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O triunfo e a queda do sonho americano em “Nasce uma Estrela”

Foto: Clay Enos/Warner Bros./EFE

Tal como os clássicos que ultrapassam as barreiras do tempo, algumas histórias passam a viver no imaginário das pessoas, adquirindo maleabilidade para que possam se adaptar às mudanças da época em que são contadas.

Assim podemos definir Nasce uma Estrela, levada aos cinemas quatro vezes, a primeira há oitenta anos e a última estreia hoje, dia 11, no Brasil. É um verdadeiro resumo do sonho americano em toda sua glória que, por vezes, entra em declínio, o que parece ter se transformado em via de regra.

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Lady Gaga assume o papel que outras vezes foi de Judy GarlandBarbra Streisand, grandes nomes da cultura pop, cada uma à sua época e maneira, mas sempre representando a jovem de trabalho ou origem modestos que anseia pela vida de artista na indústria do entretenimento.

Se a Esther assinada por Judy buscava a fama em números musicais teatralizados e a de Barbra na indústria musical, a protagonista de Gaga (que nessa versão se chama Ally) é levada ao universo do sucesso na internet, dos shows cheios de pirotecnia e um corpo de balé afinado, o que não é desconhecido da cantora, que assume sua primeira protagonista nas telonas.

As primeiras versões nos apresentam uma personagem masculina que sucumbe ao vício, levando suas trajetórias a um espiral em queda-livre. Isso coincide com a ascensão profissional das protagonistas. A cargo do diretor estreante Bradley Cooper, o redneck Jackson Maine (sobrenome mantido de duas das outras três contagens) é uma espécie de mistura de Johnny Cash e Jim Morrison com péssima dicção para falar que não consegue manter uma carreira aparentemente sólida graças ao alcoolismo.

Diferente dos anteriores, em que a principal motivação para a derrocada parece ser o sucesso das parceiras, deixando a adicção como um adendo, o novo filme joga o homem no centro da história. O psicológico da personagem de Bradley é mais desenvolvido. Entende-se o seu vício como a doença que é, sendo tratada como tal e não mais como uma atitude de rock star.

 

Foto: Clay Enos/Warner Bros./EFE

 

A identidade é um aspecto que se destaca no longa. Ally tem como hobby apresentar-se em um clube gay, cercada por suas amigas drag queens (egressas do reality show Rupaul’s Drag Race), onde conhece seu par romântico, que passa a tratá-la como pupila. Essa imagem em específico, inclusive, pode nos levar à equivalente da versão de 1954.

trailer do filme já ofereceu a deixa de que a mocinha é insegura com relação a sua aparência, uma mensagem já proclamada pela sua intérprete e uma talvez intencional referência à recusa de Barbra Streisand de retocar o nariz após ser compelida a fazê-lo no início de sua carreira (o que pode ser que você lembre de ter visto em Glee), revelando o caráter identitário das discussões que caracterizam os tempos atuais.

Os shows de Jackson já não remetem à contracultura de Woodstock ou Isle of Wight como os da personagem de Kris Kristofferson em 1976, embora algumas locações e cenas referenciem tal versão. Dessa vez, as plateias assumem os tons amarelescos da cultura hipster antropomorfizada nas imagens do festival Coachella, usado como palco em cenas do filme (ao lado do festival britânico Glastonbury).

O ideal americano é representado e ridicularizado no mesmo filme, jogando-o na latrina quando fica face-a-face com suas intempéries. Se em 1937 Janet Gaynor viu o agridoce da novata Hollywood sonora, Bradley Cooper representou a exploração da música como um mercado na era do streaming.

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Foto: Clay Enos/Warner Bros./EFE

 

A cada tempo, uma mesma história encontra sua própria maneira de ser contada. As mulheres retratadas pelas atrizes anteriores fizeram o caminho pelo qual Lady Gaga passou sem erros imperdoáveis. A ambição da primeira, o modo como o soturno atinge a segunda e a penúltima com seu feminismo alegre e amotinado tornaram Ally um produto do século XXI. Um tanto mais moderno e menos machão, o sedutor Jackson é a peça-chave para se entender o homem de hoje. Com três estrelas e meia de cinco, acho que talvez o título Nasce uma Estrela não faça mais jus ao conto da carochinha.

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