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‘Vocação Para o Mal’ é uma evolução na saga do detetive Cormoran Strike

J.K. Rowling já definiu Robert Galbraith, o pseudônimo sob o qual ela assina a série Cormoran Strike, como “seu parque de diversões particular.” Dá para imaginar por quê: ao assinar e responder por Harry Potter, provavelmente a série literária mais popular do planeta, a autora tem que lidar com pressões e expectativas jamais enfrentadas por Galbraith. Mesmo que agora o público saiba que Rowling e Galbraith são a mesma pessoa, escrever sob seu pseudônimo – e dentro de um universo literário radicalmente diferente daquele apresentado em Harry Potter – deve dar à escritora uma sensação de frescor e de liberdade muito maiores. Uma maior ousadia para tomar decisões inesperadas ou rumos não-compatíveis com sua saga mais famosa.

Série 'Cormoran Strike'.
Os livros da série ‘Cormoran Strike’.

De fato, o desprendimento entre Rowling e Galbraith fica evidente desde a leitura de O Chamado do Cuco, primeiro livro da série Cormoran Strike: como eu já comentei aqui, quando escrevi sobre O Bicho-da-Seda, segundo volume da saga, o estilo de escrita adotado aqui por Rowling – ops, por Robert Galbraith – é totalmente diferente daquele encontrado em Harry Potter. É um estilo definitivamente adulto, e cada vez mais sombrio. Logo no início de Vocação Para o Mal, Robin Ellacott, assistente do detetive particular Cormoran Strike, recebe um pacote indesejado pelo correio: a perna decepada de uma mulher. Strike logo percebe que o “presente” tinha o objetivo de atingi-lo: o bilhete que o acompanhava trazia um trecho da letra de uma música da banda Blue Öyster Cult, favorita de sua falecida mãe. Strike imediatamente lista seus suspeitos: os criminosos Digger Malley, Donald Laing e Noel Brockbank, e seu ex-padrasto Jeff Whittaker (que Strike desconfia ter matado sua mãe).

O Chamado do Cuco
Cormoran Strike e Robin Ellacott, na adaptação para TV de ‘O Chamado do Cuco’.

Galbraith não tem medo de chafurdar nas áreas mais sombrias do comportamento humano: todos os suspeitos de Strike são pessoas com “vocação para o mal”, todos têm atitudes violentas e psicóticas, todos têm passados sujos e perturbadores. A história vai sendo amarrada com cuidado ao longo das páginas: a parte fria e cheia de adrenalina da investigação em si, e as revelações cada vez maiores sobre os passados de Strike e Robin, os dois protagonistas – tudo interligado pelas letras das músicas da Blue Öyster Cult, que abrem cada capítulo. Sabemos cada vez mais sobre a infância e a adolescência de Strike (e sua relação conturbada com a mãe), e também sobre o passado de Robin – inclusive sobre um acontecimento inesperado e triste, que joga luz sobre algumas de suas reações a muita coisa acontecida nos livros anteriores. E tudo isso é intercalado com capítulos descritos do ponto de vista do assassino – que aos poucos revela seus planos e todos os seus pensamentos inquietantes e macabros. E mesmo assim é difícil adivinhar qual deles é o verdadeiro culpado – Galbraith consegue manter o suspense até o final.

J.K. Rowling
A autora J.K. Rowling

Os temas pesados, a narrativa sombria e os pequenos detalhes (da abordagem de assuntos delicados como a acrotomofilia até a quase cômica relevância para a investigação da paixão de uma adolescente britânica pela banda One Direction) que nos fazem lembrar o tempo todo de que agora estamos no mundo real, e não em Hogwarts, dão a Vocação Para o Mal o tom de realidade que convence e absorve, fazendo com que o leitor fique sempre ansioso para descobrir quais serão as revelações do próximo capítulo. Mas o que faz deste o melhor volume – pelo menos até agora – da série Cormoran Strike é que Galbraith, finalmente, consegue fazer com que o leitor respeite, se apegue e se apaixone por seus personagens (Robin que o diga – a personagem entra fácil em um Top 5 de personagens femininas mais fortes de Rowling), uma estratégia que vem sendo construída devagar desde O Chamado do Cuco.

O Chamado do Cuco, aliás, está longe de ser meu livro favorito de Rowling/Galbraith – mas O Bicho-da-Seda é um avanço em relação ao primeiro volume da série, e Vocação Para o Mal é um avanço em relação a O Bicho-da-Seda. E definitivamente vale a pena persistir na história para entender mais sobre estes novos – agora já não tão novos assim – personagens da criadora de Harry Potter, Albus Dumbledore, Sirius Black e tantos outros: se Robert Galbraith continuar melhorando a cada livro publicado, eu estou ansiosa para saber como será o quarto volume da saga.

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