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‘A Forma da Água’ é um conto de fadas para tempos problemáticos

O enredo embrionário de A Forma da Água nasceu da mente do diretor Guillermo Del Toro ao assistir ao clássico dos anos 1950 O Monstro da Lagoa Negra. O longa, dirigido por Jack Arnold, narra uma expedição na Floresta Amazônia e a descoberta de uma criatura meio marinha, meio humana. Após o fim da história, o jovem Del Toro começou a fantasiar sobre como seria a história de amor entre a mocinha e aquele monstro aquático. A resposta tomou forma e se tornou no maior concorrente ao Oscar 2018.

A Forma da Água se passa nos EUA dos anos 1960, um país obcecado pelo futuro e pela corrida espacial, mas ainda preso a um presente retrógrado. Uma realidade na qual pessoas negras são expulsas de restaurantes e gays são considerados seres abomináveis, enquanto, em contra plano, a visita à lua é tentada incansavelmente.

Numa cidade litorânea, Elisa (Sally Hawkins), uma faxineira muda que trabalha em um edifício do governo, conhece e se apaixona por uma criatura meio homem, meio peixe. O Homem-Anfíbio (Doug Jones) – considerado um deus na Amazônia, de onde foi trazido – foi capturado para ser estudado, mas acaba despertando os mais diversos sentimentos em quem o encontra.

Um conto de fadas desse pode soar cômico em um primeiro momento, mas comove com sua mensagem e poesia do começo ao fim. Por mais estranha que a criatura possa parecer no começo, ela se transforma em envolvente conforme a história transcorre. O feito é crédito do diretor Guillermo Del Toro, de origem mexicana, que tem em sua filmografia a fantasia cinematográfica O Labirinto de Fauno. Sua imaginação dessa vez nos levou a um mundo subaquático.

O vilão não é o monstro

Com um casal principal literalmente sem voz, a maior parte do diálogo fica por conta de personagens que não costumavam ter voz metaforicamente, o amigo gay (Richard Jenkins) e a amiga negra (Octavia Spencer) de Elisa. Os dois conseguem entender a linguagem de sinais de Elisa e interpretam suas falas na presença de terceiros, fazendo com que sejam personagens imprescindíveis para o desenvolvimento do caso de amor principal, não simples coadjuvantes ou membros marginalizados.

O Homem Anfíbio em cena do filme.

Como em todo conto de fadas, temos também um vilão, o verdadeiro monstro. Esse papel é preenchido por Strickland (Michael Shannon), um agente do governo responsável por manter a criatura presa e disponível para os estudos necessários. Esse vilão, como o próprio ator o descreve, representa o que há de melhor e de pior nos EUA. É um homem patriota e de sucesso, mas protagonista dos maiores insultos e preconceitos do filme.

Os olhares do elenco e talentos da equipe

Shannon, como todo o elenco, faz um excelente trabalho, pode ser que você o reconheça de Animais Noturnos. Quem também entrega uma ótima performance é Michael Stuhlbarg, que interpreta um cientista fascinado pelas habilidades da criatura. Michael também está em outro concorrente ao Oscar desse ano, o filme Me Chame Pelo Seu Nome.

Os atores foram escolhidos, de acordo com o diretor, com base em seus olhares. Ele buscava por intérpretes que pudessem comunicar as mais diversas emoções através de olhares, como em um filme mudo.
Ele chegou a dizer que o olhar de Octavia Spencer tem a capacidade de fazer com que as pessoas se sintam perdoadas por seus erros. E Doug Jones trabalha há anos com Guillermo Del Toro e foi ele quem interpretou o monstro com olhos nas palmas das mãos em O Labirinto de Fauno.

Sally Hawkins e Octavia Spencer.

Sally Hawkins, Octavia Spencer e Richard Jenkins estão todos concorrendo ao Oscar 2018 nas categorias de Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Ator Coadjuvante respectivamente.

Um destaque da equipe técnica é o compositor Alexandre Desplat, que concorre ao Oscar pela trilha de A Forma Da Água. Alexandre já venceu em 2015, por seu trabalho em O Grande Hotel Budapeste e concorreu outras vezes por suas trilhas para O Jogo Da Imitação e O Discurso Do Rei, entre outras indicações.

Efeitos e técnicas

O ator Doug Jonesusou um macacão bem justo e teve peças e maquiagem coladas ao seu corpo para poder interpretar o Homem-Anfíbio. Para completar, ele também contou com alguns truques de efeitos especiais na pós-produção do filme e a ajuda de alguns mestres de marionetes que ajudavam a mexer suas guelras. Até mesmo o próprio diretor ajudou a compor a criatura, gravando alguns sons emitidos por ela no estúdio.

Guillermo Del Toro no set de filmagem.

Para conseguir o efeito subaquático da maioria das cenas, inclusive o visto no pôster do filme, foi usada uma técnica chamada de Dry for Wet. Essa técnica utiliza ventiladores, fumaça e alguns truques de iluminação para se obter a ideia de estar tudo embaixo da água. Em seguida, algumas bolhas e outros detalhes são inseridos digitalmente.

A cor verde está sempre em evidência em A Forma Da Água. Guillermo optou pela cor para representar não apenas o tema da água, mas também para representar o futuro. O verde está nas roupas dos personagens, papéis de parede, carro, gelatina, azulejos, sabão, balas e muitos outros pontos no filme.

Um conto de fadas para tempos problemáticos

Por fim, o longa nos faz pensar em Deus, em especial ao ouvirmos o poema lido durante seu fim. Alguns associam a história a outro conto de fadas, A Bela e a Fera. Mas para todos traz uma mensagem de amor, em sua forma mais pura. A forma da água é a forma do amor. Não tem biótipo, nacionalidade ou raça. Adapta-se ao veículo. Faz com que se veja a essência e não a aparência. Faz com que se veja um ser completo, sem preconceitos, defeitos, deficiências. É ver a pessoa como ela realmente é, sem uma forma específica, porém com todas as formas ao mesmo tempo.

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