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Por que a ascensão internacional de Anitta é importante para o Brasil?

Desde que começou sua carreira, em meados de 2013, Anitta batalhou muito para construir sua imagem de ícone. Foi com o sucesso Show das Poderosas, que a cantora começou a conquistar fãs no Brasil inteiro e, ao mesmo tempo, muitos haters. Tendo enfrentado muitas dificuldades para se provar no mercado fonográfico nacional, a antiga MC da Furacão 2000, hoje, se prepara para encarar o mesmo desafio no mercado pop internacional. Suas primeiras entrevistas e aparições na mídia norte-americana, durante as últimas semanas, renderam à cantora uma sólida base de apoiadores para fazer isso acontecer. Anitta é um ídolo nacional que pretende representar o Brasil no pop internacional, com uma estratégia nunca antes feita.

Anitta durante as gravações do clipe de ‘Vai Malandra’.

Esse texto é uma análise sobre comoção nacional e a transformação da cantora em um ídolo para seu povo. A grande questão que fica por trás desse acontecimento é: Por que o Brasil está se unindo como nunca para fazer a carreira de Anitta acontecer no exterior? Aqui, explico que o sucesso internacional de Anitta baseia-se em quatro argumentos básicos: Complexo de Vira-Lata, patriotismo extinto, representatividade e reconhecimento do funk no exterior.

Anitta como referencial de sucesso para o Brasil

É um fato antropológico que o ser humano precisa de um referencial para dar sentido para a vida*. Esse referencial é muitas vezes encontrado na adoração de culto a deuses, ídolos e/ou natureza. Daí surge uma explicação para a necessidade de um ídolo sentida pelo ser humano (seja ele religioso ou não). Há muitos anos, o Brasil não possui um ídolo nacional de esfera global. Durante muitos anos, os ídolos brasileiros se restringiram ao esporte: principalmente aos jogadores de futebol. Pelé, Zico, Garrincha, Ayrton Senna, Gustavo Kuerten e o mais recente, Neymar Jr. O fato é que, se comparado com os anos 1970, por exemplo, atualmente, o Brasil está carente de ídolos.

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Com muitos trabalhos de qualidade, sua estratégia midiática e algumas aprovações internacionais, Anitta se provou digna da adoração do povo brasileiro e ascendeu como um ídolo. Pela primeira vez em tempos, ela começou a mostrar ser capaz de ser uma grande representação da cultura brasileira. Nascida em Honório Gurgel, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, era cantora de funk na Furação 2000. Por ser uma mulher que veio da periferia, ela é a representante ideal da dificuldade diária do brasileiro e aproxima o que parece ser inalcançável para muitos: alcançar o sucesso. Ela mostra que não é impossível para um brasileiro periférico conquistar o mundo. Quando Anitta começou, o pop brasileiro estava defasado e, por isso, ela abriu portas para muitas outras cantoras que hoje fazem sucesso.

Outro fato que explica a importância do seu reconhecimento é a necessidade de aprovação do estrangeiro sentida pelos brasileiros. Se um turista chega no Brasil, nós precisamos mostrar que moramos no melhor país do mundo, embora muitos não acreditem que isso seja verdade. No Brasil, a aprovação do gringo é muito importante. E só nós podemos falar mal do nosso país. A conquista de Anitta lá fora seria a desnecessária validação do gringo que nós tanto precisamos.

Em meio a uma crise política e econômica, um ídolo que nos faz acreditar que temos algum motivo para sentir orgulho nacional passa a ser a saída. O sucesso de Anitta no exterior em pleno 2018 passou a ser uma questão de patriotismo. Eis o porquê:

Na indústria fonográfica, já tivemos alguns outros artistas que chegaram a fazer sucesso fora do país mas nunca nas condições de Anitta. Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Caetano Veloso, Gilberto Gil e até Michel Teló já conseguiram ter seus nomes nos países da América do Norte e Europa. O que todos eles têm em comum? Todos cantavam em português. Anitta é a primeira a propor um sucesso de grande escala cantando três línguas diferentes, e principalmente, uma possível porta-voz do funk brasileiro. Além disso, Anitta é a única dentre estes que seguiu uma agenda de marketing contínua, para firmar seu nome no exterior.

Ivete Sangalo durante seu show realizado no Madison Square Garden, em Nova Iorque.

No festival Villa Mix de 2016, Anitta prometeu no palco que um dia faria o funk carioca ser respeitado no nosso país. Aos poucos, esse respeito têm sido conquistado. Por causa dela, alguns artista como Diplo, Jason Derulo, J Balvin, Maluma e Tyga já tiveram contato com o funk (e aprovaram). Inclusive, a Billboard americana criou um artigo onde cita que o Funk é a nova onda latina, trazida por Anitta e MC Fioti. Talvez por causa do chamado “complexo de vira-lata” seja necessário que a cantora faça sucesso com o funk carioca nos Estados Unidos para que ganhe o respeito merecido no nosso país. Já que, no nosso próprio país, as pessoas ouvem o funk como uma espécie de prazer culposo: muita gente gosta do ritmo, mas nega que ouve, para parecer cult, cool ou descolado.

Há alguns dias, Anitta se apresentou com J Balvin no prêmio internacional Lo Nuestro, que aconteceu em Miami e foi transmitida pela Univision, emissora latina de televisão. Apresentando Downtown e Machika, ela mostrou ser capaz de se tornar uma artista respeitada em qualquer lugar do mundo. O apoio à Anitta foi tão grande que, mesmo que o brasileiro Nego do Borel tenha se apresentado no mesmo local e atingido posições maiores no Billboard Hot 100 (ao lado de Maluma, com o remix de Você Partiu Meu Coração, Corazón), não ganhou tanta repercussão quanto a amiga. Ou seja, os olhos dos brasileiros estão voltados para Anitta.

Ela que também deu algumas entrevistas para rádios latinas, sempre cita seu país, o funk e outros elementos da cultura brasileira. No próprio single Machika, Anitta se autointitula a “sensação da favela”. Desde Carmem Miranda, na década de 40, é a primeira vez em que uma artista brasileira pode ganhar visibilidade nos países de primeiro mundo levando suas raízes com orgulho. Com este mix de conceitos, tentamos mergulhar na importância dela para o momento atual do Brasil. Mas, alguma coisa nos diz que ela ainda têm muito para mostrar.

*Referência bibliográfica: TEPEDINO, Ana Maria. O efêmero e nossas idolatrias pós-modernas. Rio de Janeiro, setembro – dezembro/2011.

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