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‘A Freira’ é um marco para o universo ‘Invocação do Mal’ que começa a ser construído

Antes de começar o texto, é bom avisar: ELE É CHEIO DE SPOILERS – todos os importantes, basicamente. Em segundo lugar, é preciso dizer que minha expectativa pode ter ajudado no fato de eu ter achado A Freira (The Nun) uma experiência cinematográfica positiva – no caso, expectativa ruim. Fui para o cinema pensando, de antemão, que não gostaria do filme: pelos trailers, o longa me parecia exatamente o tipo de filme de terror que normalmente não me agrada, focado nos famosos jump scares, aqueles sustos causados por elementos que aparecem de forma repentina, geralmente sumindo logo depois.

O demônio Valak, de 'Invocação do Mal' e 'A Freira'

Meus filmes de terror favoritos são aqueles mais sutis, como Os Outros ou O Orfanato – ou o próprio Invocação do Mal, o primeiro, que originou toda a franquia que finalmente veio dar em A Freira: prefiro quando o espírito, o monstro, o demônio, demora a dar as caras. Sinto muito mais medo quando minha imaginação precisa ser responsável por tentar criar explicações para o que diabos está acontecendo na história.

E A Freira é, de fato, lotado de jump scares – alguns dos quais chegam a se repetir. Sabe quando o personagem avista o demônio (ou espírito, ou monstro, ou serial killer, ou qualquer outra coisa assustadora), olha para outro lugar por um momento, e, quando volta a olhar, o demônio não está mais lá – e aí reaparece bem atrás do personagem? Prepare-se para ver essa cena três ou quatro vezes. E a tal freira – na verdade, o demônio Valak, velho conhecido para quem assistiu Invocação do Mal 2 – é bem mostrado desde o prólogo, ou seja, o suspense nesse sentido é zero: você sabe que ele está lá, sabe que cara ele tem, e começa a entender até os “procedimentos” do maldito (como o hábito de aparecer no final de corredores escuros ou se esgueirar lentamente atrás dos protagonistas, que não percebem que o outro está bem ali, logo atrás deles).

Mas um dos pontos fortes de A Freira é a ambientação: a história se passa quase toda em uma sinistra abadia na Romênia, onde as freiras vivem em regime de reclusão – quase todas as cenas são tremendamente escuras, criando um ambiente que daria medo mesmo se não soubéssemos que Valak está à espreita. Isso para não mencionar o cemitério lotado que a circunda (cujas dezenas de cruzes plantadas no solo fazem o personagem Frenchie afirmar que acha que os objetos não servem para manter o mal afastado do castelo – e sim, para manter contido o mal que há dentro do castelo) e o corredor com a mórbida frase “Deus acaba aqui”. É para este ambiente que a noviça Irene e o Padre Burke são enviados pelo Vaticano, para investigar o suicídio de uma freira chamada Victoria, cujo cadáver foi encontrado pelo fazendeiro Frenchie – que, claro, também acaba irremediavelmente envolvido nos acontecimentos.

Irene (Taissa Farmiga), a protagonista de 'A Freira'

E o outro ponto forte é, sim, a história. Deixe-me explicar: o plot conta que Valak foi originalmente invocado por um membro da nobreza que, há muitos séculos, cultuava o satanismo – e posteriormente contido pelo uso de uma relíquia com o sangue de Jesus Cristo, que selou o portal aberto pelos ritos profanos. As freiras da abadia permaneciam em “devoção perpétua”, ou seja, no mínimo uma delas estava sempre em oração, para manter o mal afastado: a abadia era, em si, uma espécie de fortaleza contra Valak. Mas as bombas da Segunda Guerra Mundial abalaram a estrutura, reabrindo o portal que permitia que Valak entrasse em nosso universo – e, uma a uma, o demônio passou a tomar e matar as freiras, procurando alguma a quem possuir definitivamente, para sair do castelo e espalhar sua maldade pelo mundo.

Não há nada de particularmente original ou brilhante nessa trama – a parte sobre a relíquia com o sangue de Cristo chega a soar meio absurda. Mas o interessante é perceber que a franquia Invocação do Mal está fazendo algo praticamente inédito nos filmes de terror: juntando todos os filmes da série na mesma mitologia, na mesma história; sem que um seja, necessariamente, a continuação do outro. É algo que os filmes de super-herói, por exemplo, já fazem há tempos.

Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga), em 'Invocação do Mal 2'.

Aqui temos a “história de origem” de Valak; ou pelo menos de como ele finalmente conseguiu voltar ao mundo dos mortais e, mais tarde, chegar às vidas de Ed e Lorraine Warren: no final, descobrimos que Frenchie é Maurice Theriault, o homem possuído cuja história (inspirada em fatos reais) é contada em uma apresentação feita pelos Warren no começo do primeiro Invocação do Mal – sim, é por meio de Frenchie que Valak enfim consuma seu objetivo de escapar da abadia. É durante o exorcismo de Theriault que Lorraine tem uma terrível visão a respeito de Valak, a ponto de o casal pensar em abandonar suas investigações a respeito do sobrenatural – e é a partir daí que o demônio passa a atormentar os dois, que finalmente o mandam de volta para o inferno em Invocação do Mal 2.

E lembra-se de Charlotte, a freira de Annabelle: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, a “história de origem” da boneca Annabelle, que serve como prólogo para Invocação do Mal)? Em determinado momento do filme, ela mostra uma foto onde aparece um grupo de freiras, explicando que passou um tempo “em um monastério na Romênia”. Charlotte consegue apontar as mulheres e falar seus nomes, mas não se lembra do nome da freira misteriosa que aparece mais no canto da imagem, quase oculta nas sombras, de tão escuro que seu rosto ficou na fotografia – olá de novo, Valak. Outra cópia da fotografia aparece em A Freira, pendurada na parede de um quarto que Irene ocupa enquanto está na abadia. O que Charlotte pensaria se pudesse saber que, em 1952, todas as freiras que conheceu seriam mortas por aquele demônio…?

Cena de 'Annabelle: Creation'.

Agora fica a questão: o primeiro Invocação do Mal se passa no final dos anos 1960, e o segundo, no final dos anos 1970 – o que quer dizer que Valak teve vinte anos para circular pelo mundo, antes de finalmente ser derrotado pelos Warren. Não parece improvável que outros filmes sobre o mesmo personagem acabem sendo produzidos, narrando o que aconteceu ao longo dessas duas décadas – ainda mais considerando-se o sucesso de bilheterias que A Freira já se tornou.

Muitos fãs apostam também que ainda descobriremos alguma ligação entre Lorraine e Irene: as duas personagens têm o dom da visão, o que, combinado ao fato de que, na vida real, as atrizes que as interpretam (respectivamente, Vera e Tassia Farmiga) são irmãs, fez muita gente chegar a pensar que se tratava da mesma personagem. E, como Invocação do Mal tem se mostrado uma série não-linear, quem garante que no terceiro filme focado especificamente nos Warren não poderemos saber mais a respeito disso?

Com seus erros e acertos, A Freira me deixou mais otimista a respeito de The Crooked Man, spin-off sobre o tal “homem torto” de Invocação do Mal 2 que está atualmente em produção. Será que o “homem torto” será um personagem novo? Ou voltaremos a nos encontrar com Valak? Seja como for, Invocação do Mal provou que ainda tem potencial para contar muitas histórias – e render muitos outros sustos.

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