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‘Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban’: o melhor livro da série?

Já há alguns meses, eu, fã de Harry Potter há uns bons 17 anos, escrevi aqui sobre minhas impressões ao reler – pela enésima vez – Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta: é incrível como, mesmo lendo de novo e de novo, os livros de J.K. Rowling sempre conseguem me fazer rir, me emocionar e surpreender com determinadas cenas e passagens. Cheguei agora a Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, e não foi diferente: na verdade, essa sensação foi ainda mais forte, já que esse é, desde sempre, meu livro favorito da série. E é também, na minha opinião, onde a história começa de verdade.

Não que os acontecimentos dos dois primeiros livros sejam desimportantes, ou totalmente desconectados do restante da narrativa: ao longo dos dois primeiros anos de Harry em Hogwarts, conhecemos elementos que serão de importância vital mais tarde, do diário de Tom Riddle ao Armário Sumidouro. E, claro, somos apresentados a personagens que vão nos acompanhar ao longo de toda a história, a cenários pelos quais vamos “passear” pelos próximos livros. Antes deles, afinal de contas, não sabíamos absolutamente nada sobre o mundo bruxo! Mas é inegável que as buscas pela Pedra Filosofal e pela Câmara Secreta parecem aventuras mais isoladas em comparação com o que se vê a partir do terceiro volume da saga: em O Prisioneiro de Azkaban, a história se torna um fio contínuo, com a revelação e fuga de Peter Pettigrew sendo a causa final do retorno de Voldemort em O Cálice de Fogo – um retorno que é, em si, o motor da trama a partir dali.

O Prisioneiro de Azkaban começa leve, no dia do aniversário de Harry – como já é tradicional -, e com aquelas desculpas para introduzir uma revisão básica dos fatos dos livros anteriores, que pode ser meio entediante para quem sabe a história de cor. Morremos de rir com a tentativa de Rony de telefonar para Harry, e ficamos felizes ao saber que os Weasley ganharam um prêmio na loteria – quem diria que o fato de Perebas aparecer no ombro de Rony na fotografia da família no Egito, impressa pelo Profeta Diário, seria tão relevante mais para frente…? É impossível não ficarmos animados quando Harry faz a Tia Marge inflar feito um balão (nós mesmos gostaríamos de ter feito isso, vai), ou não querermos passar com Harry aqueles agradáveis últimos dias de férias no Beco Diagonal, passeando por lojas cheias de artefatos interessantíssimos e tomando sorvete na Sorveteria Florian Fortescue.

Avistamos pela primeira vez o Nôitibus Andante; e ficamos sabendo (o que pensamos ser) a história do perigoso Sirius Black, a primeira pessoa da história a conseguir escapar de Azkaban, a prisão dos bruxos. Agora, olhando em retrospecto, é até curioso perceber como ficamos preocupados ao saber que Sirius aparentemente estava atrás de Harry para matá-lo – tanto pelo que depois descobrimos serem as verdadeiras intenções de Sirius, quanto, e talvez principalmente, pelas dezenas de ameaças piores que Harry vai enfrentar nos próximos quatro livros: o Harry de As Relíquias da Morte provavelmente não perderia sequer um segundo de sono ao saber que (mais) alguém queria matá-lo. E a risada insana que todos comentam que Sirius deu ao ser capturado entre suas treze “vítimas” na noite de seu “crime”? Agora sabemos que aquela risada não era alegria, não era crueldade: era puro desespero.

Aqui somos apresentados aos Dementadores, a perfeita metáfora de Rowling para os tormentos da depressão. E conhecemos Remus Lupin, único dos Marotos que não havia sido citado até agora – é claro, ainda não sabíamos quem ou o quê eram os Marotos. Lupin, bondoso, inteligente, competente e melancólico, é (juntos aos gêmeos Weasley e à Professora McGonagall) um dos meus personagens favoritos da série – e eu sempre gosto de vê-lo crescendo no conceito dos alunos e no coração de Harry, tanto quanto o melhor professor de Defesa Contra as Artes das Trevas retratado nos livros quanto como uma figura quase paterna (a cena da aula sobre o bicho-papão, em que Lupin encoraja Neville a agir, parece ainda mais significativa agora que sabemos como Neville cresce em maturidade e coragem a partir do momento em que participa da Armada de Dumbledore).

Talvez o Mapa do Maroto, também apresentado em O Prisioneiro de Azkaban, seja meu artefato favorito da saga, justamente por ser um elo inusitado entre os Marotos e os Gêmeos. E, embora eu ame a adaptação cinematográfica do terceiro livro de Harry Potter, é também em torno do Mapa e de seus criadores que está meu maior incômodo com esse filme: o fato de que Lupin não chega a explicar a Harry quem, afinal de contas, eram Moony, Wormtail, Padfoot e Prongs. Custava tanto assim? Uma cena de um minutinho teria resolvido esse detalhe – que, na verdade, de detalhe não tem nada.

E quanto ao Sinistro – visto por Harry pelas primeiras vezes na noite de sua fuga da Rua dos Alfeneiros e na capa de um livro sobre adivinhação na Floreios e Borrões? A paranoia a respeito desse suposto presságio de morte, mais tarde martelada pela Professora Trelawney (que também encontramos pela primeira vez em Prisioneiro de Azkaban) na cabeça de seus alunos, combinada com a forma animaga de Sirius Black (que ainda desconhecíamos – aliás, no início do terceiro livro sequer sabíamos o que diabos é um animago), é uma das jogadas mais interessantes de Rowling em toda a série. E quanto a Bichento e sua interminável perseguição a Perebas (que começava a ficar cada vez mais magro e sem pelos, dando sinais claros de estar bastante doente ou estressado)?

E quanto ao fato de Lupin ser um lobisomem, sutilmente indicado no bicho-papão do professor, no tema escolhido por Snape para sua aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, e também na misteriosa poção preparada pelo mestre de Poções para Lupin? Cada informação ganha proporções imensas mais para frente – e é só numa eventual releitura que percebemos há quanto tempo eles estavam ali, bem na nossa frente, dando pistas (que agora parecem óbvias) a respeito do que estava por vir.

Hermione Granger, Harry Potter, Ron Weasley, Scabbers

Também é em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban que Hagrid se torna professor de Trato das Criaturas Mágicas (algo que, confesso, me irrita um pouco, já que ele está longe de ser um professor assim tão competente – perdão, fãs do Hagrid). Bicuço e Sir Cadogan dão as caras pela primeira vez. Hogsmeade (e o Três Vassouras, a Dedosdemel, a Casa dos Gritos) aparece pela primeira vez. Harry descobre mais sobre a história de seus pais e seu próprio passado (mesmo que, de início, de maneira meio errônea), ao mesmo tempo em que começa a provar a si mesmo e ao mundo seu próprio potencial como combatente das Artes das Trevas e futuro Auror (conseguindo produzir o Patrono corpóreo aos 13 anos de idade), e enfrenta pela primeira vez a descrença do Ministério da Magia (que não acredita em seu relato sobre a inocência de Sirius e o fato de Pettigrew estar vivo).

E Hermione intriga todo mundo conseguindo dar conta de uma rotina de aulas aparentemente impossível (e ainda encontrando tempo para ajudar Hagrid no caso judicial de Bicuço): dificilmente conseguiríamos imaginar por conta própria a existência do Vira-Tempo, mas as pistas a respeito de uma trama envolvendo viagens no tempo estavam lá o tempo todo – e o tema consistiria em grande parte do gran finale do livro. Entre várias possibilidades já exploradas na literatura e no cinema, Rowling escolheu aquela em que os acontecimentos, independente do que se faça, sempre se repetem: Harry só salva a si mesmo do ataque dos Dementadores em volta do Lago porque anteriormente já havia sido salvo por si mesmo… E a escritora acabou admitindo que criar os Vira-Tempos foi um de seus maiores erros – depois disso, ficou difícil explicar por que os bruxos não podiam usar o artefato para corrigir qualquer infortúnio que aparecesse pela frente. Não à toa, Rowling destrói o “estoque” de Vira-Tempos durante a batalha no Departamento de Mistérios do Ministério da Magia, no final de A Ordem da Fênix.

E O Prisioneiro de Azkaban tem ainda um acontecimento que parece bobo diante de tantos desdobramentos importantes na trama principal, mas de que eu gosto muito: a vitória da Grifinória na Taça de Quadribol. O último ano de Oliver Wood como capitão merecia mesmo uma vitória – e, mesmo que não soubéssemos ainda, esta era também uma das últimas chances do próprio Harry: sem Campeonato de Quadribol em O Cálice de Fogo, e proibido de jogar ao longo de boa parte de A Ordem da Fênix, o protagonista fez bem em aproveitar ao máximo este ano do esporte bruxo mais famoso. E nós aproveitamos com ele: a descrição da partida final da Grifinória no campeonato é de fato emocionante – e sua vitória, mais ainda. É um bom respiro, um trecho mais leve e despretensioso, antes de mergulharmos nos tempos sombrios inaugurados por O Cálice de Fogo – mas isso fica para a próxima releitura.

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