'13 Reasons Why' e a romantização do suicídio, entenda

13 reasons why
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Falar sobre transtornos mentais é um dos primeiros passos para lidar com eles, e essa conversa pode surgir a partir de eventos retratados por meio da música, da literatura, do cinema ou da TV, como é o caso da série 13 Reasons Why. Na produção da Netflix, um garoto recebe fitas cassete com a voz de sua amiga após ela ter tirado a própria vida. Nestas gravações, Hannah (Katherine Langford) explica todos os motivos que a levaram a tomar tal atitude, apontando cada um dos envolvidos direta ou indiretamente na decisão.

A questão aqui não é a qualidade de 13 Reasons Why ou a importância dos temas retratados nela, que fala de depressão, estupro e uso de drogas para o público jovem de uma maneira nunca antes vista, com cenas gráficas que chocam ao mesmo tempo em que alertam sobre a seriedade dos assuntos, mas sim a forma como isso é desenvolvido. Do mesmo jeito que ignorar a existência de tais problemas pode ser perigoso, tratá-los da maneira errada segue o mesmo caminho.

O fato de a protagonista da história se dar ao trabalho de desenvolver um material cuidadoso contando suas experiências, gravá-lo e pensar em todo um plano de distribuição é problemático pois romantiza o próximo passo a partir daquilo tudo: o suicídio. Uma consequência tão séria devia ser mostrada de forma mais cuidadosa, ainda que o objetivo inicial seja justamente atentar sobre a gravidade desta que é a causa de 800 mil mortes ao ano no mundo todo.

Um espectador que esteja livre de qualquer transtorno não corre o risco de ser influenciado por 13 Reasons Why, mas o público adolescente por si só é mais impressionável. Adicionando a isso qualquer distúrbio psíquico ou condições que afetem seu humor, raciocínio ou comportamento o resultado pode ser sério. Dar um ar mais poético ao acontecido o transforma também em algo atraente, uma saída para aqueles que estejam nas mesmas condições mostradas.

O envio das fitas com as denúncias de todos os problemas ocorridos e guardados pela protagonista até então soam como um ato heroico, algo a ser replicado, que junto do suicídio transformam a vítima num mártir. A culpa, porém, não cai apenas sobre a série, que neste caso serve de exemplo somente por conta de sua abrangência nos últimos dias, mas é um problema de toda a indústria do entretenimento. Essa romantização do autoflagelo ou do suicídio propriamente dito é repetida diversas vezes. Uma das maiores histórias de amor de todos os tempos, Romeu e Julieta, termina exatamente dessa forma e é propagada como um arquétipo de relacionamento.

Isso também não é motivo para demonizar nenhuma dessas produções, até porque não há um padrão para tratar temáticas tão complexas e que devem, sim, ser mostradas, mas o debate é necessário. Não se pode aceitar qualquer tipo de material sem questionar de onde aquilo vem e qual o seu objetivo, ainda mais quando tal material trata de um tema tão delicado.

Uma das melhores maneiras de evitar que pessoas pré dispostas a problemas emocionais entrem em contato com esse tipo de conteúdo é simplesmente colocar um aviso sobre o que vem a seguir. 13 Reasons Why faz isso no início de cada episódio em que uma cena mais pesada é mostrada, o que já é uma postura bem responsável, apesar dos pesares.

A série aumentou em 100% os pedidos de ajuda enviados por e-mail ao Centro de Valorização da Vida (CVV), uma associação civil sem fins lucrativos que presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio, e isso reforça a necessidade de não ignorar o problema. Entretanto, o alerta continua para a forma como ele é retratado, é necessário muito cuidado.

Mesmo com a aparente mudança de comportamento de alguns personagens ao final do último episódio, as desculpas proferidas ou os pedidos de ajuda feitos, na vida real as coisas são mais complicadas, não há este ato final onde todas as situações se resolvem e todos dirigem tranquilos numa estrada ao som de uma banda legal, infelizmente.

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