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Pink Money: a falsa representatividade LGBTQ+

Nos últimos dias cada vez mais tem se levantado o debate sobre o uso do Pink Money. Para quem não sabe, a expressão foi criada pela comunidade LGBTQ para definir o dinheiro lucrado por apropriação da causa.

Durante muitos anos, ser da LGBTQ era visto como repúdio e motivo para boicote. Em tempos em que Pabllo Vittar, Anitta, Preta Gil e Gloria Groove comandam grandes festas e manifestações que celebram a diversidade, os tempos mudaram. As artistas que se tornaram portas-vozes da causa passaram fazer sucesso e isso abriu os olhos de muitos outros que apenas surfam com a maré.

Dois grandes exemplos da semana são Nego do Borel e Jojo Marontinni, mais conhecida como Jojo Toddynho.

Veja também: 16 filmes com temática LGBTQ+ para curar qualquer preconceito.

Nego do Borel

O primeiro lançou na última segunda-feira (9) o videoclipe de “Me Solta”. Com uma tentativa de ser politicamente correto, o funkeiro acabou levando tudo por água a baixo. Nego apresentou sua personagem de mau gosto, Nega da Borelli. O cantor afirmou que seus amigos mais próximos já a conheciam, o que piora a história e nos faz compreender que a sátira existe há muito tempo.

Um homem cis hétero que veste-se para fazer uma sátira de um gay afeminado ou alguém que se identifica como mulher é definitivamente uma piada sem graça e infeliz. Além de firmar estereótipos, ele mostra que ser uma pessoa com tais características é digno de ser levado como uma piada. Como se já não bastasse por aí, ele ainda mostrou apoio a um candidato à presidência homofóbico, que não vamos citar o nome. Ou seja, além de não ajudar a causa, ele faz piadas e ainda apoia um grande porta-voz da homofobia.

O pior de tudo é que ao se pronunciar sobre o assunto, até então não foi feito um pedido de desculpas aos que se sentiram ofendidos. Ao contrário, sua atitude foi justificada em um ato desesperado de amenizar a situação.

“Quis mostrar que as pessoas podem se soltar, beijar, transar, amar quem elas quiserem. Quando eu decidi fazer esse clipe, sabia que poderia ser algo polêmico, mas fui em frente. A Nega da Borelli é uma personagem que, pra mim, representa a liberdade de ser quem eu sou. Eu gosto da diversidade, o clipe é exatamente um reflexo da favela, ela tem uma diversidade enorme. Chamei gente que vi na internet pra participar, a galera lá do Borel também.”, revelou Nego do Borel ao Jornal Extra.

Não há desculpa. Ele mesmo admitiu que estaria criando polêmica. Até mesmo Anitta, sua melhor amiga, acabou comentando o assunto e avisou que havia dado um toque ao colega.

Jojo Marontinni

Conhecida como Jojo Toddynho, desde “Que Tiro Foi Esse”, a cantora se apropriou da causa com uma composição voltada ao público LGBTQ usando expressões como “arraso” e “samba na cara das inimigas”. Há alguns dias, ela gravou um novo clipe, “Arrasou, Viado”. Com a letra composta por Anitta, o clipe da faixa foi gravado em uma boate gay de São Paulo e contou com convidados como David Brazil, Thammy Miranda, Dimmy Kier e Rita Cadillac. É aquilo: junte todos os estereótipos gays em uma batedeira com uma pitada de gírias bem humoradas e faça mais um hino gay para sustentar sua carreira, certo?

Até aí, a gente relevaria, se a intérprete não tivesse se apropriando de uma causa que não se identifica, sem ao menos lutar por ela. Há poucos meses, em suas redes sociais, Jojo utilizou o termo “baitola” para ofender um seguidor.

Nunca houve uma retratação ou pedido de desculpas por parte da artista.

Nesta terça-feira (10), ela já lançou a capa do single e não poderíamos esperar algo diferente. Mais uma vez ela resolveu utilizar a causa a seu favor.

[Atualização]

O clipe realmente era tudo o que esperávamos, “closes”, “tiros” e um grito de respeito ao final. A própria funkeira passou a falar sobre Pink Money de uma forma bem contraditória.

Claudia Leitte

É fato que ninguém nasce desconstruído e que o mundo instrui a sermos homofóbicos e preconceituosos, por isso vale citar o caso de Claudia Leitte. Não adianta pegarmos apenas tweets ou entrevistas antigas para justificar um erro, mas errar com frequência no presente é um motivo para a desconfiança do passado. Em entrevista ao TV Fama, em 2008, ao ser entrevistada pela repórter Léo Áquila, a cantora disse que não gostaria que seu filho fosse gay, e que ele deveria ser macho.

Veja também: 10 desenhos infantis com personagens LGBT.

Depois de muito tempo, em 2015, em entrevista para Hugo Gloss, ela chegou a se retratar pelo comentário.

“Eu tinha 26 anos quando fiquei grávida e era uma menina. Eu acho que as meninas de hoje são muito mais evoluídas. Você não tem muita noção do que vai acontecer com o que vai dizer. Eu sou muito espontânea e era uma brincadeira. De lá para cá eu aprendi a me posicionar e sei que há assuntos que não podem ser tratados como brincadeira ainda que lhe induzam a brincar. Faz parte do aprendizado. Meu filho hoje está com seis anos e só me importo com a hombridade, com o caráter dele. Que Deus faça dele o que ele quiser e eu serei feliz com qualquer caminho que ele venha tomar”

Em entrevista a um blog do Correio 24 horas, em 2016, ao falar do assunto, ela também afirmou:

“Mas eu já estive aí porque eu fui uma menina, mas hoje eu sou uma mulher convicta dos meus valores e dos meus princípios. É claro que eu sou um ser humano, eu cometo erros, eu sou uma pessoa que expõe o que sente com muita facilidade no olhar ou falando. Então é óbvio que algumas coisas vão ser deturpadas. Eu sou uma pessoa pública e não vou ser uma pessoa perfeita em tudo que eu falar e em tudo que eu fizer”

Já no ano passado (2017), ela fez uma declaração estereotipada e infeliz em relação aos gays associando homossexualidade com felicidade.

Eu amo o público gay e sou uma pessoa que tem necessidade de tê-los por perto, me cercando, porque eles são enérgicos, alegres, como meu público é. Então, eu não posso viver sem eles. Não posso fazer uma dissociação. Quando eu vejo a massa lá de cima, eu vejo gente feliz. E gay é feliz. Sou uma representante, e se quiserem me aceitar, sempre serei, disse ela.

Além do estereótipo, a declaração foi um desfavor ao público que tanto luta para quebrar essa padronização de “amigo gay”, que tanto se tornou o sonho de consumo das mulheres héteros quando lhes é conveniente.

[Atualização]

Anitta e Ludmilla

Recentemente, as duas maiores estrelas pop meteram os pés pelas mãos, o que fez a comunidade LGBTQ se decepcionar com as duas divas.

Para saber melhor sobre essa história, clique aqui, pois temos um post inteirinho dedicado ao assunto.

Esses foram apenas alguns dos exemplos de artistas que se apropriam da causa para o lucro e acabam dando tiro no pé.

Não é necessário ser um artista porta-voz da comunidade LGBTQ, se não for o objetivo. Caso isso aconteça, é importante uma pesquisa e todo cuidado é pouco para não acabar ofendendo as pessoas que tanto precisam de um ídolo para se sentir representado. A falta de representatividade é algo que sempre foi realidade nas minorias. Hoje em dia, o mercado está colorido. Não adianta vir com a frase “qualquer representatividade é válida” pois não é mais uma verdade. Não adianta mais apenas ser não-homofóbico. É preciso ser anti-homofóbico.

Veja também: Depoimentos mostram o que é ser LGBTQ+ no Brasil.

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