Falling In Reverse: uma banda furiosa e sem medo de mudar

Falling in Reverse
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Antes de tudo, é preciso dizer: o Falling In Reverse não é uma banda para quem se apega ao gênero musical. Sabe aquele fã que fica bravo se seu artista favorito experimenta demais de um álbum para o outro; se muda um pouco de estilo; se soa diferente no novo single…? Bem, o Falling In Reverse não é para essas pessoas – porque mudar é o que a banda mais faz, de propósito e com gosto.

Falling In Reverse

Isso porque – e me desculpe se você adora especialmente algum outro integrante da banda – o grupo é basicamente uma extensão do vocalista, o polêmico (“polêmico” é um adjetivo clichê no mundo do rock, mas ele é mesmo) Ronnie Radke: desde os primórdios da banda, Radke é desses que escancara nas letras das músicas seus pensamentos, sentimentos, segredos, intimidade. E a sonoridade das canções segue seus humores: o som do Falling In Reverse já foi definido como post-hardcore, metalcore, hard-rock, pop-punk, electropop, emo – e talvez seja mesmo um pouco disso tudo, de acordo com o mood com que Radke acordou no dia em que foi para o estúdio gravar. Ele, aliás, é o único integrante que está na banda desde o começo (embora Jacky Vincent, Derek Jones e Ryan Seaman tenham batido recordes de permanência na banda) – e a maioria dos ex-integrantes saiu, bem, também por decisão do vocalista.

A bagunça começa ainda em 2008: Radke se envolveu em uma briga em Las Vegas, que resultou na morte de Michael Cook, um jovem de 18 anos. O cantor não foi quem puxou o gatilho, mas, por estar no meio da briga, foi condenado a cinco anos em liberdade condicional – e, por não cumprir os termos dessa condicional, acabou na cadeia por dois anos. Na época, ele já era vocalista de uma banda, a Escape The Fate (que já havia lançado um primeiro disco, Dying Is Your Latest Fashion), que, ao ver o cantor ir parar atrás das grades, o substituiu por Craig Mabbitt, ex-vocalista da Blessthefall. Radke saiu da cadeia no final de 2010, começando com Mabbitt e seus ex-colegas de banda uma briga que durou anos – e cheio de composições a respeito disso, da cadeia, de ter sido injustamente preso, de seus problemas com drogas, de seu tempo na rehab, do relacionamento conturbado com a família. Digamos que ele nunca foi o genro dos sonhos de seus pais. Certa vez, o cantor afirmou, sobre os temas de suas canções e sobre ser quase exageradamente sincero nas letras: “Eu não vou mentir e escrever uma canção sobre como eu amo alguém. A maioria das minhas músicas fala sobre coisas pelas quais eu realmente passei.”

Ronnie Radke

The Drug In Me Is You, primeiro trabalho oficial do Falling In Reverse, saiu em 2011, surpreendendo ao conseguir alcançar a 19ª posição no ranking geral da Billboard (além da segunda colocação na lista de Hard Rock Albums, terceira em Alternative Albums e Rock Albums, e quarta em Independent Albums). Radke escreveu todas as faixas do álbum enquanto estava na prisão, e definiu o material como “um disco de rompimento, mas com uma banda, e não com uma garota”. Sobre o título, ele afirmou: “Nós escolhemos esse nome porque… Basicamente sou eu, me olhando no espelho, dizendo: ‘Eu sou meu pior inimigo. Eu sou quem mais me causa danos – muito mais do que qualquer outra pessoa pode causar.‘” Meio post-hardcore, meio pop-punk, The Drug In Me Is You foi eleito pela revista Guitar World como o 21º melhor disco de 2011, em uma lista com 50 trabalhos; e recebeu elogios por seus “refrões viciantes”. Apesar das letras pesadas, os clipes dos singles The Drug In Me Is You, I’m Not a Vampire e Good Girls, Bad Guys estabeleceram um estilo que se tornou marca do Falling In Reverse: vídeos altamente cômicos e teatrais, que absolutamente não se levam a sério. Até mesmo Jeffree Star participa do clipe de I’m Not a Vampire, que simula, com estereótipos escrachados, uma rehab para celebridades. (o primeiro single, Raised By Wolves, é mais sóbrio, com imagens de apresentações ao vivo)

O segundo disco da banda, Fashionably Late, saiu dois anos depois, em 2013 – e as mudanças começaram. Radke já havia afirmado no Twitter: “O último álbum foi tão vingativo e amargo, então as pessoas estão se perguntando sobre o que eu vou cantar agora. Mas nosso novo trabalho está a milhas de distância do anterior.” Quando o primeiro single, Alone, saiu, a reação dos fãs foi quase um susto: Ronnie Radke estava fazendo… Rap? Pois é: fã do gênero desde sempre, o cantor resolveu se arriscar (mais tarde, ele até mesmo gravaria um trabalho solo totalmente dedicado ao estilo). “Meu pai me criou ouvindo metal, mas meu primeiro amor foi o hip-hop”, disse o cantor em entrevista. “Quando eu ouvi The Chronic, do Dr. Dre, eu me apaixonei. Eu nem sabia de que diabos eles estavam falando, mas a batida me pegou. Quando nós adicionamos elementos de hip-hop ao disco, eu mesmo estava pensando: ‘Nós deveríamos fazer isso? É loucura! Será que as pessoas vão gostar disso?'” A reação inicial, de público e crítica, foi de estranhamento e rejeição – não bastava o rap, havia elementos eletrônicos nas músicas, que chegavam a soar meio pop… Houve quem elogiasse a “mistura de metalcore, pop, rap e dubstep” do álbum, dizendo que a banda merecia nota máxima em originalidade e versatilidade, além de considerar boa a habilidade de Radke como rapper; enquanto outros definiram o disco como “uma bagunça”. A revista Kerrang! aparentemente resumiu o sentimento dúbio despertado por Fashionably Late: “Estamos tentando decidir se o novo álbum do Falling In Reverse é genial ou uma droga – para ser honestos, ainda não temos certeza”, escreveu a publicação. A revista brincou que o disco havia “quebrado” seu sistema de notas, já que nem a nota 1 de 5 e nem a nota 5 de 5 “fariam justiça ao material”. Fashionably Late também sofreu com o cancelamento de uma turnê do Falling In Reverse, cujas datas foram suspensas pelo nascimento da filha de Radke (com sua então noiva – mas o relacionamento não durou muito tempo). Mas, de modo geral, canções como Rollling Stone, Born To Lead e a própria Fashionably Late, com mais guitarras e um estilo de canto mais rock, foram o suficiente para agradar quem buscava uma continuação de The Drug In Me Is You – e os fãs foram pegando gosto pelo disco: Alone é, hoje, ironicamente, uma das músicas mais populares da banda, e mais pedidas em shows.

No final de 2013, o Falling In Reverse fez um anúncio inesperado: o de uma turnê em parceria com, bem, o Escape The Fate – Radke e Mabbitt se entenderam, e batizaram a turnê, adequadamente, de Bury The Hatchet: algo como “enterre a machadinha”, supostamente um costume de antigas tribos indígenas norte-americanas, que, ao final de uma guerra, enterravam suas armas em sinal de paz. O Falling In Reverse também fez uma turnê pelos Estados Unidos ao lado do Black Veil Brides, na Black Mass Tour. Na mesma época, Radke já começou a anunciar o próximo registro do Falling In Reverse, dizendo que a sonoridade seria mais parecida com a de The Drug In Me Is You (já que agora ele estava se dedicando ao rap em sua carreira solo): ele chegou a afirmar que o álbum, batizado de Just Like You, seria uma “sequência” para o primeiro disco da banda. Isso é verdade no caso das pesadas God, If You Are Above… e Guillotine IV (The Final Chapter), primeiras canções divulgadas do disco, mas a verdade é que Just Like You reflete bem diversas fases da carreira do Falling In Reverse: a faixa-título é grudenta e divertida, ganhou um clipe hilário, e foi seguida pela igualmente animada Sexy Drug. Músicas como Just Like You, aliás, demonstram uma característica que eu, pessoalmente, gosto demais no canto de Radke: a teatralidade – sabe aquela pessoa que fala, sorri e choraminga nas canções, realmente interpretando o que está sendo dito? Radke é assim – o que dá um belo show, já que uma das grandes forças do Falling In Reverse é sua qualidade ao vivo. Você pode criticar o que quiser em Radke, mas, que ele sabe ser carismático quando quer, isso sabe. A recepção da crítica foi muito mais favorável a este álbum que ao anterior: o Metacritic deu nota 72/100, e a Revolver Magazine foi mais longe, dando 90/100 e afirmando que “fãs de post-hardcore vão adorar o melhor trabalho do Falling In Reverse até agora” – e seguindo com “o grupo deu aos fãs um raro presente: voltar ao som pelo qual eles originalmente se apaixonaram.” Muita gente também afirmou que as composições e letras eram as melhores que Radke já havia feito.

Logo antes da chegada de Coming Home, o atual disco de trabalho da banda, o guitarrista Jacky Vincent anunciou sua saída, para se dedicar a outros projetos – e mais tarde foi confirmada a partida de Ryan Seaman, o baterista, por motivos aparentemente menos amigáveis. A saída de dois dos integrantes mais antigos da banda foi sentida pelos fãs – Seaman, além de tudo, tem uma forte ligação com o Brasil e os fãs brasileiros, e inclusive namora uma brasileira, fato que o faz vir ao país constantemente. Apesar disso, já com novos membros, o Falling In Reverse segue em frente – apoiado, como eu disse, no vocalista Ronnie Radke (que agora assumiu também a guitarra, além de aparecer tocando piano pela primeira vez): Coming Home é, até agora, o disco do Falling In Reverse que ganhou mais elogios e boas notas da crítica. “Não soa como nada que tenhamos feito antes”, Radke já havia afirmado anteriormente. “Há muito sentimento, em vez de apenas um monte de metal. Nós estamos nos desafiando dos jeitos mais loucos possíveis. Acho que normalmente as pessoas pensam que escrever solos ou riffs de guitarra é a parte mais desafiadora, mas o mais difícil é pegar um tema e se ater a ele – não atirar para todo lado, como normalmente fazemos.”

Foram três singles até agora: Loser, Broken e a própria Coming Home, que ganhou clipe. As letras continuam furiosas (é só dar uma olhada em títulos como Fuck You and All Your Friends, I Hate Everyone e Straight To Hell), e as guitarras, pesadas – mas é como se Coming Home fosse, por assim dizer, menos adolescente. O som é mais maduro, extremamente atmosférico – “espacial”, definiram alguns, seguindo a estética do primeiro vídeo divulgado. Houve também quem notasse semelhanças entre o novo som do Falling In Reverse e aquele normalmente adotado pelo Thirty Seconds To Mars. Seja como for, eu pessoalmente vejo Coming Home como o álbum mais acessível da banda até o momento: experimental, sim, mas sem puxar radicalmente para os lados do metal ou do rap – e sem assustar os fãs de rock com batidas eletrônicas ou pop demais. É mais uma mudança nas várias já experimentadas pelo Falling In Reverse, mas não parece ser uma mudança aleatória: é um movimento feito com consciência. É uma evolução.

Falling In Reverse

O grupo já veio duas vezes ao Brasil – e ainda está naquela fase de fazer shows em lugares relativamente pequenos, a preços ridiculamente baixos para uma atração internacional. Então fica a dica: antes que o Falling In Reverse decida trazer a turnê de Coming Home para cá, vá ouvindo os discos da banda. E se preparando para um ótimo show.

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