Precisamos falar sobre o último episódio de Big Little Lies

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Já foi ao ar a season finale da minissérie Big Little Lies, obra prima da HBO que terminou com uma chuva de revelações e acontecimentos bombásticos jogados na nossa cara. Se você ainda não assistiu ao episódio final saiba que os parágrafos a seguir estão cheios de spoilers.

Logo na primeira cena, com Celeste jogada nua no chão do banheiro após sofrer mais uma agressão de seu marido, fica claro que a situação chegou a um ponto determinante. A personagem interpretada de maneira emocionante por Nicole Kidman vinha tentando abafar os acontecimentos, diminuindo a importância dos abusos sofridos todo esse tempo, num reflexo fiel de mulheres que vivem sob essa condição e que muitas vezes culpam a si mesmas pela violência.

O momento da virada vem apenas com a informação de que o agressor da pequena Amabella é justamente um de seus filhos, numa frase específica do diálogo com Jane (Shailene Woodley), que relaciona o comportamento agressivo de crianças com a herança genética dos pais. A reação da advogada foge do esperado, que seria o confronto e a negação, e só reforça ainda mais a essência da personagem, que compreende a situação a qual as crianças foram expostas e acelera o processo de distanciamento do marido, único culpado pelo ambiente hostil criado dentro do lar da família.


Toda essa imagem projetada da aparente perfeição na casa dos Wright fica bem evidente quando Perry (Alexander Skarsgård) chega sozinho à festa e logo é abordado por duas mulheres, que não escondem o interesse nele e aproveitam a oportunidade sem Celeste por perto. Este cenário exemplifica bem outro motivo comum pelo qual vítimas de violência doméstica hesitam em denunciar a situação: o medo de que não acreditem nelas, afinal, o casamento sempre pareceu tão perfeito e o suposto agressor sempre foi tão educado com todos. É mais uma representação dolorosa mas necessária da condição retratada pela produção.

Desde o primeiro episódio sabemos que o assassinato misterioso acontece na festa, e toda a construção do suspense que leva à reunião do elenco principal na cena do crime é feita de forma extraordinária, lembrando o último capítulo das melhores novelas. O êxito aqui, no entanto, não está na revelação em si. A morte não chega a ser surpreendente, muito pelo contrário, a vítima não só é previsível como também é exatamente quem todos os espectadores gostariam que fosse, mas a surpresa está em toda a situação envolvida ali.

A metáfora utilizada, com a união do grupo de mulheres que deixam de lado todas as diferenças e/ou motivações mesquinhas pelas quais vinham brigando em função de um objetivo maior, é tão poderosa e importante que joga de vez pela janela aquele clima superficial que remetia a Meninas Malvadas no início da série e fixa a imagem adulta escondida nos primeiros episódios e que foi se desenvolvendo depois. Essa união tem início logo que todas percebem por quê estão ali, como a expressão assustada de Jane ao finalmente encarar seu estuprador pela primeira vez desde o ocorrido, sem a menor necessidade de diálogos óbvios, utilizando apenas recursos de direção e edição que já vinham sendo empregados com maestria antes mesmo dessa reta final.

A situação gera cumplicidade entre o grupo, que decide esconder a verdadeira responsável pela morte misteriosa e que, aqui sim, é surpreendente. De todas as protagonistas, Bonnie (Zoë Kravitz) é a que menos teria motivo para matar alguém, mas o impulso tomado pela personagem faz total sentido ao refletirmos que ao mesmo tempo ela também é a qual nós sabemos menos coisas sobre o passado. A cena de violência vista por ela pode ter despertado uma lembrança há muito tempo guardada de outro acontecimento vivido pela personagem e que a série intencionalmente não mostrou, deixando mais para a imaginação do público.


Este mistério, porém, não é o único, a produção deixou outras perguntas sem resposta. O que a mulher do diretor da peça estava tramando? O marido dela confessou quem era a amante? Madeline (Reese Witherspoon) confessou para Ed (Adam Scott) o caso extraconjugal? O casamento deles sobreviveu a isso? O marido de Renata (Laura Dern) e o rapaz do café tinham um caso? São apenas alguns exemplos de questões que devem levar a discussão para além do fim da série.

O êxito de Big Little Lies está na construção da trama. A narrativa é toda bem amarrada e utiliza muito bem o número restrito de episódios para não deixar a sensação de que você está assistindo uma cena desnecessária. Cada diálogo, cada take, cada corte ou locação escolhida não é por acaso. As pistas estão ali, algumas apenas para confundir, mas ainda assim essenciais para o desenvolvimento do suspense. Numa crescente de qualidade, com literalmente um episódio melhor que o outro, o clímax final satisfaz e entrega a excelência prometida ao reunir um elenco tão bom, que merecidamente deve fazer a limpa no próximo Emmy.

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