'The Story of OJ': Entenda as referências do novo clipe de Jay-Z

the story of oj clipe de jay-z referências
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Like
Like Love Haha Wow Sad Angry
212

O clipe de Jay Z para The Story of O.J. é uma grande aula de história sobre a negritude nos Estados Unidos. O vídeo animado utiliza cartoons no estilo vintage para explorar os velhos estereótipos que envolvem o homem negro e como isso ainda prevalece nos dias atuais. Outros temas também são abordados, como cultura, riqueza de gerações e como transformar sucesso em estabilidade em um sistema planejado contra os negros.

O refrão da música aborda as dificuldades políticas dos negros nos Estados Unidos – do colorismo que ainda existe em sociedades contemporâneas até as classificações de pessoas escravizadas centenas de anos atrás. “Preto claro, preto escuro, preto artificial, preto de verdade. Preto rico, preto pobre, preto doméstico, preto do campo. Continua preto, continua preto.” – Jay canta. Possivelmente amenizando a diferença entre o racismo histórico do uso da palavra “nigga” e sua reapropriação moderna nos guetos americanos. Ele utiliza The Story Of O.J. para falar sobre os estereótipos que sua comunidade enfrenta e oferece conselhos e soluções para isso.

No vídeo, dirigido pelo próprio rapper em parceria com Mark Romanek, aparecem diversas caricaturas essencialmente racialmente provocantes, referências ao blackface, estereótipos para quebrar o silêncio sobre temas como a escravidão, terapia e dinheiro. Aqui vão alguns dos mais importantes detalhes presentes no vídeo.

LOONEY TUNES

Esse aqui é bem claro. A sequência de títulos em preto-e-branco e o personagem chamado Jaybo que surge da marca circular padrão Looney Tunes. Amado como é até hoje, o desenho retratava a época em que foi exibido, geralmente, reforçando estereótipos racistas de minorias étnicas. Alguns exemplos disso são o personagem mexicano Ligeirinho ou o “Tio Tom/Pai Thomas”, um conto sobre um negro escravizado que, atualmente, se tornou uma alegoria para a submissão por motivos raciais. Na reexibição do programa, os episódios tiveram que ser extremamente editados para que pudessem ser avaliados como adequados para a audiência contemporânea.

No vídeo de Jay Z, Jaybo anda pela rua enquanto o céu fica repleto de anjos negros com auréolas. Isso também referencia o curta-metragem musical (de 1937) produzido pela Warner Bros chamado Clean Pastures. Nele, os negros eram caracterizados como viciados em jogatina e bebuns, com características exageradas, e também como anjos preguiçosos que sobrevoavam o céu para recrutar pessoas para o paraíso.

Lembrando apenas que a Warner Bros não era o único estúdio que perpetuava a opressão de pessoas negras em suas animações: O Fleisher Studios, por diversas vezes, também incluiu referências racistas em seus curtas, Walt Disney era famoso por ser racista e anti-semita, Walter Lantz (criador do Pica-Pau) explorava o corpo negro como um objeto de lucro.

COONSKIN

The Story Of OJ compartilha de similaridades com o controverso Coonskin, filme dirigido por Ralph Bakshi em 1975. Tanto o clipe quanto o filme utilizam da estética ‘blaxploitation’, o gênero cinematográfico dos anos 70 que tem como proposta explorar os negros através de seus estereótipos, como suas formas de fazer com que o público se sinta curioso e preste atenção. O filme de Ralph tinha a intenção de subverter a opinião pública com ofensas e palavrões, o que, claro, gerou opiniões divididas – apesar de ter se tornado “cult” nos anos seguintes. A apropriação desses estereótipos para expor o racismo inato a eles é perceptível no clipe de Jay-Z, embora em menor grau.

DUMBO

O personagem Jaybo parece ser uma brincadeira com o personagem de Walt Disney, Dumbo. Além de parecer com a estrela do filme de 1941, Jaybo pode fazer referência a um personagem do livro The Story of Little Black Sambo – uma história didática britânica que causou bastante polêmica no decorrer do século XX pelo modo como seus personagens negros eram ilustrados.

D.U.M.B.O também é uma região do Brooklyn, embaixo da Ponte de Manhatan, que foi tomado por lofts e galerias de artes de luxo. Há pouco tempo, essa era uma parte abandonada do bairro, e Jay Z cita na música: “Eu poderia ter comprado algo no Dumbo quando ele ainda não era Dumbo por 2 milhões. O mesmo lugar hoje vale 25 milhões. Adivinhem como eu me sinto hoje em dia? Um burro”.

O filme clássico dos estúdios Disney, todavia, retrata negros como corvos que falam com um “linguajar afro-americano” extremamente exagerado e são retratados como pobres e ignorantes. Como se tudo isso já não fosse o bastante, o líder do bando de corvos tem o nome de Jim Crow – uma referência mais do que clara às leis segregacionistas (de mesmo nome) existentes na América do século XIX. Em certo ponto do vídeo, o personagem de Jay Z torna-se, literalmente, Dumbo e voa em direção à câmera, enquanto canta sobre seu sucesso financeiro. Um tapa na cara dos racistas.

SCRUB ME MAMA WITH A BOOGIE BEAT

Nessa cena, Jaybo ataca o racismo comendo um pedaço enorme de melancia e cuspindo caroços, enquanto continua a rimar tranquilamente. Aqui, Jay Z vai de encontro ao tema do alimento que é histórica e ridiculamente associado a negros. Este curta foi produzido em 1941 por Walter Lantz e é extremamente racista ao representar os negros. A referência vem de um curta chamado Scrub Me Mamma With a Boogie Beat, feito em 1941, por Walter Lantz, que retrata a população negra de maneira extremamente negativa. O vídeo também conta com uma canção sobre uma ‘lavadeira’ do Harlem – que também aparece no clipe, vestida como uma empregada doméstica e esfregando roupas em uma bacia.

FOUR WOMEN

Durante as cenas dentro do esfumaçado clube burlesco, há um personagem parecido com Nina Simone tocando lindamente o piano. A voz da cantora, extraída da canção Four Women, é recortada e distorcida ao fundo durante toda a música. Sua presença tanto no vídeo quanto na música é proposital: Grande ativista dos direitos civis, Nina Simone e sua música se tornaram um símbolo de resistência e negritude inveterada. Durante sua carreira, ela se recusou a se calar nos meios do entretenimento, fazendo músicas inteligentes e profundas. Four Women explora a história de quatro pessoas que foram afetadas pelo racismo em contos de raiva, prostituição, estupro e escravidão em uma época onde esses assuntos eram, incrivelmente, considerados como tabus.

OLIMPÍADAS DE 1968

Jay Z interpreta diversos estereótipos que buscam oprimi-lo ao longo do vídeo: um homem escravizado colhendo algodão, um traficante de esquina, um militante negro armado e, até mesmo, um membro da Ku Klux Klan. Mas o clipe não contém somente isso, ele também inclui um número enorme de referências àqueles que buscaram empoderar durante a história. O rapper recria o momento famoso das Olimpíadas de 1968, quando os atletas Tommie Smith e John Carlos subiram no pódio e levantaram seus punhos com luvas pretas saudando o movimento dos Panteras Negras. O mais incrível é uma das cenas seguintes, quando três negros estão em um pódio similar, só que, dessa vez, sendo vendidos como escravos, pelados e acorrentados.

O.J. SIMPSON

O.J. Simpson é um ex-jogador de futebol americano que foi acusado de assassinar sua ex-mulher, Nicole Brown. O caso ficou conhecido mundialmente e seu julgamento foi um dos momentos de maior audiência da história da televisão norte-americana, ultrapassando a chegada do homem na lua e o funeral de John F. Kennedy. Durante o julgamento, a parcela negra da população americana ficou ao lado de O.J., enquanto a outra parte estava certa de que ele havia cometido o crime. Ao final, ele foi inocentado, mas, durante o julgamento, há rumores de que O.J. chegou a dizer “Eu não sou negro, eu sou o O.J.!”, o que revoltou parte da população que o apoiava. Essa fala está na música de Jay Z e foi retratada na recente série que conta a história do caso, American Crime Story: The People Vs OJ Simpson de Ryan Murphy.

HUEY P. NEWTON

Huey P. Newton (retratado na imagem acima) foi um ativista revolucionário que co-fundou o movimento dos Panteras Negras, o maior movimento ativista negro da história dos Estados Unidos.

THOMAS SHIPP E ABE SMITH

Esta foto mostra dois homens negros, Thomas Shipp e Abe Smith sendo enforcados por brancos em 1930 no estado de Indiana (EUA). Ela ficou famosa por retratar como o racismo era incentivado naquela época. Jay Z refez a cena, se colocando na forca, para finalizar o clipe. Afinal, o preconceito contra pessoas negras está por todas as partes, não importa o quão bem-sucedido você seja.

O clipe de Jay-Z é sobre ativismo negro e o título “A História de O.J.” é uma metáfora sobre o fato de que quando você começa a ser bem-sucedido, as pessoas podem esquecer que você é negro. O rapper faz questão de voltar às suas origens e mostrar que sente orgulho, e mais do que isso, Jay possui a intenção de focar nessa temática na tentativa de escancarar a situação do negro nos Estados Unidos.

Partes desta matéria traduziram e adaptaram um artigo da revista DAZED: http://www.dazeddigital.com/music/article/36685/1/how-jay-z-s-new-video-subverts-racist-cartoons

Like
Like Love Haha Wow Sad Angry
212

Comments

comments

  • Jeam Vagner

    Obrigado pela matéria, esse clipe e musica já nasceram prontos para virar clássico!

  • Cara vou referenciar o seu blog post num artigo que eu to preparando sobre essa música. Ficou Gênial! A diferença do meu artigo é que vai focar na letra da música. Onde eu identifiquei grandes lições sobre geração de riqueza e investimentos o que é o tema do meu blog! Demais mesmo!