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‘Exorcismo’ poderia ser um livro de terror – mas não é

Todo mundo que me viu lendo um livro chamado Exorcismo, perguntava qual era a história e ouvia de volta “é sobre o exorcismo real que inspirou O Exorcista“, respondia algo como “nossa, esse livro deve ser tenso, hein?”. Poderia ser. Mas não é. Exorcismo é tudo menos um livro de terror: é, muito mais, uma grande reportagem, detalhada e pé-no-chão, sobre a suposta possessão demoníaca que inspirou um dos filmes de terror mais célebres da história.

Robbie Mannheim é o nome fictício escolhido para batizar o menino que passou os primeiros meses de 1949 atormentado por algo que a medicina não conseguiu explicar – os nomes de todas as pessoas da família foram alterados, para preservar as identidades de seus correspondentes na vida real (sim, a vítima da possessão foi um menino, não uma garota, como no filme – outra medida tomada para esconder aquele que lhe serviu de inspiração). Robbie, que, ao lado de sua tia Harriet, costumava brincar com um tabuleiro Ouija (sempre ele), começa a ouvir passos em seu quarto, à noite, pouco depois da morte de Harriet. Os passos evoluem para arranhões sob o colchão, batidas que parecem vir das paredes e do assoalho, e, finalmente, mobília e a roupa de cama se movendo sozinhas – até que o próprio Robbie começa a se comportar de modo estranho, tendo acessos violentos, agredindo seus parentes e os padres que tentam ajudá-lo, falando em latim, arranhando a própria pele até escrever nela palavras e mensagens sangrentas.

Sim, o cenário é de filme de terror – mas todo livro que pretenda assustar precisa criar uma atmosfera sombria e convincente, aquela que fez os leitores pausarem a leitura de tempos em tempos e darem uma olhadinha por sobre os ombros, para conferir se estão mesmo sozinhos na sala ou quarto. Mas Exorcismo não se propõe, em momento algum, a fazer isso: as descrições de cenários, pessoas e acontecimentos são secas e metódicas – o autor, Thomas B. Allen, é um jornalista que já publicou livros sobre temas variados, de política internacional a fauna marinha, e usa justamente o estilo jornalístico, direto e impessoal, em sua narração. Em diversos momentos, inclusive, Allen (que, afinal, não presenciou os acontecimentos que se propõe a narrar – e, em determinado momento, se descreve como um agnóstico, deixando claro que seu interesse pelo tema não teve caráter religioso) confronta os relatos conflitantes de diferentes testemunhas: “O padre cambaleou para trás. Os aleixanos apertaram as correias, e o corpo de Robbie arqueou contra elas. A partir dessas contorções vieram os relatos de que ele conseguia curvar o corpo para trás até que a nuca tocasse os pés. Esse tipo de coisa fora registrado em outras possessões, mas não é mencionado no diário de Bishop. Halloran diz que nunca viu isso acontecer.” No final do livro, 14 páginas detalham bibliografia e fontes, explicando de onde Allen extraiu cada dado e cada informação – mesmo as que se contradizem. O autor também faz questão de explicar em detalhes como veio a ter acesso ao diário de Raymond J. Bishop, um dos responsáveis pelo exorcismo, ao lado de William S. Bowdern, este o tal “exorcista” do título do filme.

O Exorcista

Em certos momentos, Exorcismo chega a ser chato – são tantas sessões seguidas de exorcismo, com tão poucas mudanças entre elas, e todas narradas tão detalhadamente, que a vontade é pular dezenas de páginas e chegar logo ao final, para saber se Robbie se livrou ou não de seu tormento. Há também explicações extensas a respeito do funcionamento da Igreja, de sua hierarquia, das tradições da ordem dos jesuítas, dos rituais do catolicismo. E mesmo no fim da obra o ceticismo de Allen não se dobra: as últimas páginas são dedicadas a analisar que outras coisas (distúrbios psicológicos, por exemplo) podem ter, de fato, afligido Robbie.

Se você está procurando um livro de terror, não leia Exorcismo. Agora, se você se interessa por uma história tão real quanto enigmática, analisada e descrita com um olhar atento e saudavelmente cético, Exorcismo pode ser uma leitura fascinante. Thomas B. Allen não procura oferecer uma resposta, e sim dar ao leitor todos os dados necessários para que ele tire as próprias conclusões a respeito da questão central da obra: os estranhos fenômenos que acometeram a família Mannheim no final dos anos 1950 têm uma explicação natural – ou havia lá um algo mais que a ciência ainda não consegue compreender?

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