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Após 20 anos, ‘Butterfly’ se mantém como o trabalho mais memorável de Mariah Carey

A obra-prima de Mariah Carey está para completar vinte anos. Butterfly  é, sem dúvida, o mais renomado dos seus discos. Mas a que podemos creditar tamanho sucesso entre o público e os críticos?

De maneira bem íntima, tento, hoje, trazer uma resposta.

Em 1997, Mariah era, talvez, a descoberta musical daquela década. Até então, tinha tido faixas de todos os discos no topo das paradas e as canções românticas faziam de Carey a única concorrente à altura para Whitney Houston. No entanto, mudanças surgiriam para ressignificar o imaginário popular a respeito da cantora. Já há alguns meses, ela vivia as consequências de uma separação um tanto exaustiva do (ex-) marido, o antigo dono da gravadora Sony Records, Tommy Mottola. Mariah era ‘condicionada’ a cantar incessantemente enquanto vivia fechada numa mansão que chamou certa vez de sing, sing (“cante, cante”, nome também dado a uma prisão de segurança máxima localizada nos arredores de Nova Iorque. Valeu a informação, Kamila Lopes!).

Mariah no tapete vermelho do Video Music Awards de 1997.

O próprio Mottola conta em sua autobiografia que certo dia deixou no criado-mudo da artista um bilhete que remetia à canção Someone Saved My Life Tonight, de Elton John, dizendo “você é uma borboleta e borboletas são livres para voar”, indicando que o relacionamento (que se revelou bastante abusivo) terminava ali.

Certamente, daí nasceu a ideia da borboleta, animal que alça voo após se libertar do casulo estreito. Butterfly nasce da ideia da liberdade para revelar a própria beleza que, às vezes, vem revestida de marcas, cicatrizes e dores prontas para serem superadas. Mariah não deixou de ser romântica, como em suas outras músicas, mas deixava de ser ‘apenas a cantora romântica’ quando começa a trabalhar com nomes do hip-hop como PuffyQ-TipMissy Elliott, além dos iniciantes Bone Thugs-N-Harmony. Esse ‘crossover’ dos artistas pop com o rap não era inédito na carreira dela (tudo começou com a música Fantasy, feita em parceria com Ol’ Dirty Bastard, em 1995), mas MC contribuiria para fazer do hip-pop uma tendência que ainda parece não ter cessado.

A capa do disco “Butterfly”. Divulgação

O disco começa com Honey, a primeira música de trabalho. É uma canção romântica, mas embalada por beats tirados de canções dançantes dos anos 1980. Fazendo-se valer do auge da popularidade dos videoclipes, esse rendeu a Mariah uma nova imagem. Interpretando uma agente secreta, ela se liberta de um cárcere em uma imagem bem mais sexualizada, ‘à la 007’, fugindo de uma ilha porto-riquenha com a ajuda dos amigos rappers, partindo para um cenário paradisíaco onde se entrega a um novo amor.

Butterfly é a segunda e faixa-título do álbum. Composta ao lado do até então (e futuro ex-) parceiro musical Walter Afanasieff, Carey esculpe imagens naturais e belas como a da borboleta e de cavalos galopando livremente pelo campo, num grito de independência. My All e Whenever You Call são as grandes baladas responsáveis pela manutenção da imagem apaixonada da artista. A primeira, com uma sonoridade latina; a segunda, ganha pela virtuosidade.

Outras faixas do disco assumem um caráter quase experimental quando ostentam uma pegada urban e mais interessada em fisgar o público da black musicThe Roof, por exemplo, fala de romance num cenário regado a champanhe e ornado por carícias numa noite de novembro. Essa mesma faixa foi gravada como um ‘freestyle’ tendo como base Shook Ones (Pt. I), de Mobb Deep, surpreendendo a comunidade do hip-hop.

No mesmo mood vai 4th of July, que celebra a vida, a independência e o amor, que também ganha esperanças na sexy e instigante Babydoll. Além disso, a típica canção do apaixonado que não sabe reagir num caso de amor platônico ganha voz na envolvente Breakdown.
Todas essas têm uma batida simples mas pegajosa que contrasta com o lirismo das letras que evidenciam um corpo finalmente celebrado sem mais desculpas.

Uma regravação era esperada, já que Carey fazia isso desde seu terceiro disco. Para a caixa de surpresas que foi Butterfly, a escolha foi mais que certeira: The Beautiful Ones, um dos pontos mais altos do Purple Rain de Prince, que toca na sensualidade que Mariah queria atingir, contando com a ajuda quase dispensável do efervescente Dru Hill.

Por fim, a espinha dorsal do disco está na canção Close My Eyes, marcada pela pessoalidade na composição da intérprete. A forma como ela enxergou o peso da vida aparece explícita, como quando se enxerga na infância a pedir a intercessão de um anjo-da-guarda, por perceber que “cresceu cedo demais”. Mariah, como muitas mulheres, sentiu ainda muito jovem o peso das responsabilidades que a vida nela depositou, pelo divórcio dos pais, pela busca por notoriedade, logo depois em exposição para o mundo, numa exploração incansável de seu talento, que parecia inumano. Todas essas adversidades construíram uma fenda que não permite que, apesar de tanto dinheiro, fama e sucesso, ela desfrute de estabilidade emocional.

Isso também está ligado ao fato de Mariah Carey ter nascido num ambiente familiar marcado pelo racismo. A sensação de deslocamento é evidente em Outside, a última faixa do disco. Tendo declarado publicamente que não se sentia pertencente num mundo de binarismos, a miscigenação na terra da racista e infame ‘one drop rule’ (lei segregacionista que foi usada por alguns estados americanos, onde qualquer pessoa que possui algum grau de ancestralidade não-européia em seu sangue era denotada como ‘não-branca’ e, por isso, proibida de fazer sexo ou casar com brancos) se mostra uma memória dolorosa e uma experiência traumática.

Como a maior parte das grandes obras da cultura pop, Butterfly é um retrato dourado da vulnerabilidade do pássaro enjaulado que canta bonito, mas que, depois de liberto, junta-se aos montes em busca de identidade. É um retrato de uma visão melancólica e elegante da vida de uma diva da modernidade, resumindo tudo que Mariah era e voltaria a ser por toda sua carreira.

CURIOSIDADES

*contribuição de Thiago França

• Assinada por Michael Thompson, a sessão de fotos promocionais do disco levou cerca de 15 horas, depois de excluídas fotos de fotógrafos como Patrick Demarchelier;

• Uma das fotos deletadas pode ser vista na capa da coletânea Greatest Hits, de 2001;

• A fotografia do videoclipe de Butterfly foi inspirada no filme Baby Doll, de 1956, cujo roteiro foi de Tennessee Williams, em que uma jovem se casa com um homem de meia-idade;

• Mariah teve a ideia para o clipe de Honey após uma viagem a Porto Rico, voltando lá para realizá-la;

• Na volta da gravação, teve a inspiração para compor My All (o que justifica sua latinidade), cujo vídeo foi inspirado na obra O Nascimento de Vênus, do renascentista Botticelli;

A obra de arte ‘O Nascimento de Vênus’, de Botticelli.

• Além dos famosos vocais para o remix My All/Stay Awhile, há novos takes de BreakdownThe Roof que nunca foram lançados;

• Skyline Pigeon, música de Elton John, também pode ter servido de inspiração para Butterfly.

*Thiago França é designer, desenhista e se descreve como um entusiasta das artes.

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