‘Lady Bird’, ‘Me Chame Pelo Seu Nome’ e a jornada do amadurecimento

lady bird e me chame pelo seu nome
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O texto a seguir pode conter spoilers sobre as duas produções.

Dois dos principais filmes dessa temporada de premiações, e que com certeza terão destaque entre os indicados ao Oscar 2018, são os excelentes Lady Bird e Me Chame Pelo Seu Nome. Ambos têm como protagonista um personagem jovem que está passando por um período de primeiras experiências em diversos âmbitos da vida, e tratam de maneira semelhante as consequências das escolhas feitas durante a juventude.

Lady Bird se passa no início dos anos 2000 e é uma história “semi-autobiográfica” da roteirista e diretora Greta Gerwig, que conta de maneira muito sutil, delicada e, mais importante, crível os últimos dias da personagem Christine no colegial e a difícil escolha que todo jovem enfrenta ao ter que decidir o rumo de sua vida, muitas vezes tendo que lidar com obstáculos físicos, financeiros e até mesmo afetivos nessa jornada.

Me Chame Pelo Seu Nome tem um foco um pouco diferente nesse sentido, porque apesar de também mostrar o mesmo período da vida de um jovem de outra época (no caso os anos 80), a trama central aqui se baseia no romance de Elio com um hóspede mais velho que passa o verão em sua casa, na Itália, a convite de seu pai. O despertar sexual e o clima romântico têm muito mais força nessa produção, o que no fundo, porém, não a distancia tanto de Lady Bird.

Apesar desse tema em comum, já visto em tantos outros filmes, e que faz parte de um quase sub-gênero cinematográfico intitulado “coming of age” (ou “a chegada da idade” numa tradução literal e pouco fiel ao que o termo representa), essas duas histórias têm sido aclamadas pela crítica especializada e em festivais mundo afora por tratar de juventude e crescimento de uma forma diferente da habitual vista em Hollywood. Elas fogem do padrão comercial da indústria e à primeira vista podem parecer não tratar de nada especificamente. É necessária uma atenção aos detalhes para captar as mensagens.

Tanto Lady Bird quanto Me Chame Pelo Seu Nome desenvolvem uma narrativa baseada no relacionamento de seus protagonistas com as pessoas próximas a eles, sendo produções quase que exclusivamente sobre convivência e aprendizado. Para ser mais específico ainda, fica claro em determinados momentos dos dois filmes que a relação com os pais é o cerne disso tudo. Enquanto Christine vive em pé de guerra com a mãe e suas opiniões e objetivos divergentes, Elio encontra nos pais todo o respaldo e a segurança para o desenvolvimento de seu romance e seus planos além disso.

O ponto aqui não é comparar ou eleger a melhor “conduta parental” dadas as situações em que esses jovens colocam seus pais, mas mostrar que nessas diferenças de causas e consequências moram a beleza do amadurecimento. As pessoas são diferentes porque passaram por experiências diferentes e viveram de maneiras diferentes, e no final ambas as produções tratam de forma semelhante essa sutil evolução.

Nem Elio nem Christine terminam suas histórias da forma que começaram. Aquele pequeno período do tempo de vida que o público tem o prazer de acompanha-los permite refletir sobre a nossa própria transformação e a importância das pessoas ao redor nessa formação de caráter. Os dois filmes desenvolvem esse arco de maneira tão delicada que emociona. As risadas, as lágrimas, as perdas, as vitórias, na vida real esses contrapontos andam de mãos dadas e não são tão simples como o maniqueísmo visto frequentemente no cinema. É maravilhoso poder acompanhar personagens reais, com problemas e questionamentos reais que nos levam a questionar nossa própria jornada. A vida e seus tropeços rendem ótimas histórias, afinal.

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