'Big Mouth' vai fazer você sofrer - e dar risada - ao relembrar a puberdade

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Se você é uma dessas pessoas que ainda tem vergonha de coisas que fez ou disse há um, três, cinco ou dez anos, talvez não deva assistir Big Mouth. Para qualquer um com mais de 12 ou 13 anos, é impossível não se identificar com diversas cenas – terríveis, humilhantes e hilárias – da série animada, que retrata um período tão intenso quanto embaraçoso da vida: a puberdade. Inspirada nas experiências pessoais dos criadores Nick Kroll, Andrew Goldberg, Mark Levin e Jennifer Flackett (Kroll, inclusive, dubla o personagem inspirado nele mesmo), a série já teve os dez episódios de sua primeira temporada liberados na Netflix. Atenção: este texto pode ter alguns spoilers.

Logo no primeiro episódio, já é possível entender o clima do seriado, que não tenta, em momento algum, poupar o público de cenas explícitas, visual ou verbalmente – definitivamente não é algo a ser visto por crianças. Os capítulos tratam de temas como ejaculação, menstruação, tesão, sexo oral, pornografia e questionamentos a respeito da própria sexualidade – tudo do ponto de vista de adolescentes que parecem até mesmo um pouco ingênuos, como se nunca houvessem ouvido falar, nem mesmo via Google ou televisão, a respeito de diversas coisas pelas quais precisam passar. A aparente ingenuidade é uma maneira de escancarar ainda mais a confusão em que somos jogados nessa fase da vida. E a confusão não é só por parte dos protagonistas: os pais dos personagens também demonstram a aflição sofrida por pais de adolescentes, que muitas vezes não sabem como conversar com os filhos a respeito das mudanças físicas e psicológicas da puberdade.

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O humor, embora escrachado, fica num curioso equilíbrio entre o politicamente incorreto – com piadas que podem fazer os ativistas de sofá ficarem de cabelos em pé – e, justamente, refletir sobre o politicamente incorreto, debatendo temas como pornografia na internet e piadas racistas, homofóbicas e machistas (e até mesmo alertando para temas mais sensíveis, como o assédio sexual e a pornografia infantil). Uma das jogadas mais geniais é a criação dos Monstros da Puberdade: figuras fantasiosas que representam a bagunça que os hormônios fazem no corpo adolescente, provocando variações abruptas de humor, atrações inexplicáveis e ereções nos momentos mais impróprios. Conforme a série avança, os protagonistas passam a ter cada vez menos temor diante das ações sugeridas pelos monstros (ou por seus hormônios) – uma boa metáfora para a transição da infância para a adolescência. O clima mais surreal continua em cenas como a conversa de Jessi com a Estátua da Liberdade (a estátua é a primeira mulher que a menina encontra depois de ter sua primeira menstruação, no meio de um passeio da escola – para o qual escolheu vestir, adivinhem só, um shorts branco) e os frequentes aconselhamentos de Nick com o fantasma de Duke Ellington, que mora no sótão de sua casa (aparentemente, Ellington morreu na residência).

Além do roteiro bem escrito, a animação faz um ótimo uso da trilha sonora – começando pela abertura, com Charles Bradley cantando a sugestiva Changes; e culminando no episódio em que Andrew, ao ficar excitado vendo a imagem de um homem musculoso em um trailer de um filme, questiona sua sexualidade: Freddie Mercury aparece para descrever as dúvidas do rapaz com uma versão de Somebody To Love/Bohemian Rhapsody, em uma cena com referências que vão de Glee a RuPaul’s Drag Race e The Rocky Horror Picture Show. Referências, aliás, não faltam – a Clube da Luta, Réquiem Para Um Sonho, Apocalypse Now.

Bem feita e extremamente inteligente – com o tipo de humor adulto (e muitas vezes metalinguístico, fazendo piada com suas próprias falhas e ironias) que tornou Rick & Morty um dos maiores sucessos do gênero nos últimos tempos -, Big Mouth tem, porém, sua maior força na empatia: ao fazer com que os espectadores se enxerguem nos personagens, é como se a série dissesse “olha, não precisa se sentir mal – acontece com todo mundo, e o melhor que temos a fazer agora é rir por termos sobrevivido a isso.” E isso vale para assuntos aparentemente bobos (como não se identificar com a cena em que Nick e Jessi, depois de terem trocado um único beijo, precisam responder, diante da escola inteira, se estão ou não ficando? E com a vergonha de Jessi ao admitir para os colegas que menstruou pela primeira vez? Ou com o ressentimento de Nick, que se incomoda ao perceber que o melhor amigo, Andrew, já tem pêlos no corpo e um pênis, bem, “maior e mais peludo”, enquanto seu próprio corpo parece ainda não ter percebido que é hora de amadurecer?), mas também para os mais sérios – que vão do bullying na escola ao divórcio dos casais e às diferentes criações que cada um recebe em casa, com pais mais ou menos amorosos.

Big Mouth vale a pena para qualquer um que já passou da puberdade – e vai entender cada cena, diálogo e piada (e rir e sofrer com eles em medidas iguais). Se a vergonha pelo seu passado – às vezes não tão distante – bater forte, respire fundo: esse tempo já passou. Você dominou seu Monstro da Puberdade, e está aqui para contar a história. Ainda bem.

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