Com 'Vai Malandra', Anitta dá um checkmate na invisibilidade social

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Anitta fez a última jogada do seu projeto Checkmate: o lançamento do videoclipe para a música ‘Vai Malandra’, sua parceria com Mc Zaac, Maejor, Tropkillaz e DJ Yuri Martins. No clipe, a cantora subiu o Morro do Vidigal,no Rio de Janeiro e mostrou uma favela diferente do que a mídia tradicional costuma mostrar.

Anitta mostrou pessoas reais, moradores do Morro do Vidigal

A cantora convidou pessoas reais, moradoras do Vidigal e de outras regiões periféricas do Rio para participar do vídeo. O moço que passa óleo nas modelos de fita isolante estava passando na rua quando a produção de Anitta o convidou para participar do clipe. Não houve higienização de casting, nem embranquecimento. São as pessoas que vivem naquele ambiente.

Além disso, ela mostrou uma realidade muito comum nas periferias do Rio de Janeiro: a cultura do bronzeado na laje. Famosa por seu estilo diferente e ousado de bronzeamento com fita isolante, Érica Bronze participou do vídeo. Esse costume é retratado sem distanciamento ou deboche e a cantora de Show das Poderosas estava, inclusive, usando um biquíni de fita isolante. Na mídia tradicional, as “garotas da laje” são vistas como chacota, meme, ou algo exótico. Para estas mulheres, isso é uma realidade e algo comum do dia-a-dia.

Perspectiva positiva sobre o estereótipo de favela

Algumas pessoas julgaram a cantora por estar estereotipando a favela e seus personagens para o clipe. Bem, então, vamos entender primeiro a definição de estereótipo:

“Os estereótipos são pressupostos ou rótulos sociais, criados sobre características de grupos para moldar padrões sociais. Um estereótipo se refere a certo conjunto de características que são vinculadas a todos os membros de um determinado grupo social. É, portanto, uma generalização e uma simplificação que relaciona atributos gerais a características coletivas como idade, raça, sexo, sexualidade, profissão, nacionalidade, região de origem, preferências musicais, comportamentos, etc.” (Fonte: Infoescola). Se alguém é culpado por um estereótipo de favela, este não é a Anitta, certo?

Principais resultados de uma busca por “favelas” no Google Notícias (21/12/17).

Esta é uma afirmação verdadeira, mas isso não é uma culpa de Anitta. O videoclipe, como formato simplificado em tempo, não dá espaço para o desenvolvimento mais complexo de personagens. É óbvio que todos os personagens são simplificados e estereotipados mas isso só se torna algo negativo quando o estereótipo serve como chacota ou passa uma imagem ruim de quem é representado.

Anitta veio da favela, da periferia, esta foi a sua realidade durante bastante tempo e é a de milhares de outras pessoas em nosso país. A mídia tradicional não produz conteúdo positivo sobre as comunidades. Tudo o que é mostrado nos noticiários e na TV são cenas de violência e tráfico de drogas. A cantora, por sua vez, trouxe uma visão positiva sobre a favela e o sucesso do vídeo (mais de 30 milhões de visualizações no Youtube, até o momento) prova isso.

Visibilidade e reconhecimento do funk internacionalmente

O primeiro clipe gravado para o projeto Checkmate foi, intencionalmente, ‘Vai Malandra’. Este, porém, foi o último a ser divulgado. Isso aconteceu porque a cantora queria dizer a seus fãs brasileiros que, mesmo com toda essa empreitada internacional, ela não esqueceu suas origens brasileiras e, principalmente, do funk.

Depois do sucesso de Will I See You,Is That For Me e Downtown, com um novo público por baixo das mangas, Anitta liberou ‘Malandra’ como sua tacada final. O que funcionou como uma celebração de parte da cultura nacional e apresentou o funk para o resto do mundo.

Discussões de elite para reforçar a invisibilidade da favela

Algumas discussões elitistas foram levantadas em torno do clipe mas, ao invés de promoverem algo de positivo, apenas reforçaram a invisibilidade da favela.

Uma delas foi sobre a objetificação de mulheres no vídeo. A sexualização das personagens é algo inerente ao estilo musical funk. Um bom exemplo disso é que um dos maiores sucessos do ano no Spotify Brasil foi Deu Onda que, em sua versão “proibidão”, tinha no refrão a frase “Meu p*u te ama”. É um ritmo onde a sexualidade está sempre acompanhando suas músicas e videoclipes.

Anitta, no clipe, trouxe essa sensualidade tanto para as mulheres quanto para os homens. É um jogo justo, onde ninguém ganha ou perde. Discutir isso é tentar culpar Anitta por algo que já existia bem antes dela e que é um problema cultural, pois o funk apenas reflete a realidade vivida por seus MCs e, se estes reproduzem discursos machistas em suas músicas, é porque os naturalizaram de tão recorrente que é presenciar esse tipo de comportamento na periferia.

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Outra discussão elitista foi a de que Anitta estaria se apropriando culturalmente da cultura negra ao usar tranças. Isso me leva a duas indagações: 1.Por que uma “branca” com tranças incomoda muito mais do que toda a invisibilidade dos moradores da favela? 2.Por que uma pessoa que veio da comunidade não pode usar tranças?

Vale lembrar que a discussão sobre apropriação cultural é uma algo que engloba muito mais do que as tranças no cabelo de Anitta e muitas pessoas se esquecem disso. Vivemos em uma sociedade onde a cultura negra ainda é mercadoria de fetiche, onde marcas famosas usam a história da escravidão no Brasil para vender roupas. O problema não é a trança da Anitta, mas sim a invisibilidade relegada aos negros. Apropriação cultural é quando você valoriza a cultura negra sem valorizar os negros. Algo que Anitta de forma alguma fez. A cantora sempre teve um discurso bastante inclusivo em seus trabalhos seja referente a etnia, peso ou idade.

Quando uma cantora que vem de periferia faz um clipe e traz visibilidade para uma população marginalizada pela sociedade, esse discurso sobre apropriação cultural perde o sentido. Afinal, na vida real, ninguém liga para essas discussões. Pessoas não morrem porque uma alguém branco usou dreads. Muito pelo contrário, pessoas morrem por serem relegadas a um limbo, vivendo – na maior parte das vezes – em condições subumanas, onde impera o poder paralelo e o resto da sociedade finge não as enxergar.

Por isso, o trabalho de Anitta deve ser mais enaltecido que criticado. Críticas sociais sempre são válidas, mas, conhecendo a mídia que nos influencia e a forma como ela representa as favelas, quem critica a cantora não está – nem mesmo – dando algum espaço para as pessoas periféricas. Quem critica desnecessariamente ‘Vai Malandra’ está apenas sendo chato, algumas vezes, preconceituoso e falando mal de um trabalho que, no fim de tudo, gerou um saldo extremamente positivo para o funk e para as favelas. Quem, desse jeito, critica Anitta, simplesmente não merece nossa atenção.

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