'Ela Quer Tudo' questiona a sociedade atual e celebra Spike Lee

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Uma das novidades no catálogo do Netflix para o mês de dezembro deste ano, a série Ela Quer Tudo é uma adaptação do primeiro longa-metragem dirigido por Spike Lee, de nome homônimo e lançado em 1986. O diretor é conhecido por abordar temáticas sociais em seus filmes, principalmente no que tange à vida de minorias sociais. Na maior parte das vezes, o cenário de suas produções é o Brooklyn (bairro da cidade de Nova Iorque onde Spike morou por bastante tempo), algo que se repete na série ficcional sobre a vida de Nola Darling (DeWanda Wise).

Pôster do filme de 1986.

Nola é uma mulher, negra, de classe média, artista, auto-suficiente e que não tem vergonha de explorar sua sexualidade. O ponto aqui não é falar sobre o poder de representatividade que ela exerce sobre grande parte das mulheres negras que assistem à série, até porque por trás deste texto está um homem. Sim, é claro que há algo de especial na história para as mulheres negras que também passam por situações muito parecidas com as do cotidiano de Nola em seu dia-a-dia, mas um dos encantos da adaptação é a universalidade dos questionamentos que a personagem principal têm no decorrer dos 10 episódios.

A história gira em torno da artista e seus três interesses amorosos: Jamie Overstreet (Lyriq Bent), Mars Blackmoon (Anthony Ramos) e Greer Childs (Cleo Anthony). Contudo, o diferencial fica por parte da maneira como esses relacionamentos acontecem, pois é Nola quem dá as cartas e controla o jogo. Segundo o diretor, a ideia para o roteiro do filme original surgiu de conversas entre ele e seus amigos nas quais estes sempre se gabavam por estar se relacionando com mais de uma mulher ao mesmo tempo, algo comum entre homens e que fez a seguinte pergunta surgir em sua mente: “E se fosse uma mulher no lugar deles?”. Se hoje, em 2017, esse ponto de vista é algo inovador e essencial para as discussões latentes sobre feminismo, racismo, machismo etc., imaginem em 1986.

Da esquerda para a direita: Jamie Overstreet, Nola Darling, Greer Childs e Mars Blackmoon.

Todavia, mesmo “segmentada” para um determinado público, os temas discutidos na série conseguem falar muito bem com qualquer pessoa. Gentrificação, pressão estética, violência, estresse pós-traumático e política são alguns dos assuntos abordados, porém o que mais saltou a meu ver foi o vazio existencial sentido por Darling durante a temporada. Mesmo aparentando ser extremamente bem resolvida consigo mesma e recusando-se a encaixar-se em algum tipo de padrão socialmente imposto, um acontecimento logo no 2º episódio põe as crenças de Nola em teste e a faz questionar-se cada vez mais.

Nola Darling representa muito bem a contemporaneidade e a força sufocante que a necessidade de ser uma mulher forte e independente a todo tempo pode causar em uma pessoa, principalmente se somada à sua realidade como mulher negra. Ao querer sua liberdade sexual, independência financeira, sucesso profissional e o amor de seus três amantes, a personagem principal acaba se esquecendo de algo primordial: sua paz de espírito. Pode-se considerar que o arco principal da história é a jornada de Nola em busca de conforto com seu eu interior. O dito popular “quem tudo quer, nada tem” é um resumo quase perfeito da história de Darling e uma ótima brincadeira com a tradução do nome da série. Ela Quer Tudo tem diversas camadas de profundidade e é pauta para muito mais do que apenas um texto.

Spike Lee nos bastidores de uma gravação.

O estilo cinematográfico de Spike Lee tem total importância para a história. A crueza dos planos, movimentos de câmera e cortes são de grande ajuda para que nós, os espectadores, entremos no universo da série. O que pode parecer falta de técnica para os que não conhecem os trabalhos prévios do diretor é, na verdade, proposital. Ao abdicar-se da pomposidade dos grandes diretores e optar por uma linguagem mais parecida com a do cinema de rua, Lee consegue aproximar muito mais quem está assistindo dos personagens.

A trilha sonora também é espetacular, com músicas especialmente selecionadas para ajudar a passar a mensagem pretendida pelo diretor. Por fim, a adaptação da série, 31 anos após o lançamento do filme original, é uma celebração à carreira do diretor Spike Lee.

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