Sonho Febril: conheça os vampiros de George R.R. Martin

Fevre Dream
Fevre Dream - Ilustração: Reprodução
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Um livro sobre vampiros assinado por George R.R. Martin – é fácil entender por que quem é fã de histórias vampirescas e de As Crônicas de Gelo e Fogo logo fica curioso para ler Sonho Febril. Minha curiosidade, em particular, foi movida pela vontade de saber qual seria, digamos assim, a versão de Martin para estas criaturas – sim, porque, desde Bram Stoker, passando por Anne Rice e a infame Stephenie Meyer, cada escritor, ao longo das décadas, inventou particularidades e características específicas para seus vampiros.

Sonho Febril

Os de Martin não podiam ser mais a cara de Martin: não são mortos-vivos e sequer foram humanos um dia – são, isso sim, uma espécie muito antiga, semelhante aos seres humanos na aparência, mas completamente diferentes na biologia e no funcionamento de seus organismos. Sua velocidade e força, sua aversão ao sol, sua dependência de sangue, são todos características de uma espécie diferente da nossa; uma espécie que, justamente por ser caçada e demonizada pelos humanos, precisou se esconder ao longo dos séculos, disfarçando-se entre as pessoas comuns. É típico de George R.R. Martin criar uma explicação evolutiva, histórica, biológica para seus vampiros, tornando-os de certa forma mais realistas – cuidado já conhecido por quem acompanha As Crônicas de Gelo e Fogo, uma fantasia tão verossímil que parece, paradoxalmente, extremamente realista.

Mas, fora isso, é difícil até lembrar que se está lendo um livro de Martin: o estilo de escrita e narrativa não lembra em quase nada aquele demonstrado na série que inspirou Game of Thrones – e até as mortes (embora sejam várias) parecem menos sangrentas do que aquelas com as quais acabamos nos acostumando. O motivo é claro: Sonho Febril foi escrito em 1982, quatorze anos antes de As Crônicas de Gelo e Fogo, embora só tenha chegado ao Brasil em 2015 – natural que o estilo do autor tenha mudado bastante com o tempo. Outra mudança que chama a atenção é que, aqui, as fronteiras entre o bem e o mal são muito melhor traçadas – em As Crônicas de Gelo e Fogo, não há mocinhos ou bandidos, apenas uma coleção de personagens fascinantes (e de moral muitas vezes duvidosa) lutando por seus próprios interesses.

A história se passa entre 1857 e 1870, abarcando o fim da escravidão nos Estados Unidos e a Guerra Civil Americana; e tem como cenário as margens do rio Mississippi, que corta os Estados Unidos e faz lembrar os livros As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain – as frequentes menções e aparições da cidade de New Orleans também remetem, propositalmente ou não, a Entrevista Com o Vampiro, de Anne Rice, já que Louis, o narrador da história, vivia nas proximidades. Abner Marsh, um capitão falido, vê sua sorte mudar ao ser contatado por Joshua York, um excêntrico milionário que quer investir em sua companhia de vapores, dando a Marsh a oportunidade de construir o maior, mais veloz e mais luxuoso barco do rio, o Fevre Dream. Em troca, Marsh deve apenas evitar fazer perguntas sobre os estranhos hábitos de York – e de seus igualmente estranhos amigos -, como o fato de que ele só sai de sua cabine à noite ou de que prefere beber um estranho licor com gosto de podridão em vez dos caros vinhos e uísques oferecidos a bordo do Fevre Dream. Enquanto parte do livro é narrada sob o ponto de vista de Marsh, há trechos descritos por Sour Billy Tipton, capataz de Damon Julian, um fazendeiro com hábitos tão exóticos quanto os de York. É claro que, em certo ponto, o capitão começa a fazer as perguntas que não deveria fazer – e, quando ambas as narrativas se encontram, presenciamos o embate entre a improvável dupla formada por Marsh e York e os terríveis poderes de Damon Julian.

George R.R. Martin constrói sua trama devagar, de maneira quase sutil no começo, como era comum nos romances de horror dos anos 1980 – mas pode dar uma certa agonia para os leitores de hoje em dia (principalmente em momentos como, por exemplo, quando York inventa para Marsh uma história sobre não ser um vampiro – quem você acha que está enganando, York?). Mas vale a espera. Os personagens, como sempre nas histórias de Martin, são bastante bem construídos: se no começo Joshua York se parece com Lestat, com seu charme, erudição e beleza, logo percebemos que, enquanto a maior estrela das histórias de Anne Rice só está preocupada em aproveitar o que a vida vampírica tem de bom, York é atormentado por uma série de perguntas sem resposta – e motivado por uma espécie de missão pessoal. E, embora Sonho Febril seja uma leitura leve e rápida, ainda tem profundidade suficiente para fazer o leitor viajar, se questionar, refletir sobre conceitos como respeito e amizade – e, por que não, em determinados momentos, sentir até mesmo um pouquinho de medo.

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