dirigiria e produziria uma sequência e um filme da Liga da Justiça, com o apoio de David Goyer. Durante painel na Comic-Con São Francisco, o diretor afirmou que traria Batman e Superman para o próximo filme, baseando-se na história em quadrinhos O Cavaleiro das Trevas. Foram escolhidos, ainda em 2013, Ben Affleck e Gal Gadot para os papéis de Bruce Wayne e Mulher-Maravilha, respectivamente.

Apesar de uma produção problemática, atrasos, reparos no roteiro e diversos problemas durante as gravações, Batman vs. Superman: A Origem da Justiça estreou em 24 de março de 2016. Um ano e meio após os acontecimentos de O Homem de Aço, Batman se encontra extremamente receoso quanto aos poderes do Superman, devido aos inúmeros estragos sofridos por Metrópolis (cidade natal do herói super-forte), e procura meios para contê-lo, caso seja necessário. Em seu final de semana de abertura, o filme tornou-se a segunda maior abertura da Warner Bros. e a quarta maior do mundo, com US$ 422,5 milhões. Contudo, um novo recorde também foi batido, o de maior queda de sexta-feira à domingo para um filme de super-heróis na história, com um declínio de 58%. Daí em diante, foi ladeira abaixo: em seu segundo final de semana, BvS enfrentou uma épica queda de bilheteria, com um declínio de 81,2% comparado ao final de semana de estreia. Muitos atribuem a rejeição do público às críticas, que foram, em sua maioria, extremamente negativas. Os pontos de maior descontento foram o roteiro confuso e as cenas de ação exageradas. Batman vs. Superman teve um lucro total de US$ 873,2 milhões, decepcionando o estúdio, que esperava, pelo porte dos dois personagens, retorno acima de 1 bilhão de dólares.

O fracasso retumbante de Batman vs. Superman fez as colunas do universo cinematográfico da DC tremerem. Em julho de 2016, o quadrinista Geoff Johns foi encarregado, pela Warner, de supervisionar todos os filmes sobre o universo DC, como produtor executivo. Johns já era conhecido pelos fãs de quadrinhos por seu ótimo trabalho com diversos super-heróis (como Superman, Lanterna Verde e Flash) nos quadrinhos da editora e também por sua visão mais otimista, divertida e relaxada destes. A adição do roteirista à equipe de produção dos filmes mostra a vontade do estúdio de alterar o tom que havia sido escolhido para o universo. Se antes tínhamos um clima sério e soturno, a partir de agora, veríamos algo diferente e que “melhor se encaixa” no padrão atual de filmes sobre super-heróis.

Em seguida, vítima dessa mudança inesperada, Esquadrão Suicida foi lançado em agosto de 2016. Mesmo envolvido em diversas polêmicas, entre elas a de conceder ao ator Jared Leto o papel de Coringa, o filme agradou bastante nas bilheterias, arrecadando quase o mesmo que Batman vs. Superman: A Origem da Justiça e tendo custado bem menos. A principal polêmica envolvendo o filme sobre um esquadrão de vilões do universo DC reunido à força para combater um mal maior, foi a mudança abrupta de tom. Sendo concebido como algo mais obscuro, ao tratar sobre temas delicados como o relacionamento abusivo entre Coringa e Arlequina, o que chegou aos cinemas foi uma grande comédia aventuresca e de um exagero de cores psicodélico. Enfrentando diversas regravações para mudar cenas, cortes de roteiro e uma edição brusca que tentou costurar tudo isso em uma única obra, o filme foi massacrado pela crítica. Mas, foi um sucesso comercial e agradou ao estúdio.

O que vemos hoje é o reverberar de toda essa mudança. Quando Ben Affleck aceitou fazer parte desse universo, a história era outra. Extremamente incomodado com a recepção do público e da crítica de BvS, pressionado pelo estúdio para trabalhar mais rápido na produção de The Batman e desiludido com o prejuízo de 75 milhões de dólares de seu último filme, A Lei da Noite, o ator parece não simplesmente não aguentar mais.

Quanto à Warner Bros. e essa dificuldade de estruturar um universo concreto, tendo em vista todo o histórico contado acima, é mais do que claro que o principal problema é a ganância e a pressa do estúdio. A DC Comics tem um leque incrível de personagens, que inclui os mais aclamados de todos os tempos, e boas histórias suficientes para décadas de filmes. Falta, no entanto, paciência, esmero e bons funcionários contratados para lidar com esses personagens no cinema, como acontece na Marvel.

Só resta esperar que o estúdio finalmente ouça os clamores dos fãs e se organize de maneira a balancear as burocracias do mundo executivo e a liberdade para a livre criação artística. Não é sobre ser diferente, mais sério, ou grandiloquente, é sobre contar boas histórias.

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