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Para um fã, reler ‘Harry Potter’ é como voltar para casa

Foi na premiere da última parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte que J.K. Rowling disse a frase que até hoje faz muito potterhead chorar: “Whether you come back by the page or by the big screen, Hogwarts will always be there to welcome you home” – ou seja, em uma tradução meio porca, “quer você volte através das páginas ou da tela do cinema, Hogwarts sempre vai estar lá para lhe receber em casa”. E essa é a sensação que todo fã de Harry Potter tem ao assistir a um dos filmes mais uma vez ou, principalmente, reler um dos livros da série: voltar a lugares tão queridos, rever personagens tão amados, presenciar de novo acontecimentos tão marcantes dá uma sensação de familiaridade semelhante a uma volta ao lar, mesmo – e, ao mesmo tempo, é sempre uma experiência única, em que é possível perceber coisas que não se havia percebido na primeira (ou segunda, ou terceira…) leitura.

O Expresso de Hogwarts

Na adolescência, eu e meus amigos fãs da saga competíamos para ver quem lia os livros mais vezes – então eu literalmente perdi a conta de quantas vezes li A Pedra Filosofal (sei que, sem sombra de dúvida, foram mais de vinte). Mesmo assim, fazia alguns anos que eu não tirava um tempo para voltar a Hogwarts através das páginas – a pilha de livros inéditos esperando para ser lidos está sempre me chamando… No último feriado, porém, peguei A Pedra Filosofal, sentei no sofá da sala e li – de “O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, nº 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado” a “Vou me divertir à beça com Duda este verão…”, assim, de uma tacada só. E, de novo, fiquei encantada com o poder da criatividade e da narrativa de Rowling, demonstrado mesmo que em um livro aparentemente tão simples (se comparado ao resto da série): literalmente ri em diversas passagens, literalmente chorei em algumas outras. E, diversas vezes, me peguei pensando o quão pouco sabíamos, quando lemos A Pedra Filosofal pela primeira vez – sobre a história, que aos poucos se tornaria mais e mais complexa, e sobre a importância que Harry Potter teria nas nossas vidas e na cultura como um todo.

O primeiro capítulo, O Menino Que Sobreviveu, é certamente um dos mais geniais de toda a saga: com poucas palavras, Rowling consegue nos fazer saber muito sobre a personalidade dos Dursley (com Tio Válter escolhendo sua ‘gravata entediante’ para ir trabalhar, Tia Petúnia usando seu pescoço comprido para espiar a vida dos vizinhos por sobre a cerca, Duda tendo um ataque de fúria e jogando cereal na parede) e sobre quem são Dumbledore, com seu ar ao mesmo tempo sábio e meio louco; McGonagall, a professora no caminho da qual, como pensa Harry mais tarde, você não gostaria de se meter; e Hagrid, tão desajeitado quanto amável. A descrição do dia em que Voldemort é aparentemente derrotado pelo pequeno Harry Potter não poderia terminar de uma forma mais arrepiante (em um sentido positivo e literal): “Ele não podia saber que, neste mesmo instante, havia pessoas se reunindo em segredo em todo o país que erguiam copos e diziam com vozes abafadas: ‘A Harry Potter: o menino que sobreviveu!'”

Harry Potter

A sequência sobre ‘as cartas de ninguém’ e a fuga dos Dursley é tão angustiante quanto hilária – e Harry demonstra ter uma personalidade mais esperta e mais vívida do que a demonstrada no primeiro filme (como quando ele dá respostas desaforadas a Duda e aos tios, ou quando se levanta no meio da madrugada, decidido a interceptar o correio antes que chegue à casa de seus parentes). Quando Hagrid finalmente chega para buscar Harry e se põe a explicar tanto fatos sobre o passado do protagonista quanto detalhes sobre o mundo bruxo, percebemos o quão rasas são suas explicações – e o quanto nós, leitores, ainda tínhamos a descobrir: nada sabíamos a respeito da profecia, das horcruxes, da proteção que o amor de Lílian Potter conferiu ao filho. Quando Olivaras explica a Harry que a mesma fênix que forneceu a pena que está no interior da varinha do garoto produziu também a pena que dá poder à varinha de Voldemort, não podemos sequer desconfiar das consequências e desdobramentos que essa aparente coincidência terá no futuro.

É nostálgico e maravilhoso ter de novo, através dos olhos de Harry, uma “primeira visão” de lugares como o Beco Diagonal (“Harry desejou ter oito olhos. Virava a cabeça para todo lado enquanto caminhavam pela rua, tentando ver tudo ao mesmo tempo: as lojas, as coisas às portas, as pessoas fazendo compras”), o Expresso de Hogwarts (“Uma locomotiva vermelha a vapor estava parada à plataforma apinhada de gente”) e a própria Hogwarts (“Encarrapitado no alto de um penhasco na margem oposta, as janelas cintilando no céu estrelado, havia um imenso castelo com muitas torres e torrinhas”). Draco (“Não vejo por que os alunos da primeira série não podem ter vassouras individuais. Acho que vou obrigar papai a me comprar uma e vou contrabandeá-la para a escola às escondidas”), os Weasley (com a amabilidade da Sra. Weasley, a irreverência dos gêmeos Fred e Jorge, a empolgação ainda infantil de Gina, a pomposidade de Percy e a espontaneidade de Rony) e Hermione (“Já sei de cor todos os livros que nos mandaram comprar, é claro, só espero que seja suficiente”) são apresentados com a mesma eficiência com que o foram os Dursley – embora os leitores veteranos de Harry Potter possam se admirar com quanto ainda havia para se descobrir a respeito de cada um desses personagens.

Hogwarts

É interessante ver tantas coisas com outros olhos: a sequência do troll (Rowling fez direitinho com que desconfiássemos de Snape, não é?), o pacote que Hagrid busca em Gringotes, o comportamento de Quirrell, a cena em que a vassoura de Harry é amaldiçoada em pleno jogo de quadribol (quem diria que aquela frase descrevendo como Hermione empurrou Quirrell quando estava a caminho de enfeitiçar Snape seria tão importante?). Também há algumas coisas que, convenhamos, são meio absurdas: como Hagrid dizer que chegou “voando” à cabana no meio do mar, onde foi resgatar Harry dos Dursley; os alunos do primeiro ano serem obrigados a cumprir uma detenção em plena Floresta Proibida; ou a tão comentada reviravolta na pontuação da Taça das Casas no final do livro, que até os fãs grifinórios da série consideram uma roubalheira descarada por parte de Dumbledore – é como se Rowling ainda estivesse estruturando alguns aspectos de sua mitologia, ou então tenha tornado os livros aos poucos mais verossímeis, conforme eles se tornavam também mais maduros. E há informações que nos fazem pensar se Rownling já sabia, desde o início, detalhes que só seriam revelados mais adiante na história – como a breve menção a Sirius, o fato de que Olivaras conta que a varinha de Tiago era boa para transfiguração (bem, ele era um animago, certo?), e a sensação de Harry de que Snape ‘podia ler mentes’ (oclumência e legilimência, alguém?).

Mas talvez a frase mais genial de Harry Potter e a Pedra Filosofal seja uma profecia feita involuntariamente por Rowling, através das palavras da professora McGonagall: “Ele vai ser famoso, uma lenda”, ela diz sobre Harry, logo no primeiro capítulo. “Todas as crianças do nosso mundo vão saber o nome dele!” De fato: eu fui uma dessas crianças que conheceram o nome de Harry Potter e nunca mais esqueceram, seja por causa dos filmes, das muitos releituras dos livros, das fanfics, dos eventos, das dezenas de amizades que fiz, direta ou indiretamente, por causa da série. Obrigada, J.K. Rowling. Voltar para Hogwarts – para casa – é sempre muito bom. E eu tenho certeza de que ainda vou fazer isso muitas e muitas vezes.

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