"Bao": o curta da Pixar que antecede "Os Incríveis 2" está dividindo opiniões

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“Bao” é o novo curta-metragem da Pixar, que estreou no dia 28 de junho, junto com a sequência de “Os Incríveis”. O filme de 8 minutos demostra fofura e riqueza de cultura e vem trazendo controvérsias com sua narrativa. Dirigido por Domee Shi, a primeira mulher a dirigir um curta nos estúdios da Pixar, a história foi baseada em sua infância como uma filha de imigrantes chineses no Canadá.

O curta começa com uma mãe chinesa que mora em Toronto e possui a dificuldade de lidar com a solidão. Parece uma história como qualquer outra mas ao ganhar uma segunda chance como mãe, ela começa a criar um bolinho. O final de “Bao” é surpreende e provou ser uma das produções de animação mais merecedoras de uma longa discussão.

ATENÇÃO, SPOILER A PARTIR DAQUI!

Durante o filme, a mãe cria aquela criatura de forma harmoniosa e carinhosa. Bao, o bolinho, cresce, vira um adolescente e o distanciamento entre mãe e filho passa a fazer parte da rotina da família. Ao se tornar um adulto, ele sente a vontade de sair de casa e sua mãe se vê na dificuldade em aceitar a decisão de seu filho, e isso se torna um grande problema. Em um ato de desespero, a mãe come o bolinho.

Após o ocorrido, é possível entender que a relação da mãe com Bao se refere a um outro relacionamento em sua vida. Ela possui um outro filho, desta vez humano, que passou pelo mesmo problema. Ao fazer as pazes, ela passa a aceitar sua noiva e eles se tornam uma família.

Uma grande questão da narrativa foi o que a cena do “canibalismo” representava e acabou gerando uma grande controvérsia cultural pelas interpretações. Ao mesmo tempo em que uma mãe tinha o desejo de proteger seu filho e mantê-lo seguro, não havia um modo de protege-lo sem deixá-lo ir, e então ela entra nesse grande dilema.

A tradição familiar da cultura asiática

Sabendo que a diretora se baseou em sua vida, podemos concluir que essa cena representa uma eterna preocupação materna com seus filhos. A proteção é ainda maior quando se é de uma família asiática. Para alguns filhos de imigrantes, essa proteção excessiva é normal. Por exemplo, Petrana Radulovic, escritora do site Polygon e filha de chineses imigrantes, conta que quando estava na faculdade sua mãe enviava esses mesmos bolinhos para ela comer, para nunca esquecer de casa. Esse ambiente familiar e o carinho dado em forma de alimentação é algo culturalmente oriental. Nós, brasileiros, podemos entender um pouco sobre esse amor de mãe. Afinal, de forma geral, culturalmente, nossas mães também adoram servir bastante comida como demonstração de afeto.

Já Domee Shi, a diretora, contou ao site NPR que a ideia surgiu após sua mãe dizer que gostaria de coloca-la de volta em sua barriga. “Ah, eu queria que desse para colocar você de volta na minha barriga, assim eu saberia exatamente onde você está durante todo o tempo”, ela conta. Primeiramente, ela achou estranho mas depois compreendeu. É como quando a gente fala metaforicamente que quer colocar alguém em um potinho. É carinho e proteção, não pensamos que isso pode significar tirar a liberdade de alguém.

Por essa tradição cultural familiar ser tão forte, alguns asiáticos estão se debulhando em lágrimas após assistir no cinema. Enquanto isso, os ocidentais acham graça e não compreendem. Como tradição, nas comunidades asiáticas, os filhos devem ficar nas casas dos pais até casarem. Já para os ocidentais (principalmente norte-americanos), esse processo começa ao completar 18 anos de idade. Então para um asiático imigrante, é um choque de cultura que torna tudo ainda mais emotivo e passível de identificação.

Com reações mais diversas, é possível ver uma forte diferença entre quem entende “Bao”, e quem acha uma simples besteira.

Quando não entendemos alguma cena no final dos créditos da Marvel, por exemplo, corremos para o Google para tentar entender. Já quando não entendemos por um choque cultural, geralmente ignoramos (involuntariamente) e achamos graça. O curta mostra que o significado é muito mais profundo que uma risada. É respeito a uma cultura.

“Bao” pode se tornar um dos curtas mais aclamados. Para adultos ocidentais, ele pode ser fofo para alguns e para outros, bobo e infantil. Para adultos orientais, ele é emotivo e repleto de significado. Para crianças de todo mundo, é uma diversão e um alerta sobre crescer. Ou seja, dependendo do público, será compreendido de diferentes formas.

Metáfora ou “realidade”?

Quanto a historia do curta fica uma dúvida se é possível interpretar a vida de Bao como uma metáfora ou uma realidade (para a animação, claro). Para algumas pessoas, fica claro que Bao é um bolinho que existiu. Sua mãe o criou como segunda chance, já que seu filho humano havia a abandonado em um momento de sua vida. Para outras, o bolinho é apenas uma metáfora do que aconteceu com seu filho. Ou seja, Bao nunca existiu, foi apenas uma representação de uma história real.

A parte em que ela o engole, também pode ser interpretada como uma medida drástica e desesperada, já que ela não quer passar por isso novamente, ou porque realmente não sabe o que fazer. O uso de um alimento fofo pode ter sido escolhido justamente para nos apegarmos aquela criatura, diferentemente que rola com um personagem humano. É como se colocasse um filhote de cachorro para um golpe baixo. Ao mesmo tempo, quando se usa um alimento feito a mão, é uma demonstração de carinho e afeto físico, como se aquela mãe realmente tivesse o criado.

Bao pode ter sido uma metáfora para contar uma história “real” novamente ou um “abandono” cultural que aconteceu duas vezes na mesma casa.

A grande questão é que todas as mães passam pelo dilema de deixar seus filhos voarem com as próprias asas. A única forma de fugir disso é aprisionando e definitivamente, essa não é a melhor ideia. Por isso, o final mostra a importância da aceitação da nova fase. É deixar solto para voar sozinho.

O que você achou do curta-metragem e como o interpretou? Comenta que gostaríamos de ler diferentes opiniões!

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