Billboard: Revolução drag brasileira está mudando uma cultura homofóbica

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A Billboard americana publicou um texto sobre como a revolução drag brasileira está mudando a cultura homofóbica do nosso país. No texto, são citadas Pabllo Vittar, Aretuza Lovi, Lia Clark, Linn da Quebrada e Gloria Groove.

Leia a tradução da matéria.

Depois de cinco dias de apresentações exaustivas durante o carnaval, a drag queen Pablo Vittar está exausta. O fenômeno de 23 anos, que levou a internet à loucura após beijar Diplo no videoclipe “Então Vai”, pode finalmente tirar seus salto altos, deixar as perucas de lado e refletir sobre as coisas que conquistou: O país com os piores números de violência LGBTQ no mundo escolheu ela, um homem, como sua rainha do pop.

Homofobia ainda é um dos problemas mais sérios do Brasil. Mesmo com a sua imagem internacional de gay friendly (pense na parada gay de São Paulo, a maior do mundo. Ou nas praias gays do Rio de Janeiro, como a Farme de Amoedo, em Ipanema), a “violência homofóbica atingiu um nível de crise, e está cada dia pior”, afirma Jandira Queiroz, da Anistia Internacional, para o New York Times, em 2016. Uma análise recente pelo GGB – Grupo Gay da Bahia, uma das mais antigas organizações gays do Brasil – estima que a morte violenta de brasileiros LGBTQs atingiu um novo pico em 2017: 387 pessoas foram assassinadas, um aumento de 30% em relação a 2016. Em comparação, o número de assassinatos nos EUA por motivos de homofobia, durante o mesmo período, foi de 52 mortes.

Mas algumas drag queens – com Vittar na frente de comando – estão ajudando a mudar a aceitação da comunidade LGBTQ no Brasil, usando suas músicas e significado. “Estou muito feliz de ter este espaço e oportunidade de emprestar minha voz para a causa LGBTQ e representar minhas irmãs”, contou Pabllo, dona dos vídeos de Corpo Sensual e K.O. que, juntos, conquistam mais de 275 milhões de visualizações no Youtube (O vídeo de Sua Cara, uma música com a participação da cantora Anitta, se tornou o vídeo mais rápido a atingir um milhão de curtidas na plataforma, em menos de seis horas.). “Saber que as outras pessoas vão crescer tendo exemplos e mais pessoas para inspirar-las é maravilhoso”, conta.

Algumas performers viveram a homofobia em casa, antes de entrar no mundo drag. É o caso de Aretuza Lovi. Ela conta que “quando meu pai percebeu que eu era gay, me tratou horrivelmente e me bateu. Eu tinha medo de respirar perto dele”. Aretuza começou a se montar como uma brincadeira entre amigos, mas quando sua carreira decolou, ela sentiu empoderada e agora usa drag como uma plafatorma. A resposta foi enorme: no ano passado, assinou com a Sony Music e seu single, “Joga Bunda” ultrapassou dez milhões de visualizações em um mês.

Para Gloria Groove, fazer drag e o hip hop – que influencia muito em sua música – são o seu jeito de “apontar o que está errado no Brasil com a minha voz”. Ela diz isso sobre a violência a gays, que é algo vivido diariamente. “Sou gay, afeminado, drag-queen negra e dou a cara em um pais com o maior número de assassinatos de LGBTQs no mundo.”

Groove lançou quatro singles de seu álbum de estréia, O Proceder, de 2017 e já está trabalhando no sucessor. O seu último single Bumbum de Ouro, atingiu o topo da parada viral do Spotify Brasil e o vídeo já foi assistido mais de seis milhões de vezes no Youtube em três semanas.

“Toda criança que é diferente e não-hetero já vivenciou bullying na escola”, conta a drag Lia Clark, que vivenciou isso em sua carreira. O seu primeiro single “Trava Trava” rapidamente atingiu o segundo lugar na parada viral do Spotify em 2016, quando foi lançado. Porém, o sucesso de “Boquetaxi” foi censurado pelo Youtube. A música foi considerada como restrita, depois de horas de seu lançamento. Após receber muitas reclamações, o vídeo foi retirado do ar. A plataforma se justificou dizendo que o vídeo era muito arisco para visualização geral.

Para Clark, a censura foi um ato claro de homofobia. “Se o meu foi bloqueado, então outros vídeos deveriam ser bloqueados também.”, comentou a cantora, sobre outras músicas de cantores héteros que também cantam funk com suas letras recheadas de sexualidade explícita, e algumas inclusive sobre misoginia e homofobia.

O poder da performer Linn Da Quebrada vai além do Youtube e das plataformas de stream. Linn é uma artista trans, multimídia, que faz um afro-funk experimental e que está, atualmente, durante uma turnê de sete cidades na Europa. Criada por uma mãe testemunha de Jeová, ela experimentou o sentimento anti-queer desde pequena, mas seu trabalho a ajudou a superar. Hoje, ela é uma ativista importante no Brasil, que usa sua aparência como “uma experimentação estética radical”, para promover o diálogo em sua música. “Uma das maiores potencialidades da arte é criar, usando eu mesma, minha existência, meus relacionamentos”.

Um documentário sobre sua vida, intitulado Bixa Travesty, estreou no Berlin International Film Festival este mês e, no ano passado, ela esteve em outro doc: Meu Corpo é Político, que mostra a experiência trans de quatro ativistas de São Paulo.

Um fã do Facebook definiu Linn como uma “terrorista do gênero, que usa seu corpo como política e sua vida como arte”. No qual, ela concorda com a afirmação. Como uma trans de cor,, ela sofre transfobia e racismo – especialmente “quando não sou Linn da Quebrada, só um corpo negro pervertido”.

Com seu trabalho revolucionário, sua sensibilidade e estética drag de poder, esta nova geração de artistas está usando sua visibilidade imprescindível para confrontar o machismo enraizado profundamente no Brasil. “Estamos fazendo um marco na história da música no Brasil e isso é muito legal”, diz Aretuza Lovi. “Eu quero que a música seja muito mais revolucionária do que ela já é”, finalizou a cantora.

A matéria original, em inglês, pode ser encontrada no site da Billboard.

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