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‘Harry Potter e o Cálice de Fogo’ é uma falácia – e ainda assim é um livro muito interessante

Já vou falar logo de cara: Harry Potter e o Cálice de Fogo é, ao lado de Harry Potter e a Câmara Secreta, o livro da série de que eu menos gosto. Mas, ao contrário de A Câmara Secreta, que eu acho mesmo meio chatinho, eu acho O Cálice de Fogo bem divertido: tem bastante ação, tem informações inéditas sobre o mundo bruxo (que eu sempre amei descobrir, talvez até mais do que os segredos sobre a vida de Harry e a trama principal), tem personagens novos e incríveis, tem as primeiras cenas mais concretas do ship Rony/Hermione (sim, sempre torci por eles).

Então por que eu digo que esse volume é um dos que eu menos gosto na saga? Porque, bom, ele não me compra. A parte principal do livro (que sustenta todo o resto) me parece uma grande falácia. E aí eu não consigo levar a coisa muito a sério.

Vamos lá: a trama principal de Harry Potter e o Cálice de Fogo se estrutura em volta do fato de que Voldemort está retornando – e de que ele precisa do sangue de Harry para o ritual que vai permitir que ele volte à sua plena forma e a seus plenos poderes. É essa a importância da fuga de Barty Crouch Jr da vigilância de seu pai – e sua posterior colocação em Hogwarts como professor, disfarçado, graças à Poção Polissuco, como Alastor Moody, o “Olho-Tonto”, um dos maiores aurores que já existiu (e que, saberemos mais para o final, passa boa parte do livro trancado inconsciente em um baú). É por isso que Harry, mesmo abaixo da idade permitida, torna-se um dos competidores do Torneio Tribruxo (tendo tido seu nome colocado no Cálice de Fogo por Moody/Crouch Jr); é por isso que ele ganha dicas de como passar pelas tarefas e tem seu caminho facilitado até o desafio final (novamente com a ajuda direta ou indireta de Moody/Crouch); é por isso que os outros competidores são atacados ou sabotados no labirinto da terceira tarefa (vocês já sabem por quem): tudo para que Harry chegue primeiro à Taça do Torneio Tribruxo, devidamente transformada em uma Chave de Portal, e seja transportado até onde Voldemort está prestes a ressurgir e reunir novamente os seus Comensais da Morte.

Eu sei que parece heresia criticar alguma coisa nas tramas criadas por J.K. Rowling. Mas, depois de ler o quarto livro algumas vezes, eu passei a me perguntar: pra que tudo isso??? Barty Crouch Jr não podia simplesmente ter transformado qualquer objeto em uma Chave de Portal? A qualquer momento? Ele tem diversas cenas a sós com Harry ao longo do livro – não podia simplesmente ter transformado uma xícara de chá em Chave de Portal, e oferecido ao menino? Ou uma bola de borracha – jogado para Harry, gritado “pensa rápido, Harry!” e pluft, o protagonista seria transportado ao agarrar o objeto no ar?

Piadas à parte, eu sei que Rowling já deu suas explicações a respeito algumas vezes: precisava ser no momento certo, quando Voldemort estaria pronto para passar pelo ritual e voltar ao poder. Mais que isso: Voldemort gosta de um espetáculo – e que melhor maneira e momento de retornar do que quando o mundo bruxo estava de olhos postos em Hogwarts, em Dumbledore e em Harry? Que jeito melhor de demonstrar sua vitória, sua óbvia superioridade…?

Está bem, vai – mas isso me parece uma justificativa inventada depois, não a real razão para as coisas terem acontecido como aconteceram. Com perdão da palavra: uma desculpinha. Todo o circo criado em torno do objetivo e acontecimento principal do livro, do clímax da história, é meio vazio. Meio exagerado, em comparação com o que poderia ou deveria ser em uma outra narrativa. O que me faz dar muito menos pontos a esse volume do que a qualquer outro da série.

Mas, claro, O Cálice de Fogo tem seus pontos fortes – e muitos. Como eu comentei lá em cima, uma das coisas que eu mais gosto em Harry Potter é a construção que Rowling faz da sociedade bruxa em si: suas histórias, hábitos, profissões, esportes, cultura, instituições, comemorações, culinária. E o quarto livro é um dos que mais adiciona detalhes a essa construção – a começar pela Copa Mundial de Quadribol, logo no começo da história. Mais tarde, Rowling escreveria toneladas de informações a respeito no site Pottermore; inclusive fazendo uma “cobertura ao vivo” da 427ª edição do evento, realizada em 2014.

E, óbvio, o principal: o Torneio Tribruxo em si. Como diabos nunca havíamos nos perguntado sobre a existência de outras escolas bruxas além de Hogwarts?! Foi incrível saber da existência de Beauxbatons e Durmstrang – e ouvir Rony comentar que há alguns anos seu irmão Bill tinha “uma correspondente em uma escola no Brasil” (agora sabemos que a tal escola se chama Castelobruxo, graças, novamente, a escritos postados por Rowling no Pottermore – quem sabe o lugar não vai aparecer ou pelo menos ser citado na série Animais Fantásticos, como já aconteceu com a norte-americana Ilvermorny?).

Personagens novos também aparecem aos montes: os próprios Bartolomeu Crouch e Barty Crouch Jr; Ludo Bagman; Viktor Krum; Fleur Delacour (que eu odiava a princípio, mas que depois passei a amar profundamente); Alastor Moody; Denis Creevey; Winky; Madame Maxime; Igor Karkaroff; a super polêmica (e tão detestada) Rita Skeeter; o pobre Frank Bryce – podemos colocar até mesmo Cedrico Diggory nessa lista, já que ele havia sido citado tão superficialmente até aqui.

Ficamos sabendo mais sobre o passado de Hagrid e sobre a existência e os hábitos dos gigantes – e prestamos mais atenção a outras criaturas: os sereianos; e também os elfos domésticos, especialmente por meio da apresentação de Winky, a contratação de Dobby por Dumbledore e a criação da F.A.L.E. por Hermione. Conhecemos Priori Incantatem, Veritaserum, as Maldições Imperdoáveis e a Penseira – e finalmente entendemos o quê, exatamente, matou os pais de Harry, e o que afastou Neville de seus pais. Visitamos A Toca mais uma vez; e assistimos aos primeiros passos das Gemialidades Weasley – e também da ambição cada vez maior de Percy e de sua cega lealdade ao Ministério da Magia. Mais importante ainda: aprendemos muito mais sobre Voldemort, tanto sobre seu passado e sua família quanto sobre seus tempos áureos e sua forma de atuação, com os Comensais da Morte e a Marca Negra – e descobrimos, com maior ou menor grau de surpresa, quem são alguns desses Comensais.

E é importante dizer: por mais que eu tenha ressalvas quanto à trama em si, O Cálice de Fogo não decepciona na escrita – como Rowling jamais decepciona. Mesmo a narrativa em volta de Barty Crouch Jr e seu plano é muito bem construída – pense, por exemplo, no desaparecimento de Bertha Jorkins, ou no fato de que (por causa da famosa paranoia do personagem) ninguém levou muito a sério o ataque sofrido pelo verdadeiro Alastor Moody em sua casa, bem no começo no livro. Há ainda as construções de relacionamentos: a briga entre Harry e Rony; o ciúme que Rony sente da proximidade entre Hermione e Krum; a frustração de Hermione pelo comportamento de Rony no Baile de Inverno; os sentimentos de Harry em relação a Cho… E a tristeza que todos – personagens e leitores – sentem com a morte de Cedrico, ao fim do livro: no discurso final de Dumbledore, eu chorei pela primeira vez lendo Harry Potter. “Lembrem-se, se chegar a hora de terem de escolher entre o que é certo e o que é fácil, lembrem-se do que aconteceu com um rapaz que era bom, generoso e corajoso, porque ele cruzou o caminho de Lord Voldemort. Lembrem-se de Cedrico Diggory.”

O livro termina com Voldemort de volta, e os caminhos entre Hogwarts e o Ministério (ou entre os seguidores de Dumbledore e Harry e os seguidores de Cornelius Fudge) separados – o que vai determinar o tom e os acontecimentos descritos nos próximos livros. Apesar de um ou outro detalhe questionável na trama, O Cálice de Fogo é sim um livro muito interessante – e definitivo para o que viria em A Ordem da Fênix; este, ao lado de O Prisioneiro de Azkaban, um dos meus volumes favoritos da saga. No próximo texto sobre a releitura de Harry Potter, a gente vê mais sobre ele.

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