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Frida Kahlo: 110 anos de arte, cultura e identidade

Olhando para o rosto da imagem acima, posso apostar que reconhece, seja de um acessório, de uma página na internet ou algo assim. Nos últimos tempos, a pintora mexicana Frida Kahlo virou um fenômeno da cultura pop. O ensaio de hoje, data do seu 110º aniversário, tem o pretensioso objetivo de tentar desmitificar – e por que não desromantizar – a figura por trás da imagem de espessas sobrancelhas adornadas por uma guirlanda de flores. Tudo isso por meio da análise bem pessoal deste autor.

Frida Kahlo nasceu em 1907 em um distrito periférico da região metropolitana da Cidade do México, apesar de ela dizer que era de 1910, não por acaso o ano em que eclodiu a Revolução Mexicana (Frida gostava de ser relacionada a tal acontecimento). Aos seis anos de idade, contraiu a poliomelite, que muita gente conhece como paralisia infantil, que deixou sua perna direita menor que a esquerda. Como resultado disso, ela  mancava e andava com apoio, o que para ela era constrangedor, afinal, sofria bullying.

Alguns anos depois, com o apoio de seu pai, foi concluir os estudos numa renomada escola da “cidade grande”. Seu objetivo, até então, era de se tornar médica. Nesse colégio, envolveu-se no quadro cultural e, pouco tempo depois, no movimento estudantil, no qual conheceu seu primeiro namorado, que viria ainda a inspirar sua primeira pintura.

Nikolas Muray Frida Kahlo en vestido azul 1939 Carbro print Ed. 2 de 30 Courtesy the Gelman Collection © Nickolas Muray Photo Archives

Foi no caminho de volta para casa que a artista vivenciou o episódio que mudaria para sempre a história da sua vida: sofreu um acidente de ônibus no qual quebrou costelas, a coluna, ossos de uma das pernas, de um pé e dos ombros, além de uma peça de ferro ter perfurado a região entre o quadril e o útero. Talvez essa lesão em específico tenha contribuído para que ela não pudesse ter filhos, algo que a assombrou por boa parte da vida.

Dito tudo isso, me pergunto: por que é que, apesar de circular livremente, a imagem de Frida nunca está associada à sua deficiência? Principalmente se levarmos em consideração que ser deficiente não é motivo de vergonha… Me questiono. Então, esse foi o viés que escolhi para tratar da minha pintora favorita. Sem contar com um fato que justifica tudo: eu também sou deficiente físico. Por diferentes razões, obviamente, mas sou. Parte considerável pelo meu fascínio pela sua figura se deu por essa busca de relação entre o que ela e eu temos em comum (quanta presunção!).

A imagem “transgressora” da pintora como comunista e bissexual não a resume por completo, mas é a que mais parece ser aprazível para essa nova geração que, imersa num período em que a busca por identidades está a todo vapor, tenta se reconhecer (ou reconhecer seus desejos, anseios, fraquezas e demais adjetivos) no outro. Por isso, tento fugir do lugar-comum ao me referir a tão endeusada persona.

A partir de minha fragmentada experiência de vida, tenho observado que ter uma deficiência leva a pessoa a dois caminhos: um auto-ostracismo destrutivo ou a plena aceitação, apesar de cheia de apesares. Essa segunda me parece ter sido a escolha da artista e é aí que me identifico. Nossas deficiências não nos limita ou define de maneira simplista, mas não é ignorada, porque faz parte de quem somos.

No quesito amoroso, Frida Kahlo se envolveu com algumas pessoas, mas o casamento com o também artista plástico Diego Rivera foi o mais notório deles, certamente pela fama de galanteador do marido ou pelas turbulências. Ela o conheceu quando tinha 21 anos e ele mais de quarenta. A mãe dela jamais aceitou o relacionamento e há quem diga que seu pai o tenha advertido a respeito da saúde, da inteligência e também da “falta de beleza” da filha.

Totalmente influenciada pela imagética em cores vibrantes e tropicais de sua terra, ela baseou-se também nos retratos clássicos mexicanos para criar suas primeiras obras. Ao longo do tempo, viria a ser lembrada pelos seus autorretratos, carregados da mitologia, simbologia e temática locais. Como ela mesma chegou a declarar, gostava de se pintar por se sentir só e por se conhecer o suficiente.

A lesão na região pélvica a impedia de prosseguir com qualquer gestação, certamente pelo mau posicionamento do feto. Embora muito tenha desejado, não pôde dar à luz seu Dieguito. E isso a causava mais dor.  Pode ter nascido daí uma de suas mais belas, inquietantes e famosas obras, Meu nascimento, datada de 1932.

“Mi nacimiento”, 1932. Foto: Reprodução/Internet

Como toda grande obra de arte, as pinturas concluídas por ela deixam mais perguntas que respostas. Ela pode de fato ter usado seu aborto como base, como pode ter representado a morte de sua mãe, seu nascimento ou seu renascimento após tantas provações. Não cabe a mim decidir um símbolo tão rico. Mas que é marcante, é.

Intensa, chegou a ter casos extraconjugais durante a relação com Rivera, inclusive com Leon Trotsky, a quem dedicou um de seus quadros. O que se sabe dos demais vem de poéticas cartas de amor descobertas após sua morte e levadas a leilão. A separação de Diego Rivera foi muito dolorida para ela, que certa vez atribuiu a ele o segundo e mais atroz de seus acidentes: tê-lo conhecido. A fragilizada mulher é simbolizada na obra As duas Fridas, de 1939.

“Las Dos Fridas”, 1939. Reprodução/Internet

A sua solidão pôde ser preenchida com seus animais de estimação, entre os quais cães e macacos-aranha, retratados em algumas das obras. Inclusive, a figura do macaco está presente na mitologia mexicana, mas aqui Frida os retrata de maneira doce e acolhedora, dando a eles um novo significado.

Frida Kahlo, ‘Self-Portrait with Thorn Necklace and Hummingbird’, 1940 | Courtesy of Banco de México Diego Rivera Frida Kahlo Museums Trust, Mexico, D.F. / DACS / Harry Ransom Center, The University of Texas at Austin | “Autorretrato con collar de espinas”, Reprodução/Internet

A interessante mistura entre a imagem tropical asteca com um colar de espinhos pode nos levar à imagem da paixão de Cristo, que nos mostra o martírio, a dor e o sofrimento, no caso, da jovem Frida. Esse sofrimento volta a aparecer mais vezes, mais claramente em outra de suas mais reconhecidas obras, na qual ela volta a mostrar a penalização, dessa vez concretizada nas lágrimas que correm por seu rosto.

“La columna rota”, 1944. Reprodução/Internet

A coluna quebrada de Frida Kahlo causa muita dor e desolação. Não vemos felicidade na imagem, ainda que ela tenha feito escolha de cores vivas. Seu corpo a causa dor e de certa forma ela se pune, veja os espinhos e um tecido manchado de sangue como o santo sudário. Seu corpo é sustentado por essa espécie de viga que segura sua cabeça erguida. Apesar de tudo, Frida abraçou seus flagelos.

Já no fim da vida, teve de enfrentar mais uma grande tristeza: sua perna direita teve de ser amputada na altura do joelho para evitar gangrena. Me parece possível dizer que ela tinha consciência de que em breve partiria. Sua última obra, curiosamente, não falava do quanto sofreu, mas celebrava a vida.

“Viva la vida, sandias”, 1954. Reprodução/Internet

Não há nada mais vivo que a natureza. A dias de seu falecimento, ela incluiu a obra de melancias cortadas ao seu portfólio e assim encerrou, por uma embolia pulmonar, uma das mais brilhantes carreiras no ramo das artes do século XX. A vida, como disse, nos oferece dois únicos caminhos. Ambos têm ida e volta. Aceitar e sofrer as suas dores faz parte do viver. Mas, no final das contas, vale a pena celebrar a vida que viveu. E Frida Kahlo amou, pintou, sofreu, sorriu. Viveu. E é mais que uma figura mitizada para idolatrias simplificadas. Foi ela mesma.

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