Quando o pop 'farofa' dá espaço a um novo pop

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A música pop internacional está em constante mudança. Já passamos por períodos em que batidas de hip-hop eram a receita do sucesso, em outros momentos as batidas sintetizadas que davam o aval de hit… Mas, e atualmente? Abaixo você confere um artigo que apresenta o momento de transição que o pop atual perpassa. Alguns dos trechos escritos foram traduzidos e adaptados da VOX, clique, leia a original e em inglês.

Quando Kesha entrou em cena, em 2009, como Ke$ha, tudo era sobre sua imagem. Sua sujeira de tinta no seu hit mundial, Tik Tok, sua paleta de cores vibrantes, o $ no nome, os glitters, o álcool… Tudo gritava para ela passar uma imagem de festeira divertida.

Ela parecia não ligar muito para mensagens mais profundas do que álcool e festa. Ela não tentava abrir mentes ou tocar corações. Não evidenciava qualquer desejo por mudar o mundo. Era uma princesa do pop festeira e seu trabalho era parecer que estava se divertindo como se não houvesse o amanhã e fazer música que evidenciasse que nós poderíamos nos comportar dessa maneira também.

Desde então, coisas mudaram para a Kesha. Em um processo aberto em 2014, a cantora acusou o produtor Dr. Luke de ter abusado dela “sexualmente, fisicamente, verbalmente e emocionalmente”, e seu desejo era que seu contato musical com ele terminasse (Dr. Luke nega todas as acusações e o caso ainda está em andamento). Ainda assim, o novo álbum de Kesha, Rainbow, lançado nesse mês, foi feito sem o envolvimento criativo do produtor, mesmo que tenha sido lançado por sua gravadora, Kemosabe, e com sua aprovação. Rainbow não é um álbum festeiro como a antiga Kesha. Embora tenha músicas como Woman e Let ‘em Talk, esse álbum fala sobre sua jornada pessoal e como sua liberdade criativa funciona sem o Dr. Luke.

A cantora não está sozinha neste movimento de transformação de menina festeira popstar para uma mulher com um som consciente. Katy Perry, com seu último álbum Witness, está redirecionando sua carreira de músicas jovens sem preocupações para o que estão chamando de “pop com um propósito“. Miley Cyrus atualmente também está promovendo o lançamento de seu novo álbum, Younger Now, que chega após alguns anos de twerk e polêmicas no pop. Miley afirmou que está tentando se comunicar com os conservadores dos EUA. Em entrevista para a Billboard, a cantora disse que gostaria de ultrapassar seu círculo de fãs “liberais”. Eu não acho que essas pessoas (conservadores) vão me escutar enquanto eu estiver por aí com os mamilos de fora e enfeitados, sabe?

Desde que Lady Gaga anunciou o nome do álbum Joanne, já era esperado de que fosse algo mais pessoal. Lançado em outubro do ano passado, Gaga talvez tenha sido uma das inspirações para esse momento de um pop mais aprofundado. Conhecido como um álbum country, na verdade, o Joanne é de longe o álbum mais pessoal de Lady Gaga. Ela foi outra que deixou a festa de Just Dance e Dance In The Dark de lado para viver um momento de autoconhecimento. O próprio nome de sua tia já carrega um peso mais familiar e íntimo para a cantora. A festa deu lugar para músicas como Million Reasons, que fala sobre uma decepção amorosa, Joanne, que soa como um country nostálgico e Come To Mama, que fala sobre mudança, consciência política e até foi utilizado na campanha a favor de Hilary Clinton. A receptividade pela crítica, de modo geral, foi positiva. Por exemplo, o portal britânico Digital Spy, avaliou: ‘Joanne’ é claramente o disco mais pessoal de Gaga, colocando de lado os personagens sintéticos para algo mais honesto e, bem, humano… A Mother Monster pode estar aposentada por enquanto, mas o brilho musical de Lady Gaga ainda continua.

Selena Gomez que até o último álbum, Revival, estava cantando o pop genérico também mudou. Com os singles Bad Liar e Fetish, Selena deu uma análise complexa e íntima sobre sua saúde mental. Os videoclipes são estudos sobre a psicologia e sua saúde após a internação na clínica de reabilitação. Ela mostrou sua autenticidade nunca revelada anteriormente. Ainda não temos muita informação sobre seu novo álbum, mas, se continuar assim, aquela que é nomeada uma das maiores promessas do pop pode estar seguindo a mesma linha.

2017 não é um bom ano para ser o que os fãs de pop chamam de “farofeiras”. A não ser, claro, que você seja a Rihanna com seu discurso de que não liga pra nada. É possível observar que há um conscientização de que as “farofeiras” precisam fazer uma renovação social e/ou político, se elas quiserem que suas músicas sejam relevantes. E mais importante, e paradoxal, é que esse reformulação deve soar pessoal e autêntico.

Trump influenciando na música

Viver na Era Trump pode fazer a música farofa parecer um produto de mal gosto. Há muitas razões que fazem 2017 parecer um bom momento para se tornar mais sério, e viver em um Estados Unidos dominado por Donald Trump é, provavelmente, o maior deles.

Enquanto a administração de Trump está aterrorizando imigrantes e apoiando a supremacia branca, parece totalmente fora de contexto fazer um clipe dizendo o quanto está bêbado ou com chantilly saindo dos seus peitos. O mundo está mais assustador que nunca. É mesmo a hora certa de festejar?

As Divas do pop citadas acima possuem plataformas enormes que alcançam milhares de pessoas. Então porque não usá-las para enviar uma mensagem positiva ou disseminar ideias que protegem liberdade civis dizendo não aos crimes de ódio? Estou dando um abraço no mundo e dizendo: Hey! Olha! Nós somos legais! Nós te amamos! – Miley disse para a Billboard.

Para a Kesha, por exemplo, lidar com problemas pessoais e de personalidade faz todo o sentido. Ela passou os últimos anos lutando publicamente contra o Dr. Luke. Por isso, criou-se uma necessidade racional para que seu último álbum refletisse alguns problemas internos que estavam ali, prontos para serem revelados. Fez todo sentido que Kesha apresentasse uma música mais triste e profunda. E de acordo com a cantora, esse é tipo de som que ela sempre quis apresentar, mas não era permitida. Eu estava tipo: eu sou divertida mas eu sou muitas outras coisas também – ela lembrou contando sobre seu primeiro álbum. Mas, Luke ficava falando: não, você é divertida. Isso é tudo o que você precisa ser para o seu primeiro álbum. Tik Tok, por exemplo, era muito mais complexa. Eu me lembro dele especificamente dizendo: ‘Faça ficar mais bobo. Faça ficar mais estúpido. Faça ficar mais simples, apenas bobo mesmo’. –  a cantora revelou.

Então, Rainbow nos entrega em primeira mão uma Kesha sem filtro, que realmente gosta de festejar, mas também gosta de cantar baladas tristes que são reais. Isso é o que ela sempre foi e agora pode nos mostrar. Pode nos contar como se sente estranha esperando “retornar para seu povo em uma espaçonave” ou compartilhar como ela está lidando com seu trauma em seu novo álbum.

Por outro lado, Katy descreve o álbum Witness como uma reação ao governo Trump e a sua infância. A realidade é que eu estava pilhada nessas eleições, ela contou ao The New York Times. Eu estava pilhada por um homem que não via uma mulher com igualdade. Eu quis ir a um lugar mais obscuro que eu tenho evitado ir e cavei isso.

Ou seja, estamos vendo Katy Perry como ela realmente é. A pessoa que tinha medo de se mostrar durante tantos anos. Essa pessoa tinha sérios ideais, era politizada e queria dividir com o mundo.

Já Miley é comprometida com a narrativa de que toda a sua mudança de imagem é uma representação de sua mais autêntica personalidade. Eu odeio quando as pessoas não podem se ajustar – disse para a Billboard.

Eu sei exatamente onde eu estou agora. Eu sei o que eu quero que esse álbum seja. A ex-Hannah Montana tem uma história de ativismo político na qual ela, geralmente, separa de sua música. Com o Younger Now, Cyrus está naturalmente alimentando esse ativismo. Um amor radiante é o que é importante para mim, a cantora completa.

Como o LEMONADE contribuiu para esse autêntico pop sério que está na moda

O maior fator que influenciou a autenticidade dos artistas foi muito maior que o Trump, maior do que problemas pessoais e provavelmente a maior popstar dos EUA: Beyoncé.

Quando Beyoncé lançou o LEMONADE, em abril de 2016, o jogo virou para todo mundo. Ao mesmo tempo em que o projeto visual é pessoal, aparentemente contando sobre seu casamento, é também político-social, contando como é ser uma mulher negra nos Estados Unidos. Foi um grande feito na carreira da cantora e também um grande feito para a indústria musical. LEMONADE é um dos melhores álbuns nos últimos 10 anos para a maioria das pessoas. Menos para os jurados do Grammy.

Certamente, os últimos lançamentos de álbuns mais íntimos foram inspirados pelo álbum de Beyoncé. A própria equipe de Kesha chegou a vazar a informação de que ela estaria trabalhando no seu próprio ‘LEMONADE’, durante o processo criativo de Rainbow.

Enquanto isso, o Witness, de Katy Perry, abriu uma discussão sobre sua tentativa de produzir algo tão revolucionário quanto a Beyoncé. Ela tentou fazer seu próprio ‘LEMONADE’, um crítico chegou a comentar. Já Miley, foi totalmente afastada da ideia de Beyoncé, mas isso pode mudar até o álbum Younger Now ser lançado em setembro.

No dia 22 de setembro, Lady Gaga vai lançar um documentário na Netflix narrando sobre sua trajetória. Gaga Five Foot Two vai mostrar a cantora que os fãs já conhecem, mas o mainstream não. Uma diva do pop que chora, fala sobre suas intimidades e não tem problemas em falar sobre sua personalidade mais profunda. O nome com a altura da cantora sugere que a produção seja um raio-x sobre as verdades de sua vida.

Em um mundo ‘pré-LEMONADE’, todos queriam que sua música tivesse um significado pessoal e politico tão impactante e importante que, se alguém ganhasse um Grammy no lugar dele, teria total conhecimento, em seu discurso de ganhador, de que eles não seriam os merecedores do prêmio.

Contramaré

Nas últimas semanas, vimos Demi Lovato lançar uma “farofa” festeira chamada Sorry Not Sorry. A música é totalmente voltada ao público jovem baladeiro. A menina confiante, que tanto lançou músicas sobre autoaceitação resolveu fazer a Rihanna e mostrar que não liga para nada. A música até está fazendo um bom barulho nas paradas, mas em nada contribui para a indústria musical.

O próprio clipe de Demi Lovato é um grito de ela se tornou uma “bad bitch” que controla o que quer e faz festas em casa. Pode não ser tão autêntico quanto suas companheiras de profissão, mas Demi supre a necessidade de uma boa “farofa” em um ano em que só foi servido carne de primeira mão.

Talvez tenha sido apenas o primeiro single, afinal, a cantora já lançou o segundo single Tell Me You Love e anunciou o álbum para dia 29 de setembro. A faixa é uma balada totalmente pessoal e fala sobre sofrer por um amor. Será que o restante vai ser como Sorry Not Sorry ou Tell Me You Love? Na estratégia de lançar as duas músicas como singles pode revelar futuramente de que o álbum é uma mistura, o que Demi sempre fez durante sua carreira.

Taylor Swift não fica fora dessa, a cantora acaba de ter a melhor estreia de sua carreira. O clipe de Look what You Made Me Do é totalmente venenoso e cheio de shades. Embora ela tenha tido a melhor estreia de videoclipe em 24 horas na história do YouTube, a crítica massacrou o lançamento. A música que fala sobre uma nova Taylor deixou o mundo impactado. Diferente de todas as outras, a nova Taylor não parece ser mais pessoal ou consciente. Taylor pode ter uma música boa, mas a mensagem é completamente superficial e vazia. Ou seja, tudo o que não precisávamos neste momento.

A ex-cantora country mostra que era preciso uma renovação. Quando ela cantava músicas voltadas aos conservadores estadunidenses, Taylor parecia ser mais autêntica. Agora ela vestiu um personagem de diva que sempre negou. Já parou pra pensar que ela está fazendo justamente o contrário do proposto? A hipótese é de que o pop bobo de Swift fez este sucesso estrondoso graças a essa transição que ainda não foi feita por completo. No mesmo caso de Sorry Not Sorry, de Demi Lovato, talvez o público estivesse sedento por um pop chiclete.

A transição de imagem deve ser autêntica

As meninas festeiras agora se tornaram sérias, com álbuns autênticos e estão recebendo diferentes opiniões dos críticos.

O Younger Now ainda não foi lançado então é um pouco difícil dizer sobre sua recepção e como o álbum vai soar. Nas reviews de Malibu e Inspired, os single foram taxados de sentimentais demais a fofos, de cru a passionais. De qualquer forma, só saberemos se o rebranding estará completo quando o álbum sair.

O Rainbow, de Kesha, foi admirado pela crítica. A Rolling Stone o chamou de melhor músicas da carreira dela. A crítica vê esse álbum como honesto, pessoal, socialmente consciente e isso significa que a nova persona de Kesha foi bem aceita.

O Witness de Katy, por outro lado, recebeu alguns dos piores reviews de sua carreira. A cantora sabia exatamente o que estava fazendo durante o pré-lançamento do álbum. Ela disse Eu definitivamente não queria escrever uma ‘farofa’ – sobre seu single Chained To The Rhythm. Foi um grande exercício escrever uma música em que ao primeiro momento é uma música divertida, mas quanto mais você se aprofunda nela, mais você vê os diferentes contextos.

O Joanne foi elogiado por causa da mudança musical de Gaga. Os vocais, a produção e seu conteúdo lírico, mas tiveram reações ambivalentes quanto à sua autenticidade. Lady Gaga é, talvez, uma das artistas mais versáteis que temos atualmente. Ela canta pop, jazz, baladas, country e o que precisar. O problema é que quando o artista não estaciona em um estilo musical, ele passa a ser duvidado. A identidade passa a ser algo que não transparece verdade. O artista acaba perdendo sua personalidade e passando uma visão de perdido no meio.

Parece extremamente gratificante, em nosso momento atual, deixar esse pop de farofa para trás. É preciso entender que estamos passando por sérios problemas para apresentar ao mundo uma personalidade com honestidade, autenticidade, com uma consciência social e diversas coisas interessantes para falar. Os casos opostos apresentados acima mostram que essa transição pode ser muito mais difícil do que parece. Se o artista pop não convence de que está passando uma verdade e autenticidade, isso pode soar bem mal, como um oportunismo barato.

É um momento de mudança na música e isso é perceptível. A própria MTV anunciou no VMA deste ano cinco vencedores de uma nova categoria: “Melhor Luta Contra o Sistema“. Não há indicados e um vencedor. Todos os nomeados levam o prêmio para casa. Essa medida provavelmente vai estimular o “pop com propósito” e, daqui pra frente, os clipes com a temática político-social devem continuar crescendo.

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  • Nean

    Concordo sobre a questão de que aconteceu após Lemonade, mas discordo um pouco sobre a questão da Rihanna ser aquela que não se importou com nada. O “ANTI” entrega um conceito mais forte do que os outros álbuns da cantora, e isso já acontece desde 2015, com “American Oxygen”. Óbvio que músicas como “Work” e “BBHMM” são as tais músicas com o tom mais chiclete, mas não consigo achar que “Needed Me” não apresenta uma crítica (mostrando um lado bem mais obscuro da sociedade que nem mesmo Rihanna faz parte, algo não abordado pelas outras cantoras). Enfim, quis dizer que algumas atuam mais de maneira política e íntima e outras menos, o que não significa que aquelas que atuam menos estão totalmente alheias ao novo cenário do pop.