Depoimentos mostram o que é ser LGBTQ+ no Brasil

21ª Parada LGBTQ+ de São Paulo. / Gabriel Pimentel / Gabrielpimentel.com
21ª Parada LGBTQ+ de São Paulo. / Gabriel Pimentel / Gabrielpimentel.com
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Hoje (28/06) celebra-se o Dia Internacional do Orgulho LGBTQ+. A data recorda a rebelião de grupos formados por gays, lésbicas, drag queens, queers e transgêneros contra a polícia de Manhattan, um evento que ficou conhecido como “Rebelião de Stonewall Inn”, em 28 de junho de 1969. Foi após este conflito que surgiram as primeiras marchas formadas por pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero, além de simpatizantes da causa, que deram estrutura ao movimento que vemos hoje espalhado pelo mundo.

De onde surgiram as marchas LGBTQ+

As primeiras marchas surgiram nas cidades de Chicago, Los Angeles, São Francisco e Nova Iorque, nos EUA, no ano seguinte ao motim em Stonewall Inn. O início dos anos 70 foi um período marcado por grande violência e represália contra as minorias sociais: negros, LGTQS, pobres, usuários de drogas etc.

Estes eventos deram força para o surgimento de movimentos e grupos que militavam a favor da causa LGBTQ+ nos EUA, o que favoreceu o início de passeatas e movimentos em outros países. No Brasil, a primeira marcha do orgulho gay aconteceu no ano de 1995, no Rio de Janeiro, como marco da 17ª Convenção Mundial da ILGA. Em São Paulo, a primeira marcha aconteceu em 1997, com o tema: “Somos muitos, estamos em todas as profissões”

21ª Parada LGBTQ+ de São Paulo. / Gabriel Pimentel / Gabrielpimentel.com

Os eventos citados acima possuem uma característica em comum: todos os seus idealizadores e realizadores não vieram do mainstream. Pelo contrário, eram considerados underground em sua época, com falta de apoio até mesmo entre seus companheiros LGBTQ+. Sem patrocínio de grandes empresas, como acontece hoje, os primeiros atos reivindicavam direitos básicos e o fim das artimanhas de exclusão social.

A comunidade LGBTQ+ foi alvo de inúmeras atitudes discriminatórias por governos e classes profissionais até que direitos básicos fossem garantidos. Haja vista que, no auge da epidemia do HIV, a infecção era chamada de câncer gay; e que, até 1990, a homossexualidade era considerada como um transtorno pela literatura médica mundial e, até 1993, pela associação de psiquiatria americana.

Hoje, as paradas do orgulho LGBTQ+ são alvos de grandes patrocínios, gerando possibilidades de comércio e marketing para inúmeras empresas, vide a massiva presença de corporações de grande porte na última edição da parada de São Paulo. O que ficou conhecido como Pink Money. Porém, algumas vezes, esse apoio à causa, realizado por meio de estratégias de marketing e publicidade, acaba por não refletir a proposta em si. De modo que assistimos situações de discriminação e violência pelas mesmas organizações que declararam seu apoio à causa.

Para celebrar o dia do orgulho LGBTQ+ nós, do Café Radioativo, pedimos aos nossos leitores que enviassem seus depoimentos, nos contando o motivo pelo qual orgulhavam-se. A finalidade disto é celebrar a vida real e cotidiana, comum a maioria da população LGBTQ+ e aplaudir você que todo dia enfrenta as barreiras que ainda existem em nosso país.

Depoimentos em celebração ao Orgulho LGBTQ+ no Brasil
A percepção inicial de que você não é normal

“E sempre muito difícil se aceitar, e a partir daí se aceito pelos outros. Eu não tenho uma grande história de superação, sofri o mesmo que qualquer criança e adolescente gay sofre, o básico diria, ser chamado de bixa, de viado, de bambi e tudo mais. Desde os 8 anos eu já sabia que gostava de meninos, sempre me diziam que eu era gay mas eu nem mesmo sabia o que era, até então eu só sabia que parecia ser algo ruim pela forma como as pessoas diziam, eu não me dizia gay pra ninguém por esse motivo” (P.V.)

A rejeição pela família

“Não é fácil lidar com a homossexualidade. É ainda mais doloroso quando você é de uma família conservadora. No dia em que contei a minha mãe, não fui expulso de casa, não fui agredido, só chorei bastante por ver a decepção no rosto de minha mãe.[…] O mais doloroso de tudo, foi ser rejeitado por meus pais. Minha mãe disse que se soubesse de todo esse sofrimento que lhe causei, me abortaria na primeira oportunidade que teve ( minha vó a obrigou a fazer isso, no início da minha gestação, mas ela resistiu). Meu mundo acabou ali” (J.B.)

O abandono de quem se ama

“[…]Me mudei à 600 km da cidade que eu morava porque meus pais descobriram que eu namorava uma menina. Detalhe: eu me mudei sozinha. Meus pais me mandaram pra cá por acreditarem que seria melhor pra mim, aliás, o intuito deles era que eu não ficasse com garotas, eles conseguiram, pois a garota que eu amo está a 600 km de mim, meu pai apenas me trouxe pra cá, me deixou e no outro dia já voltou, eu tive que me adaptar a tudo, a todos, vim para o interior e as pessoas são mais mente fechada, então sofri MUITO preconceito, não por ter beijado uma garota na frente das pessoas, mas pelo simples fato de saberem quem eu sou, nos primeiros 2 meses eu tomava antidepressivos, eu quase me suicidei mas quando tava com os comprimidos na mão a minha namoradas me ligou dizendo o quanto me amava. Eu não aguento mais ficar aqui, eu só queria poder deitar no colo da minha mãe, comer a comidinha dela, viver com ela sabe? Viver a minha vida.” (L.S.)

A dor de não ser compreendido 

“[…]Comecei me mutilar, só viva trancado no quarto achando que a morte seria a melhor solução, daí comecei procura ajuda na escola chamei minha professora para conversa, desabafei com ela, ela me caminhou para o psicólogo passei andar 4 meses, parei de mutilar pelos conselhos que ela me dava. Nos últimos dias a psicóloga chamou minha mãe para conversar, eu não sabia” (Syllas)

A esperança e a reconciliação com a família

“Quando fui descoberto […] Minha mãe foi mais calma e falou um coisa que nunca vou esquecer: Eu te amo filho e nunca vou virar as costas para você. Não sei o que doeu mais, se foi atitude descontrolada de meu pai chorando querendo me matar nos murros ou a cara da minha mãe triste e abatida falando que mesmo eu sendo assim ela me amava e nunca me largaria! Sei que isso foi difícil para todos da minha família, mas sou grato por ter minha família. Hoje em dia eles me respeitam da maneira que sou, já até morei na casa da minha mãe com o meu ex-marido. Depois de um tempo morei com meu pai, que com o tempo viu que o mais importante não era aquilo que sou ou o que faço e SIM O RESPEITO E AMOR QUE TEMOS.” (P.U.)

A importância da representatividade

“O cinema salvou a minha vida, juntamente aos meus amigos que demonstraram um lindo apoio e hoje não vivo sem eles! O cinema me mostrou por inúmeras obras (como Moonlight, Beleza Americana, Beira Mar, entre outros), que não importa o quanto se tenha economicamente ou em status social, mas se sua felicidade não for o foco principal, tudo desmoronará.” (G.M.)

Informação salva vidas

“De uns meses pra cá eu me informei mais, passei a ter amizades com pessoas LGBT e percebi que era um mundo totalmente diferente do que me era apresentado, com isso fui capaz de me aceitar, me assumi para os meus pais e foi menos pior do que eu imaginei e estou muito feliz. Aprendi a ser feliz comigo mesmo, e quer saber ?? Se soubesse tinha feito antes. Agora sim eu comecei a viver e estou na melhor fase da minha vida. DEUS ABENÇOE AS GAY.” (C.G.)

A beleza de descobrir-se

“Ser gay pra mim tem sido uma aventura de auto descoberta. Eu tentei mudar isso de todas as formas, era assustador pra mim no começo, eu fui rejeitado pela família, alguns amigos, pessoas na rua olhavam com aquele peso do julgamento, mas hoje eu aprendi que não há nada de errado comigo, e sim que há algo de errado com eles. Nenhum hematoma deixado por meu pai no auge de sua ignorância, me fez desistir de quem eu sou. Eu me apaixonei por um garoto, alguém que me fez entender de uma vez por todas “que amor não tem gênero”. Foi amando ele que eu aprendi a me aceitar, aprendi a ser livre de verdade. Eu sei que eu sou perfeito do jeito que sou, que não há nada de errado comigo e que eu mereço ser feliz tanto quanto qualquer pessoa. Eu tenho orgulho de ser gay. Você é perfeito do jeito que é, não há nada de errado com você, busque apoio nas pessoas que tem amem de verdade e tudo vai ficar bem, não vai ser fácil, mas vai ficar bem. Essa é minha história de orgulho. Eu me orgulho de quem sou.” (F.S.)

Foto: Gabriel Pimentel. Gabrielpimentel.com.

O que é ser LGBTQ?

“O que é ser LGBTQ? Bom no meu caso é ser lésbica assumida desde os 17 anos, ouvir que é só uma fase, ser obrigada a ter reuniões com Pastor Evangélico para tirar isso da minha cabeça. Ser LGBTQ é depois de 8 anos sua mãe ainda não te aceitar e dizer que você é uma decepção na vida dela. É você namorar uma bisexual e seus amigos acharem que ela está te traindo o tempo todo por seu Bi. É ter que dá um jeito de namorar escondido porque a família da sua namorada é evangélica e acham que é coisa do demônio. Acima de tudo ser LGBTQ é passar por muitas dificuldades e crer que as coisas podem melhorar, é acreditar que o amor pode sim mudar o mundo, é ter paciência mesmo quando não se tem mais força. É ter páginas como essa que nos dá vontade de ligar e saber que tem outras pessoas passando pelo mesmo e por vezes por situações piores.” (L.L.)

Uma experiência de superação

“Eu fui uma criança que sempre soube que era diferente e, aos 8 anos, comecei a entrar em uma depressão que durou até os 13. Meu ensino fundamental realmente foi “fundamental” para mim, na qual comecei a gostar de um garoto hétero e isso durou 8 anos até que ele descobriu e começou a praticar bullying comigo com piadas homofóbicas e, entre essas piadas, estavam inclusos questionamentos como ‘por que você não morre?’; ‘É bichinha e tem que sofrer’. Eu era uma criança isolada, era obcecado por ele e, aos 13 anos, tentei meu primeiro suicídio através do envenenamento. Passei 2 dias internado e, depois do ocorrido, fiquei pior só pelo fato de eu ter tentado. Porém, mesmo com tratamento intensivo de psicólogo e psiquiatra, eu ainda tentei uma segunda vez. A sensação de vazio que você sente na hora não chega perto do remorso restante por tem praticado algo horrível pra você em função do outro. Hoje tenho 17 anos e dou palestras em escolas sobre bullying e LGBTfobia, além de servir como exemplo de superação para jovens que têm medo e receio de se aceitarem. Se assumir aos 13 anos é algo difícil, no entanto difícil mesmo é seguir contra a maré todos os dias e fazer isso com um sorriso no rosto e amor no coração.” (M.C.B.)

A experiência de se transbordar

“Eu tirei força das pessoas que cativei, aprendi com vários mentores de bom coração. Até que um dia acordei, chorei um pouco e deixei uma carta para minha mãe com a minha história, história que até então era omitida em vários pontos. Eu finalmente me senti pronto para sorrir verdadeiramente, para ajudar as outras pessoas de verdade, mostrar quem eu sou sem receio. Nessa onda, tive a oportunidade de passar uma mensagem muito forte e importante. A mensagem que eu vivi e não sabia: você não está sozinho, seus amigos e sua família estão aqui para te apoiar. E quando tudo parecer ruim, você tem a você mesmo. Seja forte, ajude o próximo e ame. Tenho muito orgulho de ser LGBTI+, tenho orgulho de ser gay. A vida pode ser horrível para pessoas como eu, mas o dia que as coisas começam a se encaixar tudo ganha cores.” (R.Y.)

Todos esses relatos enviados a nós refletem de forma geral a história da grande maioria dos LGBTQ+ e nos serve como inspiração, identificação, acolhida e pertencimento. Queremos mostrar com essas histórias, de pessoas comuns, que você não é invisível, sobretudo em meio a grande massa.  Você é importante e sexualidade é linda! Não se envergonhe! Ame-se, Descubra-se, Orgulhe-se!

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Do Freud ao Pop. Paulista radicado em São Paulo. 23 invernos de vida. Dizem que sou de Leão, mas o quanto disso importa quando Beyoncé é a minha religião. Amém Beysus! Psicólogo apaixonado por Cultura Pop. Viciado por livros e séries.