500 Dias Com Ela mostra Novas Formas de Amar

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O filme “500 Dias Com Ela” conta a história de “um garoto que conhece uma garota mas essa não é uma história de amor”, palavras ditas pelo narrador aos espectadores logo no inicio. Eles se conheceram no trabalho, uma empresa que cria cartões celebrativos. Tom se apaixona à primeira vista pela nova funcionária da companhia, Summer, e faz de tudo para conquistá-la.

A ordem do gênero comédia romântica é invertida. Ele demonstra estar a todo momento buscando por um relacionamento idealizado para se sentir completo. Em contraponto ela, uma mulher empoderada, que sabe bem o que deseja, onde e quando quer desde o princípio, e sem dúvidas não fantasia que acredita ser o amor.

Farei aqui uma análise, através de Regina Navarro Lins, psicanalista e autora brasileira do livro “Novas Formas de Amar”. Para assim, podermos refletir um pouco sobre as relações e principalmente o amor. Até que ponto ele é uma construção social e cultural?

É nítido perceber que os personagens têm pensamentos opostos no significado do que é “amor”. Tom acredita no amor romântico idealizado do “felizes para sempre”, diferente de Summer, que vive a vida sem se preocupar com rótulos e relacionamentos duradouros. Nove anos após sair das telonas, a obra cinematográfica se torna cada vez mais atual. É possível perceber seu efeito no dia a dia, fazendo o telespectador refletir e ressignificar sua identificação com os personagens. Estaríamos nós passando a sermos menos Tom para nos tornarmos mais Summer?

Regina Navarro Lins acredita que sim. Ela diz que em um futuro próximo, nós buscaremos relações mais abertas, com menos expectativas e cobranças, exatamente o contrário que o personagem principal faz. A psicanalista revela que isso é intrínseco da nossa sociedade ocidental, que todos nós fomos ensinados a desejar uma paixão, mesmo sem saber nada do outro. Um amor idealizado, reforçado pelo mito hollywoodiano e das historias infantis onde príncipe e princesa uma vez juntos viverão felizes para sempre.

Através dos olhos azuis da personagem inconstante, podemos aferir certos aspectos. Para ela, sua não-necessidade de um relacionamento estável, e a busca por algo casual, sem compromissos, vem da não-necessidade de se enquadrar em um padrão. Da busca pela sua individualidade, a qual cada vez mais nossa sociedade carece.

A autora de “Novas Formas de Amar” diz “estamos empenhados em observar o outro de acordo com a imagem que muitas vezes é a criação de nossa imaginação” ao falar das frustrações. Sem dúvidas esse é um dos maiores medos do apaixonado durante todo o filme – a incerteza. A incerteza de não ser correspondido, da durabilidade, de não ser suficiente. Logo, ele cria uma imagem deturpada da amada. Algo que para a autora do livro deve ser desvencilhado da naturalidade das relações, pois as emoções estão ligadas a uma certa dose de insegurança. Dessa forma, ela gera um outro sentimento em Tom, a tentativa de domina-la, e isso muitas vezes acaba com a vivacidade. A intensidade diminui e sem um componente de incerteza, o desejo se esvai. “Amar é ausência de garantias”, lembra Regina.

O discurso de autonomia de Summer pode ser percebido claramente nas conversas onde Tom a questiona sobre suas antigas relações amorosas e ela nomeia seus variados relacionamentos que terminaram sem motivos aparentes.

Ela os trata de forma natural e não-fantasiosos. Desde cedo somos levados a crer que a vida só tem graça se encontrarmos um grande amor, mas para a personagem principal não. Ela aproveita o prazer do momento, enquanto está satisfatório para ambos. “A brevidade das relações não é um crime, como a persistência nem sempre é uma virtude”, cita a psicanalista.

A obra mostra os 500 dias (aproximadamente um ano e cinco meses) de forma não-linear. A paixão de Tom por sua idealização de relacionamento perfeito, onde os dois possuíam gostos relativamente parecidos, se divertiam juntos, iam ao cinema, karaokê… Uma construção do que era o ideal para se obter felicidade no amor, almas gêmeas. Quem nunca achou o mesmo, não é?

Entretanto, não esperava que chegasse um momento em que Summer ficasse desinteressada. Ela enjoa da relação. E isso é completamente comum. As relações são complexas! Talvez fosse preciso um pouco mais de autonomia por parte dele. Essa é uma das maiores necessidades em termos de desenvolvimento do ser humano. Ele estava depositando nela suas próprias necessidades individuais.

Ao perceber que estava prestes a ficar sozinho, Tom se sente inseguro, tentando reerguer a relação. Ele começa a fazer de tudo para agradar e controlar Summer, chegando até a agredir um homem que estava a tratando mal na tentativa de ajudá-la. A situação só piora! Ela se sente sufocada, a confiança é perdida, e cada vez mais o barco do relacionamento dos dois afunda. Até que finalmente a garota resolve dar um ponto final e partir para uma próxima ao tempo que o garoto se afoga cada vez mais nas expectativas que ele mesmo construiu.

Tom cria em Summer uma relação de dependência emocional, onde existia a busca de algo que lhe faltava. Isso acaba gerando nele uma ansiedade e insegurança constantes que levaram ao controle excessivo e a criação de expectativas. Aquela comum ilusão de ter encontrado a “pessoa certa”. Porém Summer em momento algum possui a obrigatoriedade de cumprir com este papel idealizado. Ela desejava viver plenamente sua liberdade que era algo importante para ela em seus vínculos amorosos.

Meses se passam e ele permanece perdidamente apaixonado por ela, até que os dois se reencontram e ela o chama para uma festa. É lá que percebemos com clareza o amor romântico. Um imaginário que independe do tempo, sempre permanecerá vivo na mente de Tom. Nessa cena abaixo, podemos ver sua angústia por não ser percebido e o sentimento de solidão vivido pelo protagonista. Isso acaba afetando sua autoestima, levando a uma dúvida sobre suas próprias qualidades, como se a partida de sua amada tivesse o arrancado um pedaço fora. Parafraseando Roberto Freire, “permanecer numa relação sem amor é mais grave que um sacrifício inútil. Trata-se da crueldade deliberada para com o parceiro e contra si mesmo”.

Muitos são Tom em uma sociedade cheia de Summer. Porém, é possível que essa realidade romantizada não permaneça por muito tempo em uma modernidade que necessita de mais liberdade e busca sua onde a grande viagem do ser humano é para dentro de si, devemos nos libertar das amarras sociais que ditam como se deve amar, diz Regina.

Como o narrador diz, realmente não é uma história de amor que estamos habituados a ver, mas há um consenso de que sim existia amor.

Um deles idealiza que uma relação amorosa nos completa por inteiro. Prega que dois se tornem um, assim como construído no Ocidente no século XX. Que se reinventa conforme as necessidades, uma fonte de frustração e fantasia. Já o outro, propõe que abrace sua insegurança, sendo ela de sua própria responsabilidade. Consciente da importância de se amar antes do outro. Sabendo que não existe complementação absoluta em uma relação, e que não é saudável projetar suas expectativas no próximo. Onde frases como “cada um terá suas necessidades atendidas pelo outro” estão fora da realidade. Cabe a nós como indivíduos nos questionarmos qual dessas formas é a que melhor para nos trazer felicidade. Você é mais Summer ou Tom?

Regina Navarro Lins, consultora do programa Amor & Sexo, ex-professora de psicologia da PUC-RJ, lançou seu 12º livro “Novas Formas de Amar” (2017) com o objetivo de discorrer sobre as transformações nos relacionamentos amorosos.

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