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As lendas urbanas e os causos da Floripa Misteriosa

A cidade de Florianópolis é nacionalmente conhecida pelas suas belas praias, festas e festivais que viram as noites e pela deliciosa gastronomia baseada nos costumes açorianos. O que provavelmente poucas pessoas saibam é do lado misterioso que Floripa abriga. São inúmeras as lendas e as histórias de pescador que fabulam sobre aparições de lobisomens, bruxas sedutoras que tem como principais alvos os pescadores do Ribeirão da Ilha (parte sul da Ilha de Santa Catarina) e dos fantasmas que ainda assombram os corredores do Palácio Cruz e Sousa, no centro da cidade.

Com o objetivo de recontar e manter viva as diversas histórias misteriosas de Florianópolis, e em ocasião de uma sexta-feira 13, o Floripa Misteriosa nasceu. O show é um passeio guiado pelo Centro de Florianópolis, contando os fatos históricos mais sombrios e os “causos” mais misteriosos da região. Não à toa, o passeio noturno chama-se Floripa Misteriosa – e é conduzido por uma atriz vestida como uma viúva fantasmagórica, que usa termos de época e conta as histórias como se houvessem acontecido com ela mesma, com sua família, seu falecido marido. Olha só:

Passeio noturno pelas ruas da misteriosa Florianópolis

Francisco Dias Velho é conhecido por quem mora em Florianópolis como fundador da cidade – em seus primórdios, quando o atual nome do local ainda nem podia ser cogitado. O bandeirante paulista fundou um povoado que batizou de Nossa Senhora do Desterro. As casas, poucas e humildes, ficavam onde hoje é a Praça XV, coração do Centro de Floripa, próximas à capela de Nossa Senhora do Desterro – onde hoje fica a Catedral Metropolitana. É curioso, ao saber da história, andar pela movimentada Praça, circundada por carros e prédios, e imaginar os bandeirantes circulando por ali, há quase 400 anos. E é um pouco funesto, ao conhecer o final da história, visualizar sua continuação: o navio pirata que aportou na Praia de Fora – onde hoje é a avenida Beira-mar Norte, um dos endereços mais caros da cidade – e atacou o povoado, matando Dias Velho com um tiro na testa e enterrando seu corpo ao lado da capela. O restante dos habitantes acabou assassinado, violentado ou escravizado, em um verdadeiro banho de sangue que tingiu a terra onde hoje está a Praça.

Você acredita em fantasmas? Então talvez possa sentir um frio na espinha ao pensar nessa história enquanto circula pela Praça à noite. Caminhando mais um pouco, na direção sul (quase onde, na época, antes do aterro, havia mar), bem ao lado da famosa Figueira, chega-se ao espaço onde, algumas décadas mais tarde, quando Desterro já era uma cidade em crescimento, ficava o pelourinho – local onde eram castigados os escravos e criminosos, local onde estes sofriam, sangravam e morriam. Alguns, diz-se, amarravam uma pedra pesada ao próprio corpo e atiravam-se ao mar, preferindo a morte a tanta aflição.

Você acredita em fantasmas? Então talvez possa ouví-los, os antigos escravos, lamentando e tentando se livrar de suas correntes. E há mais nos arredores da Praça: à esquerda de quem sobe na direção da Catedral, está o bonito Palácio Cruz e Sousa, antiga sede do Governo do Estado, hoje um museu. Bonito hoje: o prédio precisou passar por uma restauração completa ao ser tomado por revolucionários durante a Revolução Federalista, em uma batalha que destruiu sua fachada. Até hoje, quem trabalha no museu diz ouvir, à noite, as almas cuja vida terminou naquela noite de luta.

Você acredita em fantasmas? Então talvez veja, mais abaixo na mesma rua, na direção onde ficava o antigo porto, uma linda jovem pálida, em um magnífico vestido de noiva, circulando solitária diante de um prédio rosado onde hoje fica uma grande loja de roupas – protagonista da “mais triste história de amor de Desterro”, a jovem bem nascida morreu ao cair de uma escada no dia de seu casamento, desnorteada ao descobrir a traição do noivo. Dizem que hoje ela aparece àqueles que estão sofrendo uma traição, para alertá-los sobre seus cônjuges infiéis. Mas espere – parece mesmo que ela está ali: diante do prédio, a cabeça baixa em sinal de tristeza, uma vela nas mãos. Ela passa diante do prédio e desaparece em uma esquina, silenciosa e solitária.

A caminhada passa ainda por uma agência bancária que já foi uma alfândega (e que explodiu misteriosamente, matando quatro pessoas) e por uma loja de móveis e eletrônicos que já foi um hotel (onde morreu um famoso flautista italiano, cobiçado pelas moças casadoiras da Ilha ao passar pela cidade para fazer duas apresentações no Teatro Álvaro de Carvalho) e uma casa de tecidos (onde um devastador incêndio deixou um morto, preso no elevador) – relatos falam de sons que são ouvidos nos arredores à noite, como o de uma música tocada em uma flauta e de gritos desesperados vindos de dentro do prédio. Passa pela atual Praça da Alfândega – que já foi uma praia, onde as “fazedoras de anjos” se livraram dos restos mortais de bebês abortados. Você acredita em fantasmas? Então talvez consiga ouvir o choro dessas crianças, cujas vidas terminaram tão cedo. Passa pela Igreja São Francisco, mais humilde que a Catedral, construída para a elite – e dentro das paredes das quais há diversos mortos emparedados. Nos fundos da Igreja, bem, havia um cemitério – hoje coberto pelo comércio. Se acredita em fantasmas, talvez você consiga vê-los circulando pelo local, observando os vivos como se cobrassem as orações que lhes são devidas.

Conforme os organizadores do Floripa Misteriosa grande parte das histórias são verdadeiras. Todo o conteúdo é resultado de uma profunda pesquisa em jornais, publicações autorais e no patrimônio oral de Florianópolis.

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