'Nascidos da Bruma' questiona os principais clichês do gênero de fantasia e você precisa conhecer esse livro

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Quem é fã de livros de fantasia anda muito bem servido: autores como George R.R. Martin e Patrick Rothfuss enchem as prateleiras com histórias de altíssima qualidade e dão material de sobra para adaptações no formato de séries e filmes. Mas confesso que fazia muito tempo que eu não lia um livro tão rápido quanto li Mistborn: Nascidos da Bruma – O Império Final, primeira parte da trilogia assinada por Brandon Sanderson: devorei 600 páginas em menos de uma semana, em horas de leitura conciliadas com trabalho e universidade – ou seja, basicamente passei todo o meu tempo livre dessa uma semana lendo.

O Império Final foi, para mim, impossível de largar – quando comentei no Twitter e no Facebook que estava lendo a obra, vários amigos me chamaram para perguntar o que eu estava achando da história e, de modo geral, elogiar Sanderson. Ao terminar o livro, fui dar uma olhada nas críticas pela internet. Encontrei muitas, mas muitas mesmo, elogiando a trilogia – porém, para minha surpresa, outras tantas classificando a história como ‘rasa’, ‘clichê’ e ‘previsível’. Oi? Será que essa galera leu o mesmo livro que eu? Eu detesto usar o argumento do “olha, acho que você não entendeu bem a história”, contudo, confesso que, nesse caso, não consegui pensar em outra coisa. Porque O Império Final usa (sim) clichês, mas é construído com o objetivo de, justamente, questiona-los. Inclusive, alguns dos maiores dos livros de fantasia – e vem daí grande parte de sua genialidade. Ah! Este texto contém – leves – spoilers.

A sinopse, pelo menos a brasileira, é péssima: sabe quando você tem a sensação de que quem escreveu a sinopse sequer leu o livro? Pois é – no entanto, nela já podemos encontrar boa parte dos clichês que Sanderson vai (com o perdão da palavra batida) desconstruir ao longo da história: “Certa vez, um herói apareceu para salvar o mundo. Um jovem com uma herança misteriosa, que desafiou corajosamente a escuridão que sufocava a Terra. Ele falhou… Desde então, há mil anos, o mundo é um deserto de cinzas e brumas, governado por um imperador imortal conhecido como Senhor Soberano. Nessa sociedade onde as pessoas são divididas em nobres e skaa – classe social inferior -, Kelsier, um ladrão bastardo, se torna a única pessoa a sobreviver e escapar da prisão brutal do Senhor Soberano, onde ele descobriu ter os poderes alomânticos de um Nascido da Bruma – uma magia misteriosa e proibida. Agora, Kelsier planeja o seu ataque mais ousado: invadir o centro do palácio para descobrir o segredo do poder do Senhor Soberano e destruí-lo.” Eu sei: I see clichês all the time. Mas é na maneira como questiona cada um desses clichês que a obra de Sanderson ganha força.

Um exemplo: Vin, a outra protagonista da história (ela e Kelsier se alternam no ponto de vista a partir do qual vemos a história se desenrolar), ao precisar se infiltrar entre os Nobres, começa a perceber que eles não são todos iguais – não são todos os carrascos insensíveis que ela costumava imaginar. Muitos deles, por sua vez, sequer imaginam como seja um skaa – foram ensinados desde crianças que seus escravos são uma raça inferior, então são, no mais puro significado da palavra, ignorantes a respeito do quanto eles podem sentir, pensar ou sofrer. Muito desse contraste é demonstrado por meio do questionador e espirituoso Elend Venture (que, ao que tudo indica, deve ganhar um protagonismo maior nos próximos livros), herdeiro da família mais rica e importante de Luthadel, cidade onde a maior parte da trama se desenrola – contraste que destrói em grande parte o clichê “ricos malvados versus pobres virtuosos” encontrado na maioria dos livros do gênero.

Outro exemplo: o Senhor Soberano, em vez de ser apenas uma presença distante e onipotente, ao estilo do Sauron de O Senhor dos Anéis, ganha humanidade ao ser apresentado, aos poucos, através das páginas de um diário, escrito na época em que ele ainda era um herói desconhecido tentando salvar o mundo das ditas Profundezas. E nos faz questionar: O que acontece quando o herói da história finalmente alcança seu objetivo e “salva o mundo”? O que ele faz com esse mundo, agora que o tem nas mãos? Como evitar que ele mesmo se torne o próximo tirano? Poderia Kelsier se transformar em um novo Senhor Soberano?

Arte criada por uma fã para o vilão Senhor Soberano.
Fonte: pinterest.com/Rebeksterz

O sistema de magia criado por Sanderson é uma atração à parte: a alomancia é, de forma bastante resumida, a capacidade de queimar metais dentro do organismo – metais que dão a seu portador, quando queimados, habilidades e poderes específicos. Peltre, por exemplo, melhora as habilidades físicas de quem o queima; estanho aprimora os sentidos; cobre evita que outros alomânticos detectem sua magia; e assim por diante. Os Brumosos são alomânticos que tem a capacidade de queimar apenas um metal, enquanto os Nascidos da Bruma que batizam o livro – como Kelsier e Vin – podem queimar todos eles. Não é apenas o sistema de magia que é simples e genial – é a maneira como Sanderson o apresenta ao leitor: em nenhum momento o escritor pega o leitor pela mão e explica detalhadamente o que está acontecendo – é preciso ir entendendo através da própria história, e, em alguns momentos, de explicações recebidas por Vin, iniciante na prática. Pode parecer um pouco confuso no começo, mas logo o leitor se acostuma – e sem perder tempo com explicações longas e que poderiam se tornar enfadonhas. Isso sem citar a feruquemia e personagens como os kandra, outros tipos de magia bastante originais e surpreendentes.

Outro trunfo de Brandon Sanderson são os personagens: Vin, Han, Brisa, Sazed, Marsh, Fantasma, Trevo, Elend – é impossível não gostar e torcer por eles, cada um com suas particularidades. E o próprio Kelsier se destaca nisso: eu, pessoalmente, tenho uma certa implicância com protagonistas que são “bons demais” em tudo (a única coisa que me incomoda em O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss), e achei que Kelsier ia ser outro a sofrer desse mal. Não podia estar mais errada: Kelsier tem sim habilidades incríveis (e se não fosse assim não seria o lendário Sobrevivente de Hathsin), mas também falhas e um passado que o humanizam – além de uma personalidade que é cativante não só para os outros personagens da história, mas também para o próprio leitor. A galeria de bons personagens de O Império Final é uma das coisas que mais me faz pensar em como o livro daria um filme (ou série) incrível – ou mesmo um sistema de RPG divertidíssimo.

Vin e Kelsier, por Djamila Knopf

Mortes? Ao estilo de George R.R. Martin, Sanderson não tem pena de eliminar personagens que pareciam centrais ou que eram queridos pelo público. Plot twists? São vários – prepare-se especialmente para as últimas 50 páginas do livro. Ganchos para a continuação? Estão lá: especialmente uma certa frase do Senhor Soberano, feita para deixar todo mundo desconfiado. A própria passagem de protagonismo das mãos de Kelsier para as de Vin, arquitetada de forma genial tanto pelo personagem quanto por seu criador, é outra fonte de curiosidade – nos faz pensar no que virá por aí, e já sentir, de antemão, uma certa saudade de Kelsier. Apesar de ser a primeira parte de uma trilogia, O Império Final tem um fecho satisfatório: é um livro com começo, meio e fim. Mas duvido que alguém que leia a primeira parte de Nascidos da Bruma vai querer parar por aí.

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