'American Horror Story' prova como a 'cura gay' é enredo de história de terror

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Na segunda temporada de American Horror Story, Asylum, Sarah Paulson interpretou a personagem Lana Winters, uma jornalista investigativa. Na trama, Lana acaba internada no manicômio administrado pela Igreja Católica, em consequência da sua obstinação em investigar os maus tratos sofridos pelos internos na instituição.

AHS – Asylum se ambienta anos 1960 considerado como o período da revolução sexual e que teve influência no campo político e cultural. Muito pelo contrário, naquela década houve uma ascensão do pragmatismo pelas ciências comportamentais, em especial ao Behaviorismo, no campo da psiquiatria e psicologia americana. Também no mesmo período qualquer prática ligada a sexualidade, que não fosse comportamentos heterossexuais e cisgêneros, eram considerados um transtorno mental.

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A rotulagem de doença dada a homossexualidade e aos queers interessou muito ao movimento behaviorista, nos EUA, que ‘criou terapias comportamentais de conversão sexual’. Basicamente, consistia em reforçar comportamentos considerados padrões, ou heterossexuais, e punir e extinguir comportamentos considerados desviantes. O mesmo tipo de terapia foi empregada em outros campos, como no tratamento de antissociais, como mostra o filme Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick.

Em Laranja Mecânica, Alex liderava um grupo de delinquentes que praticavam homicídios, roubos, estupros e depredações. O líder da gangue acaba preso, e serve como cobaia em um experimento para punir qualquer inclinação a comportamentos violentos, por meio de práticas igualmente violentas, o que resultou em um enorme fracasso.

Voltando a American Horror Story, Lana foi internada contra sua vontade e submetida a uma terapia de conversão sexual. A personagem foi drogada em meio a náuseas, forçada a assistir vídeos com estímulos sexuais, a se masturbar diante de imagens de homens nus e a masturbar outro interno do manicômio. O fracasso da terapia foi eminente, deixando apenas os rastros de horror na memória da personagem.

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American Horror Story, que atualmente está em sua sétima temporada, é justamente conhecida pelas críticas sociais e pela utilização da própria realidade para tal fim. O que não é diferente na história da personagem de Sarah Paulson. O terror submetido à personagem teve auge nas décadas de 1960 e 1970, e, por incrível que pareça, ainda acontecem em nossos dias de maneira cruel e espantosa.

Lana Winters teve, o que pode-se dizer, um desfecho positivo na trama, o que não acontece na vida com pessoais reais submetidas a aberrações como terapias de conversão sexual. Terror que pode voltar a assombrar homossexuais no Brasil diante da autorização feita em caráter liminar por um Juiz, nas últimas semanas.

O desserviço desta decisão é ainda pior, uma vez que valida o discurso de ódio e a ignorância sobre a temática. Aliás, a decisão reforça a violência sofrida pela população LGBTQ+ nos diversos níveis da sociedade, a começar pela própria família.

Em Orações Para Bobby (2009) é retratada a história do jovem Bobby, com uma vida usual é considerado um ótimo filho que se vê diante de um inferno ao assumir-se homossexual para família conservadora e cristã. O jovem vê-se obrigado a deixar sua casa, devido a insistência em considerar sua sexualidade pecaminosa e em buscar redenção por isso. Pouco tempo depois Bobby se suicida. O que aconteceu com Bobby é uma realidade que muitos LGBTQ+ vivenciam no mundo, desde a violência sofrida por seus familiares até o suicídio, ou muitas vezes homicídio, em consequência da intolerância.

Como é retratado em O Segredo de Brokeback Mountain (2005), estrelado por Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. A intolerância pode levar a medidas extremas como o homicídio e o suicídio, como também é a roda que faz girar outros tantos instrumentos de violência, como a grande incidência de transtornos psicológicos em LGBTQ+ e a exclusão social.

No que se refere a exclusão social, a série Orange is the New Black tem exemplos aos montes de como a não aceitação por familiares e pela sociedade pode ser cruel as mulheres homossexuais.

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A sétima arte tem inúmeras produções, longas e séries, que servem como panorama sobre a realidade dos LGBTQ+ e que permite que se reflita a respeito de como nós enquanto sociedade contribuímos para exclusão social e violência, questão muito bem abordada pelo ganhador de Oscar por Melhor Filme, Moonlight (2016) que retrata a história de um jovem homossexual negro que vive num bairro periférico do EUA.

Felizmente a mensagem deixada em todas estas produções é que não há cura para o que não é doença e, muito pelo contrário, há um sempre um olhar sobre como a ignorância e o preconceito são cruéis para suas vítimas em qualquer momento da história, em qualquer cultura ou nível econômico.

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Do Freud ao Pop.
Paulista radicado em São Paulo. 23 invernos de vida. Dizem que sou de Leão, mas o quanto disso importa quando Beyoncé é a minha religião. Amém Beysus! Psicólogo apaixonado por Cultura Pop. Viciado por livros e séries.