'Paciência' mostra como o machismo pode ser a mais cruel das armas

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Paciência, graphic novel do quadrinista norte-americano Daniel Clowes, conta a odisseia de Jack Barlow ao voltar no tempo para evitar o assassinato da esposa grávida, Paciência. Atormentado pela morte da mulher, ele retorna ao passado na esperança que, ao regressar à sua própria época, possa reencontra-la. Depois de ser apontado equivocadamente como autor do homicídio, Jack se dedica, de forma obsessiva, a encontrar o algoz da amada. Contudo, em seus passeios temporais, Jack remonta o passado de Paciência, marcado por abusos e negligencias.

Paciência é uma moça sonhadora, ingênua e infeliz que trabalha como garçonete na cidade de White Oak, no Texas. No restaurante ela se envolve com um trio de playboys que acaba armando para ela. Um deles a convida para sair, quando na realidade, mancomunado com os colegas, arma uma armadilha para a jovem ser filmada na floresta. O leitor acompanha o deslumbramento e a excitação de Paciência ao encontrar o único garoto que parecia tratá-la com respeito. Mais que isso, com doçura. Nos sentimos enganados, impotentes, envergonhados por Paciência.

Quando seu namorado, Adam, recebe liberdade condicional, ele e Paciência se reencontram. Com um histórico violento, logo Adam a agride. Jack, que observa a esposa sempre que possível, ataca Adam para protegê-la e, em seguida, literalmente, desaparece no espaço temporal.

A partir disso, a linha do tempo é alterada por Jack e todos os fatos se conectam com a morte da mulher de sua vida.

Além de alertar sobre o perigo de se apegar de forma obsessiva ao passado, esta é uma HQ que fala sobre a dificuldade que as pessoas têm em confiar no fluxo temporal da vida. Elas acreditam ter o poder de controlar todos os momentos da existência, quando, na realidade, o fator humano é uma constante de imprevistos. O que é ilustrado nas viagens ao passado, realizadas por Jack, para manter Paciência segura. Mesmo ciente do quão perigoso é mexer com o tempo, seus arroubos de raiva fazem com que a ordem dos fatos seja alterada.

O machismo é um dos pontos centrais de Paciência, já que a personagem que batiza o livro é vítima de uma série de abusos proporcionados por homens que a humilharam, agrediram e objetificaram. E, até o final de seus dias, esse perverso acordo entre homens (que, infelizmente, existe além da ficção) a transformam em uma vítima do femínicidio.
A personalidade frágil de Paciência se revela nas consultas com a terapeuta e nos episódios temporais visitados por Jack. As relações abusivas e a ausência de um lugar no mundo criaram rachaduras internas.

Esta história questiona sobre até que ponto as decisões e atitudes dos indivíduos são tomadas por eles ou, minimamente, pré-estipuladas, programadas. De forma original e nada clichê, a graphic novel é carregada de cores, psicodelia e pinceladas de metafísica. A obra comprova que o destino não é imutável e, independentemente das possibilidades e variáveis, pode ser refeito se as pessoas encontrarem alguém ou uma causa que se importe de todo coração.

Paciência.
Autor:Daniel Clowes
Editora: Nemo
Ano:2017

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