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Anitta, Ludmilla, o pop e as vozes que precisam ser usadas

Para ser sincero, esse texto seria escrito há uns três dias mas acabei desistindo. Com as polêmicas do dia, resolvi retomar a pauta e tentar explicar o tiro pela culatra dado por Anitta recentemente.

O texto falaria da ausência de posicionamento dos artistas brasileiros diante o caos que acontece na política brasileira. Mas vamos contextualizar primeiro para tudo fazer sentido.

Desde meados de 2010, o movimento do orgulho gay tem sido atrelado à nova frente do pop brasileiro. Artistas passaram a abraçar a causa, e conforme foi percebido um potencial mercado consumidor desse meio, ele começou a ser um negócio bastante lucrativo.

Com o surgimento de Anitta, Pabllo Vittar, Ludmilla, Gloria Groove, Jojo Marontinni, Aretuza Lovi, Lia Clark, Pepita e muitos outros, a música pop brasileira tomou uma nova forma até os dias atuais.

Ao mesmo tempo em que isso acontecia, um candidato em particular ganhou forças na corrida presidencial com discursos machistas, homofóbicos e racistas, e isso tem polarizado o país. O víes conservador dos eleitores deste indivíduo preocupa diversas minorias, incluindo os LGBTQs.

Com essa bipolarização, foi possível ver cada vez mais quem estava interessado em apenas lucrar, com o chamado pink money, e quem realmente estava disposto a carregar a bandeira da diversidade.

Essa falsa representatividade começou a colocar o próprio público em dúvida sobre seus ídolos, já que alguns começaram a mostrar um outro lado.

Posicionamento Político

Para começo de conversa, não, não é obrigatório se posicionar politicamente, mesmo que você seja artista. Ser artista significa distribuir sua arte, seja ela política ou não. A questão é que se você lucra a partir dessas pautas políticas e sociais, você deve uma satisfação ao seu público sim. A não ser, claro, que você queira atrelar sua imagem à hipocrisia.

Se o artista quer transparecer coerência entre seu discurso e trabalho, como ele pode se omitir em situações de caos sobre tudo aquilo que acredita?

Ninguém pediu para esses artistas anunciarem seu voto. Lembrando que o voto é secreto!

Posicionamento Moral

Se posicionar contra o discurso de ódio, é uma questão de bom senso. Pensar que gays, mulheres, negros, índios e qualquer outra minoria possui direitos iguais não é uma questão política, e sim de moral e ética.

O que é exigido por este público é apenas uma moeda de troca. Se você quer ser nomeada a “rainha dos gays”, então faça por merecer o seu posto. Afinal, quais súditos querem uma rainha que se omite?

Em uma situação de opressão, se você escolhe se omitir, automaticamente você está escolhendo o lado do opressor. Atualmente é necessário ser antihomofóbico.

Anitta

Após alguns meses sendo cobrada por um posicionamento, a cantora chegou a uma situação insustentável. Ao seguir uma amiga abertamente apoiadora de um discurso de ódio, principalmente crítica ao feminismo, Anitta foi questionada sobre seu descaso em relação a esta questão.

De acordo com os fãs, membros próximos da cantora são eleitores deste candidato e sua omissão nas redes sociais até o momento seria uma falta de respeito com quem a colocou no topo. Inclusive, seus melhores amigos são Nego do Borel e Jojo, já citados aqui por levantar a bandeira de maneira duvidosa.

Leia mais sobre: Pink Money – A falsa representatividade LGBTQ+

Nem é preciso muito estudo para saber que a carreira de Larissa Machado foi construída a partir de discursos feministas e luta a favor da diversidade. Foram inúmeras vezes em que ela literalmente vestiu a bandeira LGBTQ e comandou manifestações gays.

Enquanto as redes sociais gritavam com o movimento “Ele Não”, nos últimos dias, suas redes – que são altamente atualizadas – pareciam ignorar a pauta que tinha como princípios a luta contra o machismo, homofobia e racismo.

Se um dia ela levantou a bandeira (e é inegável que ela ajudou bastante no movimento), quando esse público precisou dela, pareceu esquecido.

Comercialmente, a falta de voz da cantora é definitivamente uma ideia apaziguadora de boa vizinhança com os dois públicos. É querer se omitir para não se indispor com ninguém.

Assim como aconteceu com a polêmica de Marielle Franco, vereadora executada no começo do ano, ela deixou de se posicionar com medo de se indispor politicamente. O que ela ainda não entendeu, é que dar voz a minoria que sofre represália e faz parte de sua fanbase não é política.

Não, ela não tinha obrigação, mas a insatisfação de seus fãs causou todo um caos nas redes sociais o que a obrigou a colocar a cara tapa. De forma não muito convincente, ela acabou fazendo uns stories continuando em cima do muro e afirmando que respeitava “todas as opiniões” e não iria odiar ninguém por isso. Foi a gota d’água para seus fãs.

Mais tarde, ela acabou resolvendo se pronunciar de uma forma mais convincente, o que deveria ter feito há meses.

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Essa sou eu. Eu sou contra a violência, contra a discriminação de qualquer espécie. Sou contra o ódio e a intolerância. Sou a favor da igualdade de gênero, contra a homofobia e o racismo. Defendo a liberdade do outro de decidir o que fazer com seu corpo. Através da minha arte tento contribuir com o que posso para vivermos num mundo melhor e mais igualitário. Anos de trabalho na minha carreira de cantora em que apoiei de diversas maneiras as idéias que acredito não vão ser apagados por não querer me envolver com política, pelo menos não para mim. Eu sou brasileira e quero que nosso país melhore assim como cada um de vocês. Eu nasci pobre e com muito esforço tenho conquistado meu caminho. Sofri por ser funkeira, favelada e ainda sofro por ser mulher. Eu não queria sofrer ainda mais com tanto ódio e ataques. Vivemos tempos difíceis e é esse o meu desejo. Qualquer coisa diferente do que citei acima não tem meu apoio, obviamente. Respeitem o próximo e suas decisões. Isso sim vai ajudar a sermos uma sociedade tolerante. Nós somos esse país.

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Pop Internacional

Fazendo uma breve comparação, não muito longe da realidade. O pop norte-americano, aquele que serve de inspiração para o brasileiro, já passou por uma situação parecida.

Em 2016, durante as eleições entre Hilary Clinton e Donald Trump, diversas artistas pop como Rihanna, Beyoncé, Madonna, Miley Cyrus, Lady Gaga e Ariana Grande anunciaram apoio à candidatura de Hilary. Não era uma questão apenas política mas Trump tinha um programa de governo todo ligado ao preconceito e era um extremismo repleto de ódio.

Claro que sempre existem os foras da curva como Kanye West, mas isso acontece em qualquer lugar do mundo.

Tudo bem que as eleições norte-americanas funcionam de forma diferente, e isso apenas confirma que é uma questão de direitos humanos.

Lembrando que Katy Perry, quando veio ao Rio de Janeiro no início deste ano, fez uma homenagem a Marielle Franco. Basta assistir ao vídeo para entender que é muito mais do que apenas um voto na urna. É sobre resistência e respeito.

Ludmilla

Ludmilla também passou por uma polêmica parecida recentemente. Mesmo rompendo sua parceria com um estilista que apoiou publicamente o candidato em questão, ela resolveu se pronunciar sobre a questão.

“Eu não tenho nada a ver com quem a pessoa vai votar. Eu não falo sobre política. Se você entra no meu Instagram para saber qual é o meu trabalho e admira meus looks, você é muito bem-vindo. Se você está no meu Instagram para falar de política, está no meu lugar errado.”, ela declarou.

Ironicamente, ou não, ela termina dizendo para o povo ir conferir seu novo trabalho. Ou seja, que o lucro seja interessante, mas o posicionamento diante à questão não.

Pop Nacional

Não vamos apenas falar de quem não é exemplo. Recentemente, algumas artistas mostraram como ter senso crítico, político, lutar pelos seus fãs sem fazer propaganda para nenhum candidato.

Pabllo Vittar sempre se posiciona sobre essa questão. Diferente de Ludmilla, resolveu deixar claro que não usará mais roupas produzidas pelo estilista anteriormente citado.

Pabllo sabe o que diz porque é vítima de LGBTQfobia todos os dias.

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#elenao #elenunca #elejamais

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Iza também mostrou empatia ao seu público e tudo que representa. Mulher, negra e periférica, ela tem um discurso coerente e obviamente não poderia deixar de citar sobre o assunto. Lembrando que em nenhum momento citou seu voto.

Além de claro, Preta Gil, Gloria Groove, Mc Carol, Karol Conka e muitas outras que se posicionam diariamente. Se Anitta e Ludmilla foram questionadas sobre sua voz, é porque as omitiram em um momento importante.

Não é sobre política, é sobre uma voz que precisa ser usada.

As vozes do pop nacional ainda não entenderam sua importância. Quando o artista é porta-voz de uma causa, ele traz muitas responsabilidades com isso. Se posicionar contra o preconceito, o machismo, o ódio é uma questão de civilidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, as divas pop já entenderam que arte é algo para refletir o seu tempo. Aqui, ainda estão muito mais preocupados com o lucro (monetário ou não) e com a polidez da imagem.

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